Niterói sob influência de Plutão, Urano e Netuno

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RIO - A rotina infernal que tem atormentado os moradores de Niterói é tão intensa, que muita gente anda enxergando a influência dos astros, especialmente nos recentes casos de violência, responsáveis por deixar a população de cabelo em pé e portas e janelas trancadas. Pode ser. Segundo a astróloga Celisa Beranger, desde novembro, Marte - que pode ocasionar distúrbios e violência quando "em más condições" - passou a ser mobilizado por Plutão, que tem o poder de dar boas condições para o desenvolvimento do crime organizado. Marte também vem recebendo tensão de Urano, que, com Plutão, é responsável pelo aumento da violência.

A influência dos planetas explicaria, ainda, problemas com a administração da cidade. Desde o eclipse do Sol do fim do ano passado, Netuno vem causando tensão em Saturno, que influi nas instituições que promovem o controle e separam a ordem do caos. A má notícia é que, segundo o mapa astral, pelo menos até o fim de 2012 o alinhamento dos planetas não será nada favorável para a cidade.

Mas há quem acredite que o inferno astral de Niterói tenha começado bem antes, quando pelo menos 143 pessoas morreram e mais de 7 mil ficaram desabrigadas após as chuvas de abril de 2010. Na ocasião, que teve como símbolo maior o Morro do Bumba - onde foram registradas 39 mortes -, Netuno, que indica inundações, estava influenciado pela oposição Saturno/Urano, planetas que, juntos, significam imprevistos desagradáveis e acidentes. Dois anos depois, moradores como Sérgio José Eugênio, que foi soterrado na tragédia e perdeu tudo, assistem com tristeza às cicatrizes que ainda hoje são aparentes por toda a cidade. A mesma que consta no programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), de 2000, como dona do terceiro melhor índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil.

- É triste ver que o sonho de tanta gente foi destruído de uma hora para outra. E quem quis ficar lá continuou, nada foi feito. Pobre só é conhecido de quatro em quatro anos - lamentou o massoterapeuta, que desde então vive do aluguel social: - Eu perdi minha casa, todos os meus equipamentos e muitos clientes na tragédia. Minha fonte de renda é o aluguel.

Acima de quaisquer influências cósmicas, para os moradores, o episódio marcou uma profunda decepção política. O silêncio e a demora para agir do prefeito Jorge Roberto Silveira - que, entre mandatos próprios e os de afilhados políticos, está há 23 anos mandando em Niterói - deflagraram uma onda de insatisfação e uma sensação de abandono que se reflete nas ruas e nas redes sociais. Junto, vieram à tona outros velhos problemas que há tempos fazem parte das queixas diárias de quem mora do outro lado da baía: trânsito ruim, poluição de praias, especulação imobiliária e falta de infraestrutura, provocando até mesmo uma apocalíptica tsunami de esgoto. Hoje, Silveira, que se prepara para uma nova candidatura, admite que errou na forma de lidar com o problema, mas acredita que isso é passado.

- Eu administrei mal aquela situação, inédita na cidade. No momento em que eu tinha de atuar, houve uma informação de que havia um estudo que alertava para o problema, especificamente do Morro do Bumba, e não era verdade. Eu acho que ali eu fiquei muito preocupado porque nunca menti para Niterói, nunca menti para a minha cidade. Eu fiquei muito fixado nisso, e naquele momento a população estava precisando que o prefeito fosse um pai, que protegesse a cidade, que estava impactada. Só que faço parte do município, e estava tão impactado quanto o restante. Mas nisso a gente já evoluiu. Isso agora é uma página virada, e nós temos que olhar para frente. Acho que Niterói está dando a volta por cima - diz.

De qualquer jeito, galhos de arruda ou dentes de alho não farão mal..

Violência

O fato de o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, ter admitido a possibilidade de uma migração de bandidos do Rio para Niterói aumentou a tensão entre os moradores da cidade que, assustados com os crescentes casos de violência, recorrem a iniciativas como instalar campainhas na casa de vizinhos e investir em sistemas de segurança cada vez mais sofisticados. Todos os dias surgem novos casos de assaltos em todas as regiões, levando ao consenso de que as ruas já não são mais seguras como antigamente.

- Niterói foi literalmente abandonada, nós não estamos acostumados com isso. Parece que vivemos numa guerra. Felizmente, nunca fui vítima. Mas na minha rua muitos vizinhos já tiveram problemas. Eu instalei equipamento de segurança na minha casa, e meus vizinhos começaram a usar um esquema de campainhas sem fios, para o caso de, se acontecer algo suspeito, você avisar para o outro chamar a polícia - contou Oscar Motta, um dos líderes do movimento S.O.S São Francisco.

O grupo, que vai realizar uma manifestação contra a violência no fim de semana, pretende entregar ao governo do estado um abaixo-assinado pedindo mais afetivo policial. Essa, aliás, é a maior crítica dos moradores. Nos últimos 40 anos, Niterói perdeu 75% do efetivo operacional da Polícia Militar. Dos mais de 3.200 homens na década de 1970, o número caiu para 800. Neste mesmo período, a população da cidade aumentou 50%, passando de 323.471 para 487.562 habitantes.Com as novas medidas anunciadas pelo governo do estado e a prefeitura, que entre outras coisas vai legalizar os 'bicos' dos PMs pagando as horas de folga, esse número deve aumentar em até 350 homens.

Frederico Crim Câmara, presidente do Sindicato Patronal das Empresas de Segurança Privada, estima que houve um crescimento de pelo menos 18% no número de pedidos para instalação de sistema de seguranças em casas, principalmente na Região Oceânica e em São Francisco.

O prefeito Jorge Roberto Silveira, que não tem dúvidas de que bandidos do Rio tenham transformado os morros de Niterói em suas novas bases, acha que as características dos crimes na cidade também mudaram.

- Sempre que as coisas apertam no Rio, espirra em Niterói. Isso é tradicional. Apesar das afirmações de que apenas 5% dos presos sejam do Rio, se tem cara de jacaré, boca de jacaré e rabo de jacaré, é jacaré - reclama o prefeito, reconhecendo que o município, apesar de não ter a função de administrar a segurança, não pode ficar parado. - O projeto das UPPs no Rio é muito importante, mas a gente sabia que isso poderia acontecer aqui. Por isso fizemos um convênio com o governo para pagar as horas extras dos policiais militares, que vão atuar junto com os guardas municipais, o que vai aumentar o efetivo em mais 100 policiais dia.

É bom mesmo, porque, de acordo com o Instituto de Segurança Pública (ISP), em fevereiro de 2012, os roubos de residência subiram 285,7%, os roubos de veículo cresceram 71,1% e os assaltos a pedestres aumentaram 13,5%, em relação ao mesmo período do ano passado. O número de assaltos a estabelecimentos comerciais na cidade cresceu 38,4%. O comandante do 12º BPM (Niterói), coronel Wolney Dias, não respondeu aos pedidos de entrevista.

Especulação imobiliária

Há quem diga que pior que a violência ou o trânsito, o verdadeiro vilão é o crescimento desordenado de Niterói. Mesmo com todos os problemas, a procura pela badalada qualidade de vida trouxe um aumento contundente no número de novos prédios. Segundo a Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Niterói (Ademi), nos últimos cinco anos foram 165 novas construções imobiliárias e um aumento de 15.854 unidades na cidade. Só nos primeiros três meses de 2012, 19 empreendimentos foram lançados. Na avaliação de Antônio Rocha Filho, vice-presidente do Sindicato dos Corretores de Imóveis do Estado do Rio e sócio diretor da Coluna Imobiliária, esse número deve superar 2011, que fechou com 51 novos lançamentos.

- Acredito que vai superar sim, pois já existem muitos projetos aprovados - comenta o empresário, que acredita aponta vários fatores para o crescimento imobiliário na cidade. - O primeiro é a insegurança do mercado financeiro, que faz com que as pessoas vejam os imóveis como um investimento seguro. Então a pessoa prefere pagar R$ 6 mil pelo metro quadrado, por exemplo, por considerar o imóvel uma aplicação segura. Além disso, há a visão de que Niterói é mais seguro que o Rio, apesar dessa onda de violência. As pessoas não pararam de comprar, estão apenas mais cautelosas. Hoje, a banalização da violência é tão grande que não chegou ao ponto diminuir os preços.

O Plano Urbanístico Regional (PUR), aprovado após apenas 40 dias - e sem audiência pública - em 2002, deveria ter sido revisto em 2007, mas até hoje permanece sem análise. Desde janeiro, a prefeitura suspendeu, temporariamente, o licenciamento de novas construções no Jardim Icaraí até que o novo PUR das Praias da Baía seja apresentado e aprovado na Câmara dos Vereadores. Com a determinação, estão suspensos os empreendimentos multifamiliares ou comerciais com mais de cinco pavimentos.

Para o titular da Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Defesa do Meio Ambiente de Niterói, o promotor Luciano Mattos, a cidade vive o problema da falta de planejamento urbano, que não afeta apenas o meio ambiente "natural", mas também o meio ambiente artificial:

- As vezes você não está causando desmatamento, mas piora a qualidade de vida das pessoas. Isso gera problemas na circulação, impactos viários.

Moradores como o cantor Byafra, que se assume como apaixonado pela cidade, veem com preocupação as novas construções, que afetam até mesmo a temperatura da cidade.

- Niterói era quase uma cidade do interior, mas com a especulação imobiliária isso mudou muito. Hoje você não tem espaço nem para respirar. Até o calor parece que aumentou no verão, pois com a concentração de prédios não circula muito o ar. Além disso, o preços dos imóveis e o custo de vida na cidade estão subindo muito - lamenta o autor de "Sonho de Ícaro".

Entre as diversas ações impetradas pelo Ministério Público na Justiça contra a falta de estudos e planejamento para as construções na cidade, estão as ações contra as "Operações interligadas", concessões da prefeitura para cerca de 70 prédios de até cinco andares da Zona Sul da cidade aumentarem o gabarito em troca do pagamento de uma taxa. São cerca de 50 ações e outros 20 inquéritos ainda em andamento. O Ministério Público também conseguiu uma liminar que paralisou, na última segunda-feira, a construção de um resort em Camboinhas, na Região Oceânica. Segundo o órgão, o projeto representará um aumento populacional de cerca de 67% no bairro.

- Em cinco meses eu fiz mais de 25 reclamações para a Aneel sobre falta de luz aqui, causada pelas obras. Quando eu estiver sem água e sem luz, aí não tem mais jeito. Aqui não tem estrutura para isso. Hoje, a estação de tratamento de esgoto já não suporta o crescimento do bairro, imagina quando quando esse empreendimento estiver pronto. Para onde esse esgoto vai? - reclama Roberto Guimarães Azevedo, que mora em frente ao terreno da obra, e já organizou até passeatas contra a construção.

Meio ambiente

O pesadelo niteroiense se espalha também pelo meio ambiente. As praias da Região Oceânica, conhecidas pela beleza e pelas boas ondas, não são mais como no passado, atestam os frequentadores. O principal problema seria o chamado bota-fora, lançamento no litoral do Rio dos sedimentos dragados do fundo da Baía de Guanabara. Em 2010, o despejo que acontecia num ponto C - a oito quilômetros das Ilhas Cagarras, que passou a ser protegida por uma unidade de proteção integral - foi transferido para um ponto D, mais próximo do litoral de Niterói.

- O que acontece é que quando o mar se movimenta, os pescadores ficam praticamente sem conseguir peixes. Vem uma quantidade enorme de lixo e lodo escuro. A pesca vem diminuindo cada vez mais. Vários peixes estão sumindo, como garoupa e namorado. Há cerca de cinco meses estamos perdendo trabalhadores. Pelo menos 40 já estão saindo da região para pescar em outras áreas, como em São Paulo - conta Aurivaldo José Almeida, o Barbudo, diretor da colônia de pescadores Z7, que atende Itaipu e Maricá.

A Praia de Itacoatiara, conhecida por sua incrível beleza que atrai jovens e surfistas, também sofre com o aumento do lixo na água:

- Tem dia que o mar está escuro, com uma espuma amarelada, e o cheiro é péssimo. Não é só lixo, tem coisa muito mais pesada ai. São milhares de toneladas de lixo que estão despejando aqui. Niterói está completamente esquecida. A infelicidade é total - conta o surfista Fabrício Medeiros, de 30 anos.

As plataformas e os navios que aparecem todos os dias nas praias vem chamando a atenção também dos banhistas e surfistas da região. Maria Cláudia dos Reis, moradora de Piratininga, conta constantemente vê as embarcações nas praias:

- Você vê esses barcos e navios todos os dias. As plataformas fazem a limpeza aqui perto da orla de Itaipu, e o mar fica cheio de óleo.

Segundo o presidente do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), Marilene Ramos, não há qualquer evidência técnica de que o despejo do lodo da Baía de Guanabara esteja gerando alguma poluição nas praias oceânicas de Niterói. De acordo com ela, o Inea está fazendo uma investigação complementar e estuda, inclusive, um novo ponto E para o despejo do lodo, que ficaria ainda mais longe da costa.

- Na próxima semana serão feitos mergulhos na região para avaliar se existe alguma mobilização de algum material antigo dragado. Mas acho difícil esse despejo chegar às praias, até porque o material é separado antes de ser dragado. O lixo pode ser resultado da poluição da baía. O que nós temos é o problema do lançamento de esgoto indevido no entorno da baía, que acaba afetando o litoral costeiro.

O prefeito Jorge Roberto Silveira afirma que nunca ouviu uma denúncia de poluição nas praias oceânicas. Em nota, a concessionária Águas de Niterói, responsável pelo fornecimento de água e tratamento do esgoto na cidade, argumenta que a alteração na coloração da água, tanto no Rio como em Niterói, está sendo acarretado pela presença de microalgas da espécie Gymnodnium, que são trazidas pelas correntes marítimas. A concessionária nega, ainda, um possível vazamento de esgoto.

De acordo com a presidente do Inea, o monitoramento das praias é feito semanalmente. Levantamentos do órgão apontam que, entre 2000 e 2010, a Praia de Itaipu esteve 20% das vezes imprópria ao banho; Itacoatiara e Camboinhas, menos de 5; e Piratininga e Praia do Sossego nunca estiveram impróprias.

Trânsito

O trânsito definitivamente é unânime entre as reclamações dos moradores. A cidade, que segundo o Censo 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) possui a maior renda média domiciliar per capita do país, recebe por mês 500 novos carros, que no fim do ano aumentam em 6 mil o número de automóveis circulando e a dor de cabeça dos niteroienses. As mudanças do novo traçado viário da cidade, feito pelo arquiteto Jaime Lerner, vem dificultando ainda mais a vida dos moradores, que viram as ruas se tornarem verdadeiros canteiros de obras.

Cansados de perder horas no trajeto entre casa e trabalho, alguns preferem trocar de endereço. É o caso da jornalista Fernanda Chinelli, que viu sua vida mudar completamente quando trocou a Região Oceânica pelo Jardim Botânico, na Zona Sul do Rio.

- Nasci e cresci em Itaipu, mas até entrar para a faculdade, nunca tinha realmente sentido o peso do trânsito. Eu estudava na PUC, na Gávea, e enquanto meus amigos acordavam 6h para chegar às 7h, eu tinha que sair 4h30m de casa. Para voltar era outro inferno. Eu demorava pelo menos três horas da PUC até o Centro de Niterói, e de lá pelo menos mais 1 hora até a minha casa. Depois de um tempo comecei a dormir na casa da minha irmã, no Rio, e vi a diferença. Quando me casei, nem cogitei ficar aqui. Hoje moro perto do meu trabalho, posso ir andando. É uma outra qualidade de vida - contou ela, que alguns anos depois viu seus pais a seguirem na direção do Rio.

Já a advogada Fernanda Santos passou a usar bicicleta como uma forma de fugir do engarrafamento - mas a falta de ciclovias foi um dos fatores que a fez desistir da ideia:

- Moro em Santa Rosa e trabalho na Tijuca, e constantemente pego engarrafamento. Já não aguentava mais perder horas no trânsito. O trajeto da minha casa até as barcas passou a levar apenas 12 minutos, mas a necessidade de mudar de roupa sempre, além da falta de ciclovias, me fez desanimar. Além disso, tinha medo de ser atropelada. A violência também foi um problema. Na primeira semana roubaram a minha bicicleta. Por isso voltei a usar carro e ônibus.

As barcas, que recentemente foram adquiridas pela CCR, mesma concessionária que administra a Ponte Rio-Niterói, também são uma fonte de reclamações, principalmente pelos altos preços. O engenheiro Sergio de Barros, que usa o catamarã de Charitas todos os dias, critica o valor da passagem, que não compensa o serviço:

- Pagamos um preço alto para enfrentar filas enormes e ainda correr o risco de parar no meio da baía. Como o catamarã pode ser chamado de transporte seletivo se não existe concorrência?

O presidente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ), Agostinho Guerreiro, é quase sombrio em suas previsões. Para ele, dificilmente Niterói consegue resolver os problemas de deslocamento, principalmente pelo fato de ser uma cidade de passagem.

- As pessoas usam Niterói para entrar na Região Metropolitana e seguir para a Região dos Lagos. É um problema que vai acompanhar a cidade para sempre. E isso é ainda agravado pelo número de carros na cidade, que cresceu assustadoramente. A falta de opção de transporte também é um problema. Mesmo as barcas são impactadas pela necessidade do transporte de rodas - afirma Guerreiro, que lembra ainda que o projeto do metrô já estava pronto no século passado: - Quando fizeram a linha 2 no Rio, o projeto previa que ela fosse até Niterói e depois São Gonçalo. Mas eles não levaram a sério. Ou seja, a solução foi pensada há 50 anos.

Segundo o secretário de Transporte e Trânsito da cidade, Sérgio Marcolini, a prefeitura está trabalhando com a ideia da 'Rua Completa', que tem lugar para carros, ônibus, ciclistas e pedestres.

- Estamos tentando mudar a cultura da cidade aos poucos, por isso toda a rua que nós mexemos estamos pensando também nas bicicletas.

Esta reportagem foi publicada no vespertino para tablet "O Globo a Mais"

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