Netanyahu pode voltar ao poder em Israel com ascensão de ultranacionalistas, diz boca de urna

TEL AVIV, ISRAEL (FOLHAPRESS) - Naquilo que pode ser a consolidação do renascimento político do ex-primeiro-ministro de Israel Binyamin Netanyahu, seu partido saiu da eleição parlamentar desta terça (1º) como o mais votado, segundo as pesquisas de boca de urna divulgadas pelos principais canais de TV locais.

De acordo com as projeções, a coalizão do Likud, que deve incorporar legendas ultranacionalistas —cuja ascensão é a maior surpresa do pleito—, deve alcançar 61 ou 62 cadeiras do Parlamento de 120 assentos.

Esta foi a quinta eleição desde março de 2019, coroando um impasse político profundo. Apesar do cansaço com o volume de pleitos, um número recorde de eleitores compareceu às urnas —o voto não é obrigatório no país. Até as 20h locais, a cifra era de 66,3%, a maior desde 1999, em um possível sinal de que a população almeja que essa seja a última rodada de votação no futuro próximo.

A se confirmar os 31 ou 32 assentos do Likud e a maioria de 61 ou 62 para seu bloco, o ex-premiê, então, terá chance de montar a próxima coalizão de governo. Seria a retomada do posto que perdeu no pleito de março de 2021, quando uma aliança de oito partidos bastante heterogêneos tomou as rédeas do país —a "geringonça" caiu em junho passado, após perder maioria e se curvar ao peso das divisões internas.

Em um pronunciamento inicial, ele definiu a boca de urna como "um bom começo".

O resultado mostra que não se pode subestimar a aptidão política de Netanyahu. Aos 73 anos, ele ocupou a cadeira de primeiro-ministro por 15 anos (12 consecutivos, de 2009 até 2021) e é considerado o político mais carismático e habilidoso que o país já teve.

Sua possível volta ao poder, porém, se dará mais à direita do que nunca: dependerá do apoio em dois partidos ultraortodoxos (Shas e Judaísmo da Torá) e em uma coligação ultranacionalista de direita, a Otzmá Yehudit (Força Judaica).

Este último grupo é liderado por Bezalel Smotrich e Itamar Ben-Gvir, parlamentares que defendem a expulsão de cidadãos árabes que não jurem lealdade a Israel e se opõem aos direitos da comunidade LGBTQIA+. A coligação deve ter 14 ou 15 cadeiras no Parlamento, se tornando a terceira maior força política do país.

A explicação para sua ascensão é complexa, mas num cenário de tensões cada vez mais candentes com a comunidade palestina, pode ser resumida na ideia de que eles oferecem soluções rápidas e duras no conflito, por meio de mensagens radicais que jovens e moradores da periferia —mas não só eles— apreciam.

A virtual aliança de Netanyahu, então, se daria sem um só partido de centro ou esquerda. Ele prometeu, inclusive, que Smotrich e Ben-Gvir serão ministros, talvez de pastas como Defesa e Segurança Interna, o que causa espécie em eleitores mais moderados.

Assim que os votos oficiais forem contabilizados e entregues oficialmente para o presidente Isaac Herzog, é provável que ele conceda ao ex-premiê o prazo de três semanas para costurar o próximo governo —o político ainda pode pedir mais uma semana, totalizando um mês de negociações.

Se falhar, Herzog poderia conceder o privilégio da costura ao segundo colocado, o atual premiê, Yair Lapid, 58, líder do Yesh Atid (Há Futuro). Ele também teria um mês e, em caso de eventual fracasso, novas eleições seriam convocadas. O partido do primeiro-ministro deve ter de 22 a 24 cadeiras, número alto para uma sigla cujo líder entrou na política há apenas dez anos, mas menor do que o esperado.

A apuração oficial, de todo modo, nem começou ainda e pode levar dias —as pesquisas também têm margem de erro e pode haver variação em uma ou duas cadeiras. Portanto, nenhum cenário é totalmente conclusivo.

O partido árabe Balad, por exemplo, não superou os 3,25% dos votos necessários para entrar no Parlamento e obter 4 assentos, mas está no limiar e pode ser que passe na contagem oficial. Se isso acontecer, as 120 cadeiras serão reorganizadas, mas não é certo qual legenda perderia deputados —se forem os da coalizão de Netanyahu, ele cairia para 57 ou 58, abaixo da maioria de 61.

Durante toda esta terça, os principais candidatos tentaram chamar a atenção dos eleitores por meio de telefonemas pré-gravados, mensagens de WhatsApp e SMS, posts em redes sociais e divulgação de fotos e vídeos. Lapid, por exemplo, visitou o túmulo de seu pai, o ex-ministro da Justiça Tommy Lapid, morto em 2008. Netanyahu levou cinegrafistas ao Muro das Lamentações, em Jerusalém, bem como o atual ministro da Defesa, Benny Gantz, da coligação Machané Mamlachtit (Campo Nacional).

A principal mensagem da blitz midiática foi o que os israelenses chamam de pedido de "Gewalt", uma expressão em iídiche que significa algo como um desesperado "Ai, meu Deus!". A ideia é sensibilizar os eleitores para que votem em seus partidos.

Quem mais usou desse artifício foi Netanyahu, com posts sugerindo que a minoria árabe estaria indo votar em massa. Mas a tática foi ampla, adotada também pelos partidos que perigavam não superar a cláusula de barreira —nunca houve tantos sob esse risco. Quase todos conseguiram, porém, incluindo os tradicionais de esquerda Meretz e Avodá (Trabalhista), que terão de 4 a 6 assentos cada um; e direitista Israel Beiteinu (Israel Nossa Casa), com 4 ou 5.

Dos três da minoria árabe (Ra’am, Hadash-Ta’al e Balad), apenas o último pode não ter superado o limiar. Isso indica que a minoria árabe-israelense (21% da população de Israel) só contará com 8 parlamentares no Knesset —no passado já chegou a ter 15 representantes.