Neto do cacique Raoni cobra investigação de tentativa de compra de votos de indígenas no Xingu; vídeo

A tentativa de compra de voto dos eleitores indígenas do Parque Nacional do Xingu, em Mato Grosso, foi confirmada pelo neto do cacique Raoni Metuktire, Patxon Metuktire, liderança na região. Um vídeo que mostra o momento em que o secretário de Meio Ambiente e Agricultura de Marcelândia (MT), Lincoln Nadal, aparece oferecendo dinheiro ao cacique de uma aldeia em troca de votos. O caso é investigado pela Polícia Civil.

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Metuktire afirmou que os indígenas não gostaram da abordagem e que estão cientes de que é crime.

— O nosso pessoal está ciente e por isso não aceitaram essa tentativa de compra de voto e devolveram o dinheiro — pontuou.

Segundo ele, os povos indígenas têm muitas demandas que gostariam de discutir com os políticos. E, em vez disso, foram procurados por outros interesses. — A gente pensa que as lideranças políticas deveriam vir para conversar sobre estratégias e demandas que precisam entrar na pauta do governo, e em vez disso a gente recebe essas ofertas de dinheiro — avaliou.

Ele disse que a polícia deve apurar se o secretário tem relações com os políticos que aparecem na cola eleitoral que ele estava entregando aos indígenas ou se estava agindo por conta própria.

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No vídeo, o líder indígena que conversava com o secretário se recusa a receber a quantia em dinheiro. — Para a saúde, só assim a gente aceita. Agora um dinheiro que aparece de repente, a nossa organização não aceita (...) Então é melhor você levar esse dinheiro de volta, porque a gente não sabe de onde veio esse dinheiro — diz. Em seguida, o líder indígena pega o dinheiro que estava em uma bancada e devolve ao homem.

A cena é observada por vários moradores da aldeia.

O secretário ainda insiste para que a liderança ficasse com o dinheiro para um evento que deveria ser realizado na Terra Indígena, mas ele se recusou. Depois, ele e outros líderes indígenas procuraram a polícia para denunciar o crime.

Durante a campanha, Metuktire chegou a postar em sua conta no Instagram fotos do secretário na aldeia e também de um maço de notas de R$ 100 e de uma cola eleitoral.

A Associação Terra Indígena Xingu (ATIX) emitiu uma nota alertando sobre a presença de não indígenas nas aldeias com interesse em comprar votos. "Alertamos que compra de votos é crime eleitoral e deve ser denunciado", destaca.

Na cola eleitoral aparecem os nomes e números de legenda de cinco candidatos.

Procurado pelo GLOBO, o secretário que aparece no vídeo ainda não deu retorno.

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Tanto a compra, como a venda de votos, são consideradas crimes eleitorais, puníveis com prisão por até 4 anos e pagamento de multa. O candidato, além da multa, pode ter o registro ou o diploma cassados.

Nestas eleições, de acordo com levantamento da Justiça Eleitoral, 16.109 eleitores indígenas estão aptos a votar. São 54 locais de votação, sendo que em alguns deles as urnas chegam de barco.

Nos meses que antecederam a eleição, técnicos do Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso (TRE-MT) percorreram várias aldeias para ensinar os indígenas a manusearem a urna eletrônica. O trabalho contou com o apoio de indígenas que sabem a língua portuguesa, porque muitos deles só falam a língua nativa.

Metuktire é considerado braço-direito do cacique Raoni, uma das mais importantes lideranças indígenas do Brasil. Ele entrou em alguns embates com o presidente Bolsonaro por divergências em relação às políticas indígenas e ambientais.

Raoni tem uma trajetória de luta antiga. Em 1971, liderou a resistência contra a BR-080 (conhecida hoje como a MT-322) e esteve à frente das lutas pela demarcação da Terra Indígena Capoto Jarina.

O líder da etnia Kaiapó já chegou a denunciar Bolsonaro perante o Tribunal Penal Internacional por "crimes contra a humanidade".

Criado há cerca de 60 anos, o Parque Indígena do Xingu abriga mais de 6.000 indígenas de 16 etnias.