Neto diz que avô, vítima de covid-19, foi amarrado em hospital da Prevent Senior

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Idoso foi internado em unidade da rede Sancta Maggiore, operada pela Prevent Senior. Foto: Reprodução.
Idoso foi internado em unidade da rede Sancta Maggiore, operada pela Prevent Senior. Foto: Reprodução.
  • Família quer saber se operadora receitou 'kit covid'

  • Parentes relatam outras irregularidades

  • Prevent Senior está sendo investigada

O PM aposentado Carlos Vusberg, de 84 anos, estava internado em um hospital da rede Sancta Maggiore, da Prevent Senior, morreu no dia 5 de abril de 2021, vítima de covid-19. O caso, no entanto, ainda revolta a família. Seu neto, Leandro Vusberg, de 36 anos, conta que dois dias antes da morte do avô soube que ele teve os braços e pernas amarrados e usava máscara de oxigênio. Leandro afirma que o idoso estava sem fôlego e agitado, mas que tampouco foi sedado. Carlos havia tido alta da UTI pouco tempo antes, mesmo sem apresentar melhora.

O caso vem à tona em meio a diversas denúncias contra a operadora de saúde Prevent Senior. Entre as suspeitas estão ocultação de mortes em estudo com hidroxicloroquina, uma orientação para que médicos receitassem o “kit covid”, que tem ineficácia comprovada contra a covid-19, e alteração de atestados de óbitos de pacientes.

Após as denúncias contra a operadora de saúde, a família de Carlos Vusberg questiona se o idoso recebeu o “kit covid”, já que os parentes não possuem muitas informações sobre o caso. A família cobra que a Prevent Senior envie o prontuário médico do aposentado, o qual pediram de forma informal em abril, após sua morte.

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Ao jornal Estadão, a Prevent Senior disse apenas que os familiares podem requerer as informações que quiserem.

O caso de Carlos Vusberg

O PM aposentado foi internado pela primeira vez em outubro de 2020, em um hospital da rede Sancta Maggiore. Seu neto conta que “ele estava sem fôlego e foi ao hospital”. Chegando lá, os médicos suspeitaram de infecção pelo coronavírus e realizaram um teste, mas o idoso foi transferido direto para a UTI exclusiva para pacientes com a doença antes do resultado. Quando voltou do laboratório, o teste deu negativo para covid-19.

“Lembro de ele estar desesperado e falar: ‘Me tirem daqui. Se eu não estiver com covid, agora vou ficar’. Quando saiu o resultado, dois dias depois, ele foi transferido (para o quarto)”, conta Leandro, sobre a primeira internação.

Durante a primeira internação, a Prevent Senior não receitou o “kit covid”, que inclui a cloroquina e a ivermectina, que não apenas não funcionam contra a doença, mas podem piorar o quadro do paciente. No entanto, a família levanta suspeitas de que ele teria sim recebido o tratamento.

“O médico receitou alguns medicamentos, e a enfermeira virou e disse: ‘Doutor, o senhor não vai receitar o kit covid?’ Era como se estivesse lá para ver se o kit estava sendo receitado”, contou Leandro ao jornal Estadão.

Carlos voltou para casa em novembro, mas voltou a ser internado em fevereiro de 2021 e testou positivo para covid-19. “Ele foi internado e ficou na UTI por dois dias. Depois, foi transferido para um quarto. A gente não entendeu por que ele tinha saído da UTI se não tinha melhorado. Ele estava com dificuldade para respirar, mas não foi intubado, não foi sedado”, disse Leandro.

O avô faleceu pouco depois, e a família ficou sem informações sobre as razões para os procedimentos realizados pelo hospital, incluindo a imobilização do idoso.

Prevent Senior é investigada

O Ministério Público Estadual de São Paulo (MP-SP) criou uma força-tarefa nesta quinta-feira (23) para apurar as denúncias de irregularidades contra a operadora de saúde Prevent Senior. Mario Sarrubbo, procurador-geral de Justiça, pediu “atenção total” ao caso.

Integram o grupo os promotores Everton Zanella, Fernando Pereira, Nelson dos Santos Pereira Júnior e Neudival Mascarenhas Filho.

Até agora, a empresa já é investigada no MP, na Polícia Civil e na CPI da Covid por supostamente ter pressionado seus médicos conveniados a tratar pacientes com os medicamentos encontrados no “kit covid”, também conhecido como “tratamento precoce”, que inclui, entre outros, a hidroxicloroquina, comprovadamente ineficaz contra a doença.

Depoimentos mostram que a Prevent se alinhou ao discurso do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), que desde o começo da pandemia promoveu medidas e medicamentos sem comprovação científica. O presidente, inclusive, voltou a defender a cloroquina em seu discurso na 76ª Assembleia Geral da ONU.

Há também investigações sobre a Prevent correndo em órgãos de defesa do consumidor e na Agência Nacional de Saúde Suplementar. A operadora também enfrenta acusações por conduzir um estudo sobre a eficácia da hidroxicloroquina sem notificar pacientes e seus familiares. O estudo teria, ainda, omitido mortes de pacientes, para tentar influenciar resultados que mostrassem que o medicamento seria eficaz.

A operadora também é acusada de receitar medicamentos para câncer de próstata e artrite reumatoide para pessoas com covid-19, sem respeitar bula dos remédios ou ter aprovação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

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