Netanyahu quer imprensa sob seu controle

Elías L. Benarroch.

Jerusalém, 5 abr (EFE).- O golpe que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, deu na nova Corporação Pública de Radiofusão, erradicando os serviços de notícias em uma instituição independente, ameaça, segundo os principais comentaristas políticos locais, corroer a democracia e a liberdade de imprensa no país.

Esta foi a penúltima batalha do "Imperador da comunicação", como o chamou ironicamente o veterano jornalista israelense Dan Shilon, para quem a decisão não é a mais grave. "O pior está por vir", alertou.

O alarme soou na semana passada com um acordo entre Netanyahu e seu ministro das Finanças, Moshe Kahlon, sobre o futuro de uma nova empresa que deve substituir o conhecido "Reshut Hashidur" (Autoridade de Difusão), um serviço que há anos está à deriva.

O próprio Netanyahu e seu então ministro da Comunicação, Gilad Erdán, impulsionaram em 2015 uma lei para a criação do novo órgão a fim de acabar com um serviço de radiotelevisão que estava sendo vítima de sua própria burocracia, um grande número de funcionários e salários descomunais.

A nova empresa, chamada "Kan", que em hebraico significa literalmente "Aqui", deveria ter sido inaugurada em 2015, em paralelo ao desmantelamento da anterior, mas as lutas sindicais dos antigos trabalhadores atrasaram o processo e deram origem aos primeiros vislumbres de politização no setor.

"Para que serve a Corporação se não temos seu controle? O ministro (da Comunicação) deve controlá-la. O que acham, que vamos dar dinheiro para que publiquem o que quiserem?", disse em julho de 2016, em reunião parlamentar, a ministra da Cultura e Educação, Miri Regev.

A gota d'água para Netanyahu foi saber que a apresentadora do principal noticiário da emissora seria uma conhecida jornalista casada com seu principal rival político dentro do partido Likud, Gideon Sa'ar, que na segunda-feira anunciou seu retorno à política.

Tudo isso reforçou nele a ideia de "endireitar" o antigo órgão, mas o titular de Finanças, que já tinha gastado centenas de milhões na criação da "Kan" e a via como uma ameaça à democracia, se negou a paralisar o projeto.

O resultado: um polêmico acordo no qual o novo órgão mantém sua autonomia, mas pelo qual Netanyahu conseguiu iniciar os serviços noticiários em uma empresa separada.

"Israel não é a Venezuela de 2017, nem a Alemanha de 1933. Foi e continua sendo uma democracia baseada em um forte Poder Judiciário independente, 'imprensa livre' e claras regras de jogo político", escreveu o colunista do jornal "Yedioth Ahronoth" Nahum Barnea, advertindo que seu país mostra sinais de estar seguindo caminho parecido com o da era Hugo Chávez.

No último sábado à noite, cerca de 200 funcionários da nova Corporação se manifestaram em Tel Aviv para exigir um serviço "limpo de influências políticas" e no qual o primeiro-ministro não tenha o menor controle sobre seus serviços informativos, como ocorria até agora.

Sob as palavras de ordem de "Bibi, Kan (Aqui) não é Erdogan", "Kan não é Irã" ou "Aqui (Kan) terminam nossas transmissões", os manifestantes exigiram um serviço crítico, independente e com garantias para a liberdade de imprensa.

"De um só golpe, nos transformamos na Turquia ou na Rússia. Pisotearam a democracia, uma bandeira negra tremula sobre nós", denunciou Guil Omer, presidente do novo órgão.

O partido Likud respondeu que suas palavras "difamatórias" e "descontroladas" mostram a necessidade de tirar Kan dos serviços informativos, enquanto o próprio chefe do governo garantia que Israel continuará tendo "uma 'imprensa livre", embora tenha reconhecido que preferiria que fosse de outro tipo de notícias.

"Eu gostaria de mais concorrência, mais pluralismo. A imprensa (em Israel) não é suficientemente variada e não reflete os verdadeiros sentimentos do público. Há aqui uma indústria de notícias deprimentes", afirmou.

"Onde eles (os jornalistas) veem desemprego, eu vejo pleno emprego. Onde eles veem engarrafamentos, eu vejo grandes cruzamentos. Onde eles veem uma economia devastada, eu vejo uma economia florescente", argumentou sobre sua concepção do que deveria ser o jornalismo. EFE