Netflix quer um 007 para chamar de seu e investe US$ 200 milhões em filme de ação, enquanto vive sua maior crise

A Neflix apostou as fichas no maior investimento da história da plataforma de streaming, na tentativa de expandir a presença em cinemas com o teste de uma possível franquia de ação, enquanto enfrenta um período crítico. O filme "Agente Oculto" custou US$ 200 milhões para ser produzido, dirigido e roteirizado por Anthony e Joe Russo, conhecidos pelos sucessos de bilheteria mundial nos dois últimos filmes da franquia "Vingadores".

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O longa estreou em salas de cinema selecionadas dos Estados Unidos neste final de semana e chega à plataforma na próxima sexta-feira com uma proposta arriscada: tentar criar uma franquia de filmes de espionagem aos moldes do irreverente James Bond ou do "Missão Impossível", estrelado por Tom Cruise.

A trama gira em torno de Ryan Gosling e Chris Evans, dois ex-agentes aprendizes da CIA que atravessam o mundo tentado matar um ao outro.

Se for um sucesso, a ideia dos irmãos Russo é expandir o universo com uma sequência de filmes e até produção de séries para a TV, receitas já testadas pela Disney com as franquias de Star Wars e Marvel.

Para o diretor de filmes originais da Netflix Scott Stuber, produções como o "Agente Oculto" são o que ele vinha se esforçando para fazer desde que ingressou na empresa, há cinco anos.

— Nós ainda não entramos de fato neste gênero. Se queremos fazer isso, devemos lidar com produtores que, na última década, conseguiram criar algumas das maiores franquias e uns dos maiores filmes de ação dentro da área — afirma o diretor, que ficou conhecido por ter dado o "sinal verde" para a sequência Identidade Bourne quando ainda estava na Universal Pictures.

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O diferencial que torna a aposta arriscada é que os mundos fantásticos levados à "telinha" pelo braço de streaming da Disney, o Disney+, que passam a integrar a estratégia de expansão da cartela de produtos, tiveram um começo essencialmente cinematográfico.

O "Agente Oculto", por outro lado, vai entrar em cartaz em apenas 450 cinemas — a média para filmes com grandes orçamentos é de 2 mil salas no fim de semana de estreia. A exibição restrita faz parte dos interesses da Netflix, que tradicionalmente deixa os filmes em exibição na telona por menos tempo para dar preferência às visualizações na plataforma.

Momento crítico

O lançamento do filme vem em um período delicado para a plataforma, que vai anunciar a receita do segundo quadrimestre nesta terça-feira. Pessoas que acompanham o setor esperam que o resultado seja ainda mais amargo que a perda de 200 mil assinantes, segundo balanço divulgado em abril.

Os ganhos no primeiro quadrimestre levaram a uma queda precipitada do preço das ações. Desde então, a empresa realizou demissões em massa, anunciou que vai criar menores taxas de assinatura e que planeja acabar com o compartilhamento de senha entre amigos e familiares.

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Apesar de ter passado por meses árduos, os bolsos recheados e a abordagem prática às decisões criativas fizeram dele o único estúdio capaz de atender às ambições dos irmãos Russo em sua jornada por autonomia na produção cinematográfica.

— Teria sido um filme radicalmente diferente — afirma Joe Russo, sobre a possibilidade de construir o "Agente Oculto" em outro estúdio, como a Sony, onde originalmente estava previsto para ser produzido.

A dupla informou que, se quisessem mudar o local de produção, teriam que cortar um terço do orçamento e reduzir o número de cenas de ação do filme.

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Na Netflix, os irmãos Russo estão por trás de outra sequência de ação, a continuação de "Resgate", com Chris Hemsworth, e acabou de anunciar que o streaming vai financiar e lançar sua nova aposta, "The Electric State", um longa de ficção científica estrelado por Millie Bobby Brown e Chris Pratt, outro com um orçamento estratosférico, de US$ 200 milhões.

Para Stuber, os novos títulos mostram que a empresa ainda é capaz de dar grandes passos, apesar das dificuldades. Ele reconheceu, no entanto, que as realidades do negócio levaram a empresa a pensar com mais cuidado nos projetos em que investe.

— Nós não estamos reduzindo drasticamente nossos gastos, mas estamos diminuindo o volume de produções. Estamos tentando ser mais cautelosos — afirma Stuber. — Somos um negócio que, por muito tempo, trabalhou com muito fluxo. E agora estamos sendo bem específicos sobre o público-alvo.

De olho nas telonas

O lado cinematográfico do ramo dos filmes é um dilema para a Netflix. A busca por risco, iniciada pelo estúdio, costuma ser maior que a dos estúdios convencionais porque não gasta tanto dinheiro para colocar as produções em cartaz e não precisa se preocupar com números de bilheteria. Por outro lado, a falta de lançamentos cinematográficos em larga escala tem sido, por muito tempo, um ponto nevrálgico para cineastas, que querem apresentar a sua criatividade na maior tela possível e esperar que gere impacto na audiência.

Nos últimos meses, a força das cifras de bilheteria para filmes como "Top Gun: Maverick", "Minions: A origem de Gru" e "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo" — produzido pelos Russos — levou muitos produtores a repensarem a influência de salas de cinema, duramente abaladas com a pandemia.

O diretor de filmes originais da Netflix reconhece que aumentar a presença nos cinemas era uma das metas da empresa, mas requer um arsenal consistente de filmes que possem se conectar com uma audiência global:

— É nesse ponto que queremos chegar: Nós temos número suficiente desses filmes no catálogo para ingressarmos nesse mercado?

Isso também demandaria que a Netflix fizesse um cálculo do tempo ideal para manter os filmes exclusivamente em cinemas, antes de entrarem na plataforma.

Enquanto a janela de exposição cinematográfica para "Agente Oculto" é pequena, os irmãos Russo esperam que o filme mostre que a Netflix pode ser um espaço para blockbusters com orçamentos generosos e voltados para agradar o público, modelo pelo qual os diretores são conhecidos.

— Sabendo que tem, efetivamente, uma plataforma de distribuição que pode ter até 100 milhões de acessos como teve, no caso de "Resgate", mas também ter o potencial de uma grande janela de exposição nos cinemas com uma campanha promocional proporcional por trás. Isso é um estúdio muito poderoso — afirma Joe Russo.

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