'Nem pense em me matar': mulheres se unem em campanha contra o feminicídio

Leda Antunes
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“Nem pense em me matar”: é em torno desta afirmação categórica que mulheres de todo o país se reuniram para formar o Levante Feminista contra o Feminicídio, uma frente suprapartidária que lança nesta quinta-feira (25) uma campanha nacional de combate a manifestação mais extrema da violência contra a mulher.

A mobilização, que se apoia na ideia de que "quem mata uma mulher, mata a humanidade", pretende denunciar a omissão do Estado e exigir a proteção da vida das brasileiras num contexto em que a pandemia de Covid-19 as deixou ainda mais vulneráveis à violência. Em 2020, o país registrou uma denúncia de violência contra a mulher a cada cinco minutos.

O mote da campanha vem do samba "Corpo Meu", uma canção-manifesto composta por Cris Pereira e interpretada por Fabiana Cozza que também será lançada hoje, em live nas redes sociais do Levante. A transmissão acontece a partir das 10h e terá a participação de nomes relevantes dos movimentos feministas latino-americanos, como Veronica Gago, do Ni Una Menos, da Argentina, Deborah Duprat, ex-procuradora Federal dos Direitos do Cidadão, e Célia Xakriabá, educadora e ativista indígena.

O recrudescimento da violência contra as mulheres no país foi o que motivou a criação do Levante e da campanha. Só no primeiro semestre do ano passado, os assassinatos de mulheres motivados por seu gênero cresceram 2%, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. No fim do ano, uma série de feminicídios que tomaram conta do noticiário — a começar pela juíza Viviane Amaral, morta a facadas por seu ex-marido na frente das filhas — deixou a socióloga Vilma Reis sem sono. A indignação foi compartilhada pela filósofa Marcia Tiburi, que se manifestou nas suas redes sociais. Junto da pesquisadora e assistente social Tania Palma, as três decidiram iniciar uma mobilização.

— Decidir se separar é assinar uma sentença de morte no Brasil. O caso do Rio evidenciou que as mulheres vão morrer e pronto e não tem nada que segure os matadores. A gente resolveu fazer um levante mesmo, dar o nosso grito — afirma Reis, integrante do Coletivo Mahin, na Bahia, da Coalizão Negra Por Direitos, e uma referência dos movimentos negros no país. — Desde 2016, há um desmonte absoluto nos mecanismos de prevenção e enfrentamento da violência contra a mulher. Em plena pandemia, a violência tomou dimensões monumentais dentro das casas — diz.

O Levante ganhou corpo e hoje é formado por cerca de 200 pessoas que se articulam remotamente para a construção de uma ação conjunta pela vida das mulheres em todos os estados brasileiros. Entre elas, estão mulheres negras, indígenas, quilombolas, ribeirinhas, trabalhadoras rurais, trabalhadoras domésticas, parlamentares, dos movimentos LBTQIA+ e de outros segmentos das organizações populares e da sociedade civil.

— Somos mulheres feministas, antirracistas e estamos na luta popular — conta Reis.

O grupo construiu coletivamente um manifesto, lançado em 12 de março, que já reuniu 25 mil assinaturas. O texto pontua que a existência de uma "cultura de ódio" direcionada às mulheres brasileiras precisa chegar ao fim, e que a prática do crime de feminicídio "nunca esteve tão ostensiva e extremista" quanto agora, no governo de Jair Bolsonaro e sobretudo no contexto da pandemia do novo coronavírus.

Nos próximos dois anos, o Levante pretende atuar mobilizando a sociedade e cobrando respostas dos poderes executivos, legislativos e judiciário para as violências sofridas pelas mulheres brasileiras, sejam elas institucionais ou domésticas. A campanha lançada hoje também terá ações pontuais em cada estado, organizadas pelas mulheres que vivem e conhecem a realidade específica do feminicídio em cada lugar.

Com a hashtag #NemPenseEmMeMatar, a frente busca atingir um público amplo e disseminar a ideia de que a violência contra a mulher é um problema que afeta não só as famílias, mas a sociedade inteira.

— Nós estamos fazendo um trabalho de base e queremos agregar o maior número de mulheres que pudermos, mesmo aquelas que não se entendem como feministas — explica Tania Palma, que também integra o Grupo de Estudos sobre Feminicídio da Universidade Federal da Bahia — Não é preciso ser feminista para querer o fim do feminicídio. A gente tem que compreender politicamente isso.

Além do feminicídio, estão na mira do Levante a violência política e as ameaças sofridas por mulheres eleitas, em particular as negras, o que chamam de desmonte das políticas de acolhimento para mulheres em situação de violência, a oferta de creches, a política de liberação de armas e munições encampada pelo governo de Jair Bolsonaro e até o novo posicionamento do Brasil na comunidade internacional ao se alinhar a países ultraconservadores no que diz respeito aos direitos humanos. Segundo suas integrantes, o Levante quer fortalecer a democracia.

Todo o trabalho do grupo é feito pelo que se chama de perspectiva interseccional. Ou seja, reconhecendo que a violência atinge mulheres diferentes de formas diferentes e é mais implacável contra as mulheres negras.

— Diferentes de todas as campanhas que já tivemos, desta vez temos muitas mulheres negras na coordenação. Lideranças negras nacionais que estão a frente desse processo, definindo um plano de luta. Nós somos formadas no movimento feminista negro — diz a socióloga Vilma Reis — Nós feministas e lutadoras antirracistas é que qualificamos a democracia brasileira — completa.