Nem onça, nem Urca: felino que viralizou em morro do Rio é um 'gatão' do Flamengo; confira a história

Hellen Guimarães
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Não se deve jamais trocar gato por lebre… e muito menos por onça-parda. Mas foi o que aconteceu nesta terça-feira com vários moradores da cidade do Rio. Um vídeo de um felino em cima de um morro, com direito ao Pão de Açúcar ao fundo, viralizou nas redes sociais. Os usuários identificaram o bicho como uma fera silvestre que teria voltado a circular livremente no Morro da Urca durante a quarentena. A dúvida levou à investigação de especialistas, que desvendaram o mistério e o erro completo: trata-se de um gato doméstico no Morro da Viúva, no Flamengo.

As imagens passaram a ser associadas a outras, reais, mostrando uma regeneração da natureza diante do isolamento humano causado pela pandemia do coronavírus. Porém, o biólogo Izmar Aximoff, doutor e especialista em mamíferos, não caiu na pegadinha. Morador da Tijuca, ele passou o dia em contato com colegas da área ambiental tentando descobrir o que de fato acontecia nas imagens.

— Ontem, desde cedo, eu recebi o vídeo de vários vizinhos e amigos. E algumas vezes, vinculada a esse vídeo, vinha a foto de um puma, ou onça-parda ou suçuarana, que são nomes diferentes para o mesmo bicho. Ele é, depois da onça-pintada, o maior felino que nós temos nas Américas, e é mais comum do que a onça-pintada também. Quando eu vi as imagens, logo de cara tive certeza de que não era o puma. Primeiro pelo porte, porque o do vídeo é bem menor — explicou Aximoff.

Depois de analisar o tamanho, conta o biólogo, ele viu que, apesar de não ter muita qualidade, o vídeo deixava claro que o animal não era pintado. O tom de pele homogêneo já reduz bastante as possibilidades, pois, conforme explicou Aximoff, só há dois felinos não pintados na Mata Atlântica: a onça-parda e o gato mourisco, cuja cor varia de marrom a acinzentado.

— Mas eu sabia, de antemão, que não era nenhum dos dois, porque, na cidade do Rio, a gente não tem a ocorrência de felino silvestre, tanto na Floresta da Tijuca como nas unidades de conservação da Zona Sul. Já teve pesquisa com armadilha fotográfica atrás desses bichos, e eles não foram encontrados. O único lugar onde já houve registro é no Parque Estadual da Pedra Branca, na Zona Oeste. Mas a chance de ter onça-parda circulando na cidade do Rio é zero, a não ser que alguém solte — esclareceu.

Aximoff contou que, assim que recebeu as imagens, compartilhou em grupos de funcionários de órgãos ambientais do Rio, como o Inea e a Secretaria de Meio Ambiente. Alguns gestores de unidades de conservação comentaram que o bicho parecia grande demais para ser um gato doméstico, e ficou a dúvida de que pudesse ser um gato-pintado. Foi quando o diretor do Monumento Natural dos Morros da Urca e Pão de Açúcar, Marcelo Barros de Andrade, entrou em contato com o biólogo e a investigação começou.

— Falei para ele: “Marcelo, a chance de ser gato silvestre é quase zero, mas vamos dar uma olhada". E aí ele também me falou que não tinha certeza do local do vídeo, porque, quando ele recebeu, algumas pessoas escreveram para ele que era no Costão do Leme, outros disseram que era no Morro da Urca e, por último, uma pessoa falou que poderia ser no Morro da Viúva. A gente descartou direto o morro do Leme porque não teria como ter aquela visão do Pão de Açúcar que aparece no cantinho, no final do vídeo.

Mas como determinar a localização exata? O jeito foi unir o conhecimento técnico ao uso de um software avançado de geolocalização.

— Minha base era, principalmente, um momento em que o animal passa por cima de uma faixa mais clara na rocha, que é onde desce a água de chuva, uma canaleta, que fica com uma coloração diferente. Com isso e algumas características da vegetação que tinha no entorno, comecei a buscar aquela imagem, utilizando o Google Earth Pro, que me permite ver em 3D o morro. Aí procurei por toda a Urca para ver onde poderia ter sido registrada, considerando esses pontos da imagem, mas não encontrei. Quando fui ver no Morro da Viúva, achei certinho a mesma imagem. Coloquei uma do lado da outra e deu pra ver que era exatamente o mesmo local.

Aximoff, então, consultou o gestor da unidade de convervação do Flamengo, que confirmou que se tratava mesmo do Morro da Viúva. Mas e a “onça”?

— Se você olha o Morro da Viúva no Google Earth, você vê que é um afloramento rochoso muito pequeno, cercado completamente por prédios. Então, a chance de ter um felino silvestre ali é zero. Primeiro, porque é uma área muito pequena, e geralmente felino, mesmo sendo de pequeno porte, depende de uma área maior para sobreviver, se deslocar, se alimentar, para dispersar. E não teria como o animal chegar ali naturalmente, passando pelas ruas. A partir do momento que a gente sabia que era um gato doméstico, maior do que o normal, e no Morro da Viúva, resolvi colocar no Google essas palavras-chave para ver se aparecia alguma foto de outro bicho ou daquele — lembrou.

E eis que o primeiro resultado da busca era um post procurando por Jamie, “um gato amarelo grandão, de aproximadamente 6kg, perdido no Morro da Viúva” no fim do ano passado. O biólogo imediatamente entrou em contato com a dona do animal. Não era Jamie, mas o mistério, ao menos, estava mais do que resolvido.

 — Eu comecei a rir, não acreditei naquilo. Aí liguei para a Aline, a dona do gato, porque tinha o telefone dela no post. Perguntei se ela tinha visto o vídeo, ela disse que o marido recebeu, mas que ela não chegou a ver, aí expliquei a história e ela não acreditou. Ela falou que de fato poderia ser ele, mas que já tinha visitado aquela localidade e sabia que ali tem alguns moradores, com uma quantidade muito grande de gatos, e vários amarelos bem grandes. Aí fechou tudo. De fato, é um gato amarelo doméstico. Não é de grande porte porque, para ser considerado assim, o bicho tem que ter acima de 20kg, e esse gato pesa menos de 10. Mas é um gatão — concluiu Aximoff.