Neymar vive em bolha criada por seu pai

Neymar pai e Neymar no primeiro jogo após a apresentação no PSG (Jean Catuffe/Getty Images)

Por Sandro Biaggi

“Saberemos recompensar quem for fiel a nós”.

A mensagem foi enviada de madrugada por Neymar da Silva Santos, mais conhecido na imprensa como “Neymar pai”. Tinha como destino seus funcionários mais próximos na NN Consultoria, assessores e pessoas que cercam aquele que chamam de Neymar Júnior mas que, para o resto do mundo, é apenas Neymar.

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O pai reclamava de que ninguém envolvido nos negócios do atacante do Paris Saint-Germain havia tomado a iniciativa de se manifestar sobre uma matéria publicada na internet sobre o jogador. E usava como apoio o comentário de uma leitora que havia observado “como é possível que o Neymar, com tantos assessores, permita que algo assim seja publicado?”.

Para o bem do filho, ele se coloca na linha de frente. Tanto que acessa notícias de madrugada sobre o atleta de 26 anos que também é seu empresariado e se preocupa em ver o que se comenta sobre os assuntos.

Neymar pai leva a culpa em público sobre situações da carreira do jogador, se preciso. Porque o garoto que apareceu como um fenômeno no Santos a partir do início de 2010 faz com que seu progenitor viva o sonho de fama e dinheiro que não conseguiu quando foi ponta de passagem discreta por pequenas equipes do interior do país. Quando estava em uma delas, o União Mogi, de Mogi das Cruzes (interior de São Paulo), Neymar Júnior nasceu, em 1992.

Além de ser seu filho, o que em por si só faz com que exista um sentimento familiar, o jogador é um empreendimento milionário. Seu salário de 36,8 milhões de euros por ano no PSG (cerca de R$ 177 milhões) é o terceiro maior do futebol mundial. Cada contrato como garoto-propaganda pode lhe render 3,5 milhões de euros (cerca de R$ 17 milhões). Apenas para ser capa de uma edição do jogo Pro Evolution Soccer, ele recebeu 750 mil euros (R$ 3,6 milhões).

“Eu posso achar que o seu cabelo é ridículo!”, disse Neymar pai para o ex-jogador Flavio Antunes, comentarista de uma TV regional de Santos, em 2010. Ele foi ao programa em que o ex-lateral participava apenas para responder às críticas feitas ao seu filho. O vídeo está até hoje no YouTube.

Foi o mesmo expediente que usou nos anos seguintes para rebater críticos do desempenho de Neymar Júnior dentro ou fora de campo ou às reclamações de como foi conduzida a venda do atacante do Santos para o Barcelona, em 2013.

Neymar pai e o dono do PSG, em evento da fundação do atacante (NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

O pai toma a linha de frente para que o filho se preocupe apenas com jogar futebol e se divirta com outros passatempos que a fama proporciona a um dos principais jogadores do futebol mundial.

Pessoas que negociaram com Neymar pai, ouvidos pelo Yahoo Esportes, disseram que ele se tornou um negociador de grande capacidade para extrair o máximo proveito para o seu cliente-filho e, por consequência, para si mesmo.

A Embraer lhe convidou para testar um novo jato que seria lançado pela empresa. Seria viagem de ida e volta a Buenos Aires, com direito a hospedagem. Em seu e-mail particular (e de plataforma gratuita) aparecem dezenas de propostas todas as semanas. Ele lê todas. Responde apenas algumas. Dessas, bem poucas se tornam realidade. Porque Neymar (o filho) é uma marca que ele (o pai) quer proteger.

“Se está dando certo, para que mudar?”, questionou após as críticas ao estilo do jogador na Copa do Mundo da Rússia e a eliminação da seleção brasileira. Ao contrário do que esperava quando trocou a Espanha pela França, no ano passado, Neymar não ficou mais próximo do prêmio de melhor do mundo. Na lista da Fifa, divulgada no mês passado, não ficou sequer entre os dez finalistas.

Para o time de Tite não funcionou, mas o “está dando certo” quer dizer que para o atacante não há motivo para mudar.

Isso vale para os dois. Por causa do Júnior, Neymar pai se transformou em um dos nomes poderosos do futebol brasileiro. Hospedou-se no mesmo hotel da seleção durante o Mundial, enfiou convidados entre os jogadores e chegou a ameaçar o supervisor Edu Gaspar de que, se o Brasil não fosse campeão, ele seria substituído por Alexandre Mattos, do Palmeiras, com quem nos últimos tempos desenvolveu amizade.

A versão oficial é que a decisão de trocar o Barcelona pelo PSG foi do jogador, mas houve a influência decisiva de quem é também seu empresário, como sempre acontece. Até mesmo no futebolístico. Quando chega no vestiário após uma partida, uma das primeiras coisas que Neymar faz é ligar o celular para ver se há alguma mensagem do pai. E este costuma dizer ao filho exatamente o que achou sobre o desempenho dele em campo. Para o bem e para o mal. É uma das poucas opiniões que o camisa 10 da seleção brasileira presta atenção e respeita.

O Neymar jogador, quase sempre irônico ou indiferente às críticas internas, aceita as que vêm de Neymar pai e empresário.

Houve tentativas, de dirigentes, outros agentes e até colegas de tentar minar a relação dele com o pai ou pelo menos reduzir a influência. Qualquer um que os conhece poderia dizer por antecipação que a missão beira o impossível. Apesar de serem duas pessoas, a ligação que possuem é como se fossem uma coisa só. Quando as críticas foram ferozes em direção ao empresário antes da troca de Barcelona por PSG, o jogador postou uma foto ao lado do progenitor dizendo que ele é seu melhor amigo.

A recíproca é verdadeira. Neymar não passava de um garoto de 15 anos nas categorias de base do Santos quando a diretoria o proibiu de atuar em uma partida decisiva da equipe de futsal. Queria que ele se concentrasse apenas no campo. O menino desafiou a ordem e foi mesmo assim. Quando recebeu telefonema de cartola do clube reclamando da atitude, Neymar pai deu de ombros. Disse que o filho estava certo e tinha seu apoio.

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