Neurônios que agravam o câncer

Noves fora a pandemia de Covid-19, que resiste em nos deixar em paz, volta o câncer ao cenário das doenças que nos apavoram. Dentre os vários cânceres, os que acometem o sistema nervoso podem ser de extrema gravidade, especialmente aqueles conhecidos como gliomas. A palavra refere-se às células da glia, coletivo que designa a outra família de células que habita o cérebro. As células da glia participam junto com os neurônios do processamento das informações e comandos que controlam nossa vida física e mental. Gliomas, então, são tumores dessas células da glia. Alguns são de alta agressividade e resistentes aos tratamentos disponíveis, causando curta sobrevida dos pacientes, algo em torno de 1 ano, 1 ano e meio.

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Para a neurociência e as especialidades profissionais que cuidam dos tumores do cérebro, é essencial conhecer como surgem, como crescem, quais fatores os aceleram, com a esperança de encontrar alternativas que os curem ou retardem sua evolução. Há um exército de pesquisadores debruçados sobre esse problema, inclusive no Brasil. Embora sua prevalência não seja tão frequente (cerca de 2% dos cânceres), calcula-se que mais de 20 mil casos de gliomas ocorram a cada ano nos EUA, quase 90% deles de altíssima gravidade. Devem ser parecidos os números do Brasil. Quase sempre o diagnóstico depende de exames de imagem, mas estes mostram um tumor já em pleno crescimento e invasão. E os sintomas são inespecíficos (dores de cabeça, perda de apetite) ou dependem da localização do tumor: dificuldades na fala, mudanças no comportamento, dificuldades na memória, alterações nos sentidos.

Estudando alguns trabalhos recentes sobre os gliomas, eis que me deparo com uma surpresa: esses tumores podem ser agravados pela própria função do cérebro, ou seja, pela atividade dos neurônios nas redondezas do tumor. Um trabalho recente foi publicado por pesquisadores chineses na revista Nature, relatando experimentos com camundongos geneticamente modificados para investigar um desses gliomas, que se posiciona no bulbo olfatório. Essa é a primeira região do cérebro a receber informações dos neurônios que temos no nariz e que percebem as milhares de moléculas voláteis que nos rodeiam. Ao contrário do que seria de supor, os dados mostraram que a ativação funcional dos neurônios olfatórios faz crescer o tumor e aumentar a proliferação das células da glia que o compõem. E o oposto ocorre com a desativação dessa mesma cadeia de informação sensorial. Os pesquisadores usaram diversos artifícios genéticos e comportamentais para ativar e desativar o olfato dos animais com câncer no bulbo olfatório, inclusive tampando uma das narinas dos animais. Como o circuito das narinas ao cérebro fica sempre do mesmo lado, o lado ocluído apresentou grande redução do tumor cerebral, o que não aconteceu com a narina livre, cujo tumor aumentou.

O cheiro das coisas agravou o câncer. Os pesquisadores foram adiante, para revelar as moléculas envolvidas nessa estranha atuação. E descobriram uma delas, produzida pelos neurônios do bulbo olfatório “por fora” da comunicação normal dos circuitos naturais, mas que era capaz de ativar a multiplicação das células tumorais. Era um “fator trófico”, substância que normalmente é reconhecida pelas células da glia e contribui para a funcionalidade dos circuitos neurais.

É possível então lançar a hipótese de que assim como os cheiros ativam os gliomas situados nas regiões olfatórias do cérebro, as cenas visuais e os estímulos auditivos fazem o mesmo com aqueles situados nas áreas funcionais correspondentes. A própria função contribui para a disfunção. Os neurônios sadios atrapalham. A boa notícia é que, identificado o fator trófico responsável e as moléculas que contribuem para seu reconhecimento pelas células tumorais, abre-se uma avenida de pesquisa em busca de alternativas terapêuticas que bloqueiem sua atuação patogênica

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