Nenê fala de Libertadores com Fluminense, interesse do Flamengo, Vasco e desejo de chegar a mil jogos

Marcello Neves
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Alexandre Cassiano / Agência O Globo

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Alexandre Cassiano / Agência O Globo

O apelido não incomoda. O “vovô” sabe que é carinhoso, principalmente porque, aos 39 anos, o desempenho é bom: são 19 gols em 36 jogos, a maior média desde os tempos de PSG há quase um década. A temporada 2020 é marcante pelos 20 anos como profissional completos pelo camisa 77, que não se arrepende da maioria das decisões que tomou. Faltou a seleção brasileira? Claro, mas a ausência é compensada pela trajetória marcante na Europa e um quase título de Libertadores. A meta é se aposentar no Fluminense, mas não antes de atingir um objetivo pessoal curioso: chegar a marca de mil jogos na carreira. Matematicamente é possível, mas ele consegue chegar até lá?

Se conseguir, pode ser usando verde, branco e grená, mas precisará ir além do vínculo atual. O meio-campista renovou contrato com o Fluminense até o fim de 2021. Antes, o vínculo era válido até dezembro de 2020. Mesmo perto dos 40 anos, ele é o artilheiro tricolor na temporada e está na briga para ser o maior goleador do Brasil.

— Quero conquistar um título importante com o Fluminense e voltar a jogar a Libertadores. Também quero chegar aos mil jogos (hoje, Nenê tem 775, segundo números do site OGol). Como a gente faz cerca de 50 jogos por ano, pensei que dá para chegar. Sempre me inspirei muito no Alex por ser um meia que fazia muitos gols e fez muitos jogos. Quero chegar também aos 300 gols (atualmente tem 228)— vislumbra o atacante, que após lesão na coxa esquerda trabalha para voltar ao time.

Você completou 20 anos de carreira. Qual foi o momento mais marcante?

Tive vários momentos marcantes. Por exemplo, são vários sonhos que eu fui realizando ao longo da minha carreira. Desde quando estreei no profissional, que era um sonho de criança, meu primeiro gol contra o Madureira, o primeiro time grande, depois jogar Libertadores e fazendo gol na semifinal, convocação, ir para a Europa... No PSG ganhei muitos títulos e prêmios, fui artilheiro... Agora no Fluminense estou em casa.

O que o Nenê de 39 anos ensinaria para o Nenê que estava a começando a carreira no Paulista de Jundiaí?

Ter um pouquinho mais de paciência, pensar na frente e não apenas no momento. Acho que eu, hoje, não teria saído do PSG naquela época. Poderia ter saído para outro clube, mas não para o Qatar porque foi uma decisão totalmente financeira. Poderia ter ido para o Milan (risos). Acho que é ter mais calma e paciência.

Como jogador e como pessoa, qual o maior aprendizado nesses 20 anos?

Maior aprendizado é nunca desistir e achar que está tudo acabado porque perdeu ou foi eliminado. Eu fico puto quando perco até rachão (risos). Aprendi que posso melhorar e reverter essas situações. Muita gente dizia que eu não ia nem jogar profissionalmente...

Quando foi isso?

Foi na época do Paulista, alguns dirigentes diziam que eu não ia fazer nada na época que tinha o interesse do Palmeiras. Não tenho rancor nenhum, mas isso eu tenho como um combustível de mostrar que não estavam corretos.

No Fluminense, brincam muito com “o vovô tá on”. Hoje você se vê nesse papel de ser um exemplo para os jogadores mais jovens?

Com certeza. São poucos jogadores que estão na idade que estou e jogando em alto nível. Procuro sempre dar exemplo de disciplina. Não só de estar ali, mas de fazer com que um menino de 17, 18, 19 anos se inspire no dia a dia. Eu recebo muito carinho de todo mundo com relação a isso.

Você prefere o Nenê jogador de futebol ou o Nenê jogador de Counter-Strike (jogo de tiro on-line) nas lives com o Neymar?

O Nenê jogador definitivamente (risos). Eu sou muito ruim. A gente joga todos os dias praticamente, mas acabei sendo muito zoado porque perdemos duas vezes de 16 a 0. Eles ficam me zoando de pistoleiro sem dedo, porque não mata ninguém.

Falando em Neymar, o Paris Saint-Germain, onde ele joga, foi o maior momento da sua carreira?

Acredito que foi sim. No Brasil também tive grandes momentos, mas podemos colocar o Paris como um dos melhores momentos. Eu posso romper nesse ano o recorde de 27 gols na temporada, por exemplo. Estou ali, estou perto, quem sabe? Pode ser a melhor temporada da minha carreira com 39 anos no Fluminense. Mas, até então, fico com a do Paris.

Ter saído do PSG para o Al-Gharafa, do Qatar, no auge da carreira fechou as suas portas na seleção brasileira?

Sim. Pensei várias vezes que foi quase (ser convocado). Treinadores até falavam sobre isso na época. Não fechou totalmente, mas diminuiu muito as chances. Faz falta, é a única coisa que eu posso dizer que fiquei com aquela sensação de que poderia ter acontecido. Acabou sendo um aprendizado. Não se pode ter tudo na vida.

Quais as particularidades ou diferenças de jogar no Vasco e no Fluminense?

É difícil dizer. A particularidade do Vasco é o estádio deles, quando enchem São Januário vira uma pressão muito grande. Já no Fluminense, a torcida tem um amor muito bonito. É muito cativante, algo até espantoso. O Maracanã é um estádio maior, eles acabam ficando mais longe, mas tem esse amor e esse carinho.

No Vasco, houve uma situação curiosa. O Ronaldinho Gaúcho quase foi para lá, mas acertou com o Fluminense. Quando você chegou, o Eurico Miranda falou que o Ronaldinho não teria a honra de jogar com o Nenê. Lembra dessa situação?

Só ele que tinha coragem de falar essas coisas (risos). Eu fiquei muito feliz com as brincadeiras na época. O Eurico sempre me tratou bem, foi um grande dirigente para o clube. Ele era apaixonado pelo Vasco e não estava nem aí para a imprensa. Fico lisonjeado por ele ter dito que seria um prazer para o Ronaldinho. Na verdade, seria um prazer para mim ter jogado com o meu ídolo (risos). Ele levou para um lado mais brincalhão.

Você é ídolo no Vasco e segue pelo mesmo caminho no Fluminense, mas quase foi pro Flamengo em 2013. Você lembra por que não deu certo?

Teve interesse em 2013, quando estava negociando com o Santos também. Teve também interesse deles quando eu estava no Vasco, mas o Eurico falou que não poderia liberar e eu nem abri essa hipótese.

Você participa de algumas ações sociais. Você se considera uma pessoa engajada?

Acredito que sim porque já fiz vários jogos beneficentes na minha cidade. Todo ano eu ajudo as instituições da minha cidade. Quando não faça o jogo beneficente, faço as doações das cestas básicas. Tenho um instituto junto com a minha esposa para ajudar os jovens a terem melhores condições de fazer cursos profissionalizantes. Acho que posso dizer sim, tento ajudar o máximo que posso.

O que Nenê espera deixar de legado?

Respeito. Todo lugar que passei, sempre dei o meu melhor. Conquistei o carinho de muitas pessoas. Quando completei 20 anos de carreira, recebi muitas mensagens até de rivais, de pessoas que têm carinho por mim. Isso é uma coisa muito bacana.

Você planeja jogar mais quantas temporadas? E pretende se aposentar no Fluminense?

Estou bem feliz, penso em me aposentar no Fluminense, sim. Acredito que posso jogar mais uns dois, três anos.

Quando parar de jogar já tem algum projeto em mente para ser feito?

Quero ser treinador. Não tinha essa cabeça antes, achava que não ia ficar ativo dentro do campo, no dia a dia. Hoje eu vejo que vou sentir muita falta se não estiver ali. Vejo o cargo de treinador como muito bacana. Gosto muito do Carlo Ancelotti, com quem trabalhei no Paris, o Odair Hellmann tem uma gestão e uma transparência com o clube muito boa, do Maurício Pocchetino, com quem trabalhei no Espanyol.