Nenê tenta definir legado no Vasco em partida que vale retorno à Série A

Nenê é provavelmente o jogador mais importante que passou pelo Vasco na última década. E talvez faça contra o Ituano sua última partida pelo cruz-maltino — o contrato atual acaba no fim da temporada e não há sinais claros de que está nos planos da SAF, seja para a disputa da Série A ou B. Ele protagoniza na Colina um fenômeno ocasional no futebol: o do jogador inquestionavelmente relevante, cujo legado em um clube não está muito claro. A falta de títulos ou resultados mais expressivos deixa espaço para questionamentos.

O camisa 10, contando as duas passagens por São Januário, não está exatamente zerado em termos de troféus: foi campeão carioca em 2016, título pouco expressivo hoje quando se fala em grandes clubes no Brasil, mas relevante no contexto vascaíno, há seis anos sem dar uma volta olímpica, há dois sem jogar a Série A. Porém, ele está fortemente vinculado às últimas participações do Vasco na segunda divisão — para se ter uma ideia, jogou mais pelo cruz-maltino na Série B do que na elite (77 contra 51).

Como será lembrado, daqui a dez, 20 anos, dependerá demais do resultado que conseguir com o Vasco neste domingo, a partir de 18h30, em Itu. Nenê pode se transformar no rosto de uma era que o torcedor espera deixar para trás, mais cedo ou mais tarde, com a venda do futebol para a 777 Partners. Ou então ser um parênteses agradável dentro de um período que, no geral, o vascaíno tentará esquecer.

No cenário mais positivo, Nenê pode se fixar na história vascaína como uma espécie de meio salvador.

Porque terá jogado a Série B sem muita responsabilidade por isso, mas com participação decisiva nos retornos da equipe à primeira divisão. Foi assim em 2015. Nenê chegou ao Vasco no meio do Brasileiro, quando o time era lanterna. Graças a ele, a esperança de escapar do rebaixamento durou até a última rodada. No ano seguinte, foi o destaque da campanha de volta para a Série A.

Este ano, o roteiro pode ficar bem parecido. Basta o Vasco ao menos empatar com o Ituano para confirmar um lugar entre os quatro primeiros da Série B. Neste caso, Nenê será novamente um dos principais responsáveis por um acesso no ano seguinte a uma decepção cuja culpa passou longe de ser dele. Em 2021, disputou apenas 14 jogos na campanha que terminou com um medíocre 10º lugar na segunda divisão.

Se conseguir o acesso esta noite, Nenê entrará para a história do Vasco pelos gols marcados — os 59 anotados o colocam como segundo maior artilheiro do time no século, atrás apenas de Romário. São 187 partidas disputadas no período.

Terá sido também o veterano que serviu de para-raios e referência no elenco para duas gerações de jovens revelados pelo cruz-maltino: a de Douglas Luiz e Paulinho, na sua primeira passagem pelo Vasco, e a de Andrey Santos, atualmente.

Aos 41 anos, dá sinais de cansaço, mesmo mantendo ótimo percentual de jogos disputados — este ano, esteve em campo em 84% das partidas possíveis. Tamanha longevidade reflete os cuidados com o próprio corpo, o profissionalismo. É também conhecido por ser personalista e reagir mal à reserva — um dos maiores momentos de baixa na Colina foi quando se desentendeu com o técnico Zé Ricardo ao ser substituído, este ano. Teve de pedir desculpas públicas pelo episódio.

Em 2018, quando se despediu do Vasco rumo ao São Paulo, partiu dele o desejo de sair, mas fez questão de deixar as portas abertas, abrindo mão de dinheiro que tinha a receber. Hoje, gostaria de permanecer mais um ano, voltar a disputar a primeira divisão com o Vasco. Para isso, precisa primeiro garantir o acesso contra o Ituano. E depois convencer a SAF de que pode.

Outros ‘Nenês’

Este cenário talvez seja o único possível para Nenê consolidar legado ainda maior, como ídolo — permanecer por mais tempo e participar de uma guinada vitoriosa da equipe pós-SAF. A história do cruz-maltino mostra que não é fácil se sobressair em um período sem títulos. Entre 2001 e 2011, o Vasco acumulou muito mais derrotas do que vitórias. Nenhum jogador dessa época ficou fortemente marcado no torcedor.


Sendo otimista, pode haver esperança para Nenê. Outras passagens sem taças marcantes do Vasco, entre 1936 e 1945, e entre 1958 e 1970, renderam nomes lembrados até hoje, afirma João Ernesto Ferreira, ex-diretor do Centro de Memória do cruz-maltino.


— Entre 1936 e 1945, o Vasco teve Niginho, que foi à Copa de 1938. Teve Lelé, Jair da Rosa Pinto. Entre 1958 e 1970, teve Brito, campeão do mundo. Célio, atacante, foi meu primeiro ídolo — lembrou.