Netanyahu volta ao poder em Israel, agora mais à direita do que nunca

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) "Voltaremos logo." Assim o israelense Binyamin Netanyahu discursou em junho de 2021, na sessão do Parlamento que viu uma nova coalizão ser formada, com uma frente ampla, tirando o então premiê do poder depois de 12 anos. Na ocasião, ele ainda disse que derrubaria "esse governo ruim" e voltaria a liderar o país "à sua maneira".

Mas foi na maior guinada à direita da história de Israel que Netanyahu voltou, ao tomar posse nesta quinta-feira (29) junto a uma aliança que conta com partidos ultranacionalistas e membros de extrema direita. Novamente premiê, ele promete expandir colônias judaicas na Cisjordânia ocupada, o que deve aumentar ainda mais a tensão com os palestinos.

Vencedor das eleições legislativas de 1º de novembro, Bibi, como é conhecido, apresentou o gabinete de ministros aos parlamentares pela manhã e depois venceu um voto de confiança no Knesset –o resultado já era esperado, já que sua coalizão tem maioria na Casa.

A vantagem é de 63 das 120 cadeiras, relativamente confortável para os padrões israelenses. Os últimos governos contavam com margens bem estreitas, de modo que uma só defecção resultava na perda do controle do Parlamento —um dos motivos pelos quais o país teve cinco eleições nos últimos três anos.

Netanyahu anunciou o ex-ministro da Inteligência Eli Cohen como chanceler. Na quarta (28), havia divulgado que Yoav Gallant, ex-oficial próximo ao movimento pró-assentamentos na Cisjordânia, ficaria com a Defesa.

As Finanças, por sua vez, estarão com o líder de extrema direita Bezalel Smotrich —a pasta agora será responsável pela política de colonização na Cisjordânia. Além disso, prometeu-se a ele influência no Ministério da Defesa, desagradando o comandante das Forças Armadas, Aviv Kochavi, que na segunda-feira manifestou sua preocupação em telefonema a Netanyahu.

Já Itamar Ben Gvir, também de extrema direita, será ministro da Segurança Nacional e controlará a polícia que opera na Cisjordânia, ocupada desde 1967. A escolha foi criticada pelo procurador-geral do país, Gali Baharav-Miara, que teme o risco "de politização das forças de ordem".

Ambos os extremistas se opõem à criação de um Estado palestino e já fizeram declarações preconceituosas contra a minoria árabe do país –21% da população. Ben-Gvir, aliás, foi condenado em 2007 por carregar um cartaz que pedia a expulsão dos "inimigos árabes" e os associava a espionagem.

O bloco de extrema direita também é conhecido por discursos contrários a pessoas LGBTQIA+. Nesta quinta, em sinal dúbio, o Parlamento elegeu como líder da Casa Amir Ohana, gay e aliado de Netanyahu.

Por ora, o que mais preocupa a comunidade internacional é o desejo do novo governo de expandir as colônias israelenses na Cisjordânia. Na prática, a medida converte terras associadas à Palestina em propriedades de Israel, reduzindo o território considerado crucial à criação de um Estado palestino.

A sigla conservadora Likud, do agora novo premiê, afirmou na quarta em suas diretrizes para o governo que "promoveria e desenvolveria assentamentos" em terras às quais "o povo judeu tem direito exclusivo e inatacável".

Hoje, 475 mil judeus vivem em colônias consideradas ilegais pela lei internacional. Aliados de Israel, os EUA recentemente alertaram que se oporiam a uma expansão ou a tentativas de anexação desse território.

Nesta quinta, Joe Biden disse que espera trabalhar com Netanyahu para promover a paz regional. "Os EUA continuarão a apoiar a solução de dois Estados e a se opor a políticas que ponham em risco sua viabilidade ou contradigam nossos interesses e valores mútuos."

O governo palestino foi mais categórico. "Essas diretrizes constituem uma escalada perigosa e terão repercussões na região", disse Nabil Abu Rudeineh, porta-voz do presidente Mahmoud Abbas. Nas últimas vezes que Israel tentou ampliar suas colônias na região, o Hamas, grupo fundamentalista palestino, reagiu com violência.

Ainda nesta semana, Netanyahu disse ao Parlamento que sua missão também será "frustrar os esforços do Irã para adquirir um arsenal nuclear, garantir a superioridade militar na região e ampliar o círculo de paz com os países árabes", o que inclui aumentar laços diplomáticos com a Arábia Saudita, antigo adversário –hoje os dois países são os principais aliados de Washington no Oriente Médio. Riad, porém, não sinalizou que pretende dissociar sua diplomacia com Tel Aviv ao conflito entre israelenses e palestinos.

Netanyahu, 73, é o político que por mais tempo liderou o governo de Israel, com 15 anos divididos em dois mandatos (1996-1999 e 2009-2021). Seu último período como premiê foi marcado por três acusações de corrupção. A primeira sugere que ele teria concedido benefícios no valor de US$ 500 milhões (R$ 2,6 bilhões) à empresa de telecomunicações Bezeq, a maior do país, em troca de uma cobertura favorável de seu governo no site de notícias Walla, de propriedade do ex-presidente da companhia.

Nos outros dois casos, ele é acusado de aceitar presentes de bilionários, como charutos e bebidas, no valor de US$ 264 mil (R$ 1,4 milhão), e de oferecer vantagens ao jornal Yedioth Ahronoth, o mais vendido no país, também em troca de uma cobertura positiva.

Netanyahu nega as acusações, mas elas foram suficientes para desgastar, ao menos por um tempo, sua influência política, o que abriu caminho para a frente ampla de políticos de esquerda, centristas e partidos árabes –a aliança, porém, durou apenas pouco mais de um ano.

"É um governo dos sonhos para os aliados de Netanyahu e o pesadelo para outros", resumiu à agência de notícias AFP Yohanan Plesner, presidente do Israel Democracy Institute. "Espera-se que esse governo leve o país a uma trajetória completamente nova."