Nicette Bruno: 'Temos que manter a sensibilidade artística para nos reinventarmos'

Gustavo Cunha

Nicette Bruno não estará sozinha neste domingo de Dia das Mães. Como as filhas — Bárbara Bruno e Beth Goulart, ambas atrizes — moram em casas vizinhas à sua, dentro do mesmo condomínio no Recreio, na Zona Oeste do Rio, a artista de 87 anos terá a companhia de parte da prole para celebrar a data.

— A gente vive em casas que estão quase ao lado umas das outras, bem próximas. Mesmo assim, minhas filhas colocam máscara e usam o carro quando vêm me visitar — conta a atriz, que, neste últimos dias, tem tentado se familiarizar com ferramentas digitais para se conectar em lives com alguns colegas. — Sou um horror com esses aparelhos eletrônicos! Mas temos que manter a sensilibilidade artística, através dessas interações virtuais, para nos reinventarmos. Minhas filhas me ajudam com tudo (risos).

Neste domingo (10/5), em evento promovido pela Associação dos Produtores de Teatro (APTR), ela se encontra virtualmente com as colegas Eva Wilma, de 86 anos, e Léa Garcia, de 87, para um bate-papo sobre o "mãetriarcado teatral brasileiro", sob mediação de Eduardo Barata, presidente da APTR. A live pode ser vista, às 18h, na página da APTR em redes sociais (no Instagram, no Facebook e no Youtube).

— Vivinha (apelido de Eva) e Léa são minhas velhas companheiras e amigas. Já trabalhamos juntas em teatro, na TV... E agora vamos conversar sobre tantos temas! — empolga-se. — A ideia é transmitir algum sentido maior de vida para quem nos acompanha. Estamos cumprindo a nossa parte para deixar uma palavra positiva neste momento difícil, e para que ninguém de nós se desespere. Estaremos afastadas, mas juntas na esperança de dias melhores.

Em isolamento social absoluto há mais de um mês, Nicette tem seguido uma rotina de atividades para manter o corpo em movimento durante a quarentena provocada pela pandemia do novo coronavírus. De manhã, assim que levanta da cama, dedica-se a exercícios de respiração e alongamentos para pernas e braços. Ao longo do dia, além de pôr leituras e estudos em dia, debruça-se sobre uma dezena de desafios lógicos da plataforma Supera, com problemas matemáticos que ela soluciona através de cálculos no papel e utilização de ábaco.

— Não posso parar. Jamais! Por isso, faço questão de exercitar a mente com os números. De resto, vejo muita televisão. E também durmo. Olha, tenho dormido como nunca — ri.

Devota do espiritismo, Nicette tem realizado orações frequentes, ao menos quatro vezes por dia. Na última semana, chorou profundamente quando recebeu a notícia sobre a morte dos amigos e colegas de mesma geração Flávio Migliaccio e Dayse Lucidi e do compositor Aldir Blanc.

— A falta de contato humano, neste momento, é terrível. E ainda temos tido essas perdas tristes e desagradáveis (ela se interrompe). A morte do Flávio (Migliaccio) foi uma dor sem tamanho. Depois, o mesmo com a Dayse... A cada momento, parece haver um novo choque. Por isso, tenho que orar. Oro muito mesmo. Acho que quem vê um sentido espiritual na vida tem orado bastante, tanto pelos que estão aqui quanto por aqueles que já se foram, tanto por conhecidos quanto por desconhecidos. Isso e necessário — ressalta. — E faço essas orações também para pedir que todos tenham compreensão da gravidade da situação. Às vezes ligo a TV e me dá uma tristeza grande. Vejo as ruas cheias de gente, pessoas sem máscaras, desrespeitando todo esse processo coletivo para que os problemas diminuam. Temos que levar a vida do jeito que dá, mas dentro das responsabilidades.