No 1º semestre de 2021, 80 pessoas trans e travestis foram assassinadas no Brasil

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closeup of a gay pride flag and a transgender pride flag waving on the blue sky, moved by the wind
Bandeiras LGBTQIA+ e Trans
  • Relatório é da Associação Nacional de Travestis e Transexuais

  • Maioria das vítimas tinha menos de 35 anos

  • Crimes são violentos e cruéis

Só no primeiro semestre de 2021, 80 pessoas transexuais foram assassinadas no Brasil, segundo relatório da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra).

O relatório é elaborado com base em reportagens e relatos de organizações LGBTQIAP+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais, Queers, Intersexuais, Assexuais, Pansexuais e outros). Segundo a Antra, não há dados oficiais, o que significa que o número de mortos pode ser ainda maior.

O relatório é assinado por Bruna Benevides, responsável pela Secretaria de Articulação Política da Antra, e Sayonara Nogueira, que preside o Instituto Brasileiro Trans de Educação (IBTE). Além dos 80 assassinatos, o documento levantou 33 tentativas de homicídio, incluindo o de Roberta.

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Da mesma forma que os casos fatais, as tentativas ocorrem de forma violenta e cruel. "São casos de estupros coletivos, corpos incendiados, vítimas de tentativas de execução, pessoas atiradas de dentro de veículos em movimento, espancamento, sequestros, desaparecimentos", conta Bruna.

Em um caso recente de violência, o agressor suspeito é um menor de idade. No dia 24 de junho, ele teria ateado fogo em Roberta da Silva, de 33 anos, em Recife. Ela se encontra internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e precisou ter um braço e parte do outro amputados.

"Nunca houve um momento tão vulnerável e violento para pessoas trans como o que estamos vendo agora", declarou Bruna Benevides, mulher trans e coautora do levantamento.

Em 2020, o Brasil foi o país que mais matou pessoas trans e travestis, com um total de 175 assassinatos, sendo 100 nos primeiros seis meses do ano.

Apesar de parecer ter ocorrido uma diminuição de casos, Bruna avalia que a comparação não é precisa, pois a pandemia não estava estabelecida no país no começo do ano passado.

A autora explica que a pandemia piorou as condições de vida da população trans, em especial para pessoas que trabalham com prostituição, que são a maioria entre as vítimas de assassinato.

No primeiro semestre de 2021, a maioria das vítimas de mortes violentas eram mulheres trans e travestis negras, um perfil que segue inalterado a cada ano. A Antra afirma que dois homens trans estão entre as vítimas.

Os estados com maior número de casos são Bahia, Ceará, Minas Gerais, Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo.

"É um peso que está dentro de mim, que eu não consigo dormir direito, trabalhar direito, e eu quero que a Justiça aja mais rápido", desabafa o pai de Milena Massafera, morta na sua casa, em Ribeirão Preto (SP), em abril.

Vítimas jovens

Dentre as vítimas que se pode conhecer a idade, a maioria tinha menos de 35 anos, segundo o relatório. Essa idade é considerada a expectativa de vida de pessoas trans e travestis no Brasil.

No entanto, o relatório aponta assassinatos de pessoas ainda mais jovens, incluindo menores de idade. Um caso é o da adolescente Keron Ravach, de 13 anos, assassinada a pauladas em janeiro, no Ceará. Ela é a vítima mais jovem na história do monitoramento da Antra, que levanta dados há 4 anos. De acordo com a polícia, ela foi morta por um jovem de 17 anos.

Keron Ravach, vítima mais jovem do relatório. Foto: Arquivo pessoal
Keron Ravach, vítima mais jovem do relatório. Foto: Arquivo pessoal

"[Após o caso Keron], já há algumas ativistas que têm falado na queda dessa expectativa", afirma Bruna Benevides.

"Isso dá um recado muito violento para a nova geração. Essas pessoas passam a não mais enxergar um futuro promissor."

As especialistas alertam que, apesar do tema ter ganhado publicidade nos últimos anos, as opressões contra essa população se reorganizou.

"Houve o surgimento de um levante antitrans que incorpora uma suposta proteção de crianças e adolescentes, mas que, na verdade, está se organizando para impedir o acesso a cuidados e a um ambiente acolhedor", explica a ativista. Como exemplo, ela cita um projeto de lei que tramita na Assembleia de São Paulo que proibiria LGBTs de aparecerem em propagandas.

Para Bruna, isso pode ajudar a explicar o protagonismo de menores de idade em crimes violentos contra pessoas trans e travestis, como nos casos de Keron e Roberta.

"Que juventude estamos formando ao ver esse cenário que está organizado para tentar impedir que pessoas trans sejam trans?", questiona.

Além destes casos, a Antra também destaca as ameaças cometidas contra vereadores trans e travestis. "Esse levante contra as parlamentares trans é desproporcional a qualquer grupo que ascendeu a esses espaços de decisão", declara Bruna.

"A gente consegue colocar 30 pessoas trans nesses espaços, mas, na mesma medida, vemos essa organização de forças contrárias que incluem o ódio, a transfobia e, obviamente, a violência política, no sentido de barrar a busca por cidadania e humanização das pessoas trans e outros grupos minorizados."

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