Netinho aposta que chegou a hora de deixar de ser eterna promessa no taekwondo

Edival Marques com a medalha de ouro dos Jogos Olímpicos da Juventude em 2014 (VCG/VCG via Getty Images)

Por Alessandro Lucchetti

O taekwondista Edival Marques, o Netinho, cansou-se de esperar. Desde os 16 anos de idade, quando foi campeão do Mundial Juvenil e dos Jogos Olímpicos da Juventude, em 2014, ele é visto como atleta de grande futuro. Hoje, aos 21 anos, aposta que vai chutar para longe a ameaça de entrar para a história com um estigma comum no esporte, o de “eterna promessa”.

“Quando mudei para a categoria adulta foi difícil. Assim que subi, fui disputar os Jogos Regionais e fui campeão na categoria até 68 kg. Antes lutava no 63 kg. Eu sentia muita diferença de força. Não tinha corpo para enfrentar os adultos. Nessa época, muitos repórteres deram vários exemplos de atletas que foram muito bem no juvenil e não vingaram no adulto. Fiquei com isso na cabeça, era muito novo. Queria porque queria provar que comigo ia ser diferente e acho que isso me atrapalhou um pouco. Meu ano de 2015 no adulto foi muito ruim. Fiquei meio triste”.

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Em meio a essa tristeza, Netinho chegou a pensar em desistir. Foi quando o ex-atleta Nicholas Pigozzi o chamou para treinar em Rio Claro, em sua academia, no Grêmio dos Funcionários da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. “O Nicholas me disse que, se eu fosse pra lá, voltaria à seleção. E foi o que aconteceu. Saíram alguns resultados bons, como a prata no meu primeiro Pan (da modalidade) como adulto. Em 2017, ganhei alguns Opens. No Mundial (de Muju, Coreia do Sul) não deu certo. No ano passado, um pouco mais adulto, vieram alguns títulos muito bons. Na minha cabeça, estou evoluindo cada vez mais e me acostumando à categoria adulta. Mas devo lembrar que na transição do infantil para o juvenil, tive a mesma dificuldade. Fui três anos reserva para no quarto conseguir ser titular. No adulto já está melhor. Não consegui entrar na seleção em 2015, mas no ano seguinte já consegui. Com resultados, estou mostrando que posso repetir meus feitos no adulto”.

A diferença de força física realmente pegava. Netinho mede 1,90m e tem pernas longas, o que é ótimo no taekwondo, porque atinge os adversários e ao mesmo tempo fica mais distante do raio de ação deles. No entanto, ele era muito magro. Com o tempo, além de ter encorpado, recentes mudanças na regra o ajudaram.

“Meu chute está mais potente, e já consigo segurar os adversários com o meu próprio chute. Já não sinto tanta diferença de força. Percebo até ser mais forte do que alguns adversários. Mas no clinch, quando se pode empurrar o adversário, ainda sinto um pouco. Agora, com a nova regra, não tem muito tempo para o clinch, para essa luta mais agarrada. Logo que ocorre o clinch, os árbitros já separam. Essa era uma coisa que me cansava muito. Quando pegava um adversário mais forte, que ficava me empurrando, isso me desgastava”.

O malogro de Netinho no Mundial de 2017 se estendeu a toda a seleção brasileira, que zerou no quadro de medalhas – um resultado bastante lastimável, principalmente quando se lembra que o taekwondo é um esporte amplamente democrático. Trinta nações “medalharam”, incluindo Gabão, Níger, Vietnã e Moldávia.

No Mundial de maio deste ano, em Manchester, o Brasil se redimiu, com cinco medalhas – prata para Ícaro Miguel e quatro bronzes (Maicon Andrade, Milena Titoneli, Paulo Melo e Caroline Santos).

Icaro Miguel conquistou prata no último Mundial de Taekwondo (Conor Molloy/Action Plus via Getty Images)

“O taekwondo brasileiro sempre enviou muitos atletas em campeonatos internacionais, mas não tínhamos um investimento muito bom. Quando mudou a gestão da CBTKD foi quando a gente cresceu muito. Sempre acreditei que quando entrasse algum ex-atleta, que já lutou e sabe o que acontece, o taekwondo nosso iria mudar muito. E foi o caso da Natália Falavigna. Quando ela assumiu a coordenação da seleção, como ela já sentiu na pele, sabe aquilo de que a gente precisa, melhorou muito”, diz Netinho.

Finalmente, o taekwondo brasileiro tem uma estatística, Paula Avakian, que contabiliza qual a porcentagem de chutes que cada adversário desfere com a perna direita, com a esquerda...algo básico, de que muitos países dispõem, mas o Brasil não tinha.

“O profissionalismo é um dos fatores que mudaram muita coisa. Antes era meio bagunçado. Eles falavam na hora qual era o critério pra entrar na seleção. Não tinha como eu planejar e correr atrás de um critério que eu nem sabia. Agora o pessoal é sério mesmo”, diz Netinho, explicando as mudanças operadas na modalidade após o afastamento do ex-presidente Carlos Fernandes, que responde por peculato, associação criminosa e fraude de documentos na Justiça. Após eleição, assumiu o amapaense Alberto Cavalcante Maciel Júnior.

Essa melhoria da gestão não se refletiu, num primeiro momento, na performance de Netinho, que perdeu nas oitavas de final de Manchester para o polonês Karel Roubak. No Open de Roma, no início de junho, é que se deu uma reviravolta na carreira do paraibano. Netinho foi eliminado nas oitavas de final pelo fortíssimo Mirhashem Hossini, mas fez um combate duríssimo com o iraniano, perdendo por apenas um ponto. Hossini, vice-campeão mundial em 2017, avançou e chegou ao título na Itália.

“O Netinho normalmente é um cara bem-humorado, mas andava bem cabisbaixo. Com esse resultado, retomou o ânimo. Ele até me disse: ‘que bom que voltei a ser eu’”, diz o técnico Nicholas Pigozzi.

Com a confiança em alta, Netinho acha que voltará de Lima com a medalha de ouro – afinal, é o atual campeão do Pan da modalidade, disputado no final do ano passado, em Spokane, nos Estados Unidos.

“Já tive o privilégio de enfrentar todos os meus adversários da chave do Pan de Lima. Só perdi pro mexicano Ruben Nava, com o qual lutei na final da Olimpíada da Juventude. Desde então, ele é o único da América que está me acompanhando. Sempre dá a gente nas finais. Tem também o chileno Ignacio Morales, lutei várias vezes com ele, é um cara forte. Tem um menino novo do Peru (Braulio León), muito bom também. Ele veio de uma categoria abaixo, mas mesmo assim...tem uma estatura muito boa. Já lutei com ele e ganhei. Enfim, estou muito confiante”.

Hoje, realizando campings com a seleção brasileira, no Rio de Janeiro, Netinho se julga um privilegiado, principalmente quando se recorda da rusticidade da Associação Mangabeirense de Taekwondo, que não tinha sequer tatame, muito menos colete eletrônico.

“Não era muito agradável. Quando caía no chão me machucava. Mas depois conseguimos colocar tatames na academia. Minha base foi muito boa. O mestre Tomaz (Tomaz André de Azevedo Silva) sempre nos passou bons treinos, treinávamos bastante. Às segundas, quartas e sextas eram treinos na academia, e nas terças e quintas trabalhávamos na praia: resistência, força. Acho que isso me ajuda até hoje, para ser mais solto. Depois fui pra Brasília, para poder treinar com colete eletrônico... Nossa dificuldade maior era a falta do colete. Como não tínhamos colete, chutávamos na base da raça. Nós, nordestinos que lutamos, somos muito raçudos. Íamos pra porrada. Não tínhamos dinheiro pra comprar colete eletrônico. Era caro, ainda é. Quem tinha, levava vantagem. Daí eu fui pra Brasília, treinar com mestre Washington Azevedo e Guilherme Dias, porque eles tinham colete. Quando saí do chão pro tatame, e daí pro colete eletrônico...foi muito bom. Aí eu me inspirei. Se antes eu me esforçava tanto pra treinar sem tatame e sem colete... Por que não vou me esforçar agora, que tenho tudo isso?”.

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