No 2º turno, Covas aposta em moderação e tenta fixar imagem de Boulos como radical

ARTUR RODRIGUES E THIAGO AMÂNCIO
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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "A esperança venceu o radicalismo no primeiro turno e a esperança vai vencer o radicalismo no segundo turno", disse o prefeito Bruno Covas (PSDB) na noite deste domingo (15) ao comemorar a liderança no primeiro turno da disputa em São Paulo. Essa deve ser a tônica para o segundo turno da campanha do tucano, que promete manter a distância de ataques pessoais e vender Covas como um candidato moderado, ao mesmo tempo em que pinta Guilherme Boulos (PSOL) como radical. "Nosso lado é o lado da tolerância", disse o prefeito, "mas também é o lado do respeito à lei e à ordem", continuou, ainda na linha de colocar Boulos como o candidato do radicalismo. "São Paulo quer eleger um prefeito, São Paulo não quer eleger alguém que seja anti, totalitarista e radical." Questionado pela reportagem sobre os motivos de se referir a Boulos como radical, Covas respondeu que era o repórter e não ele quem dizia que o candidato é radical. "Eu só falei que vou vencer o radicalismo." O prefeito definiu como radicalismo "desrespeito à lei, à ordem, à democracia, à união de forças. Isso é o radicalismo que a cidade de São Paulo não quer." Covas foi o principal alvo dos concorrentes na primeira etapa da eleição. Os adversários tentaram vinculá-lo ao governador João Doria, lembraram de viagens do prefeito e ressaltaram as ligações controversas de seu candidato a vice, o vereador Ricardo Nunes (MDB), com entidades gestoras de creches. Apesar dos ataques, Covas subiu nas pesquisas e viu sua rejeição diminuir. Ele também avançou sobre o eleitorado que inicialmente estava mais voltado para Celso Russomanno (Republicanos), como moradores da periferia e evangélicos. "Vamos continuar assim porque deu certo, os números melhoraram e as pessoas gostaram da campanha propositiva e sem ataques", disse o coordenador da campanha do tucano, Wilson Pedroso. Na tentativa de se firmar como o candidato moderado, Pedroso sugere também que a campanha não deve procurar se aliar à direita bolsonarista no segundo turno. A ideia, resume ele, é "não aos radicais". Covas, no discurso, chegou, chegou a falar que o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) é um dos grandes perdedores da eleição. Pedroso participou das campanhas que elegeram Doria prefeito em 2016 e governador em 2018. Para ele, a atual eleição tem sido a mais tranquila -Covas se isolou na liderança nas últimas pesquisas e vencia em todos os cenários de segundo turno. O prefeito, porém, perderá uma das suas principais vantagens. No primeiro turno, devido à grande coligação, Covas teve a maior parte do tempo de TV, 40% do total. Passada a primeira fase do pleito, terá de enfrentar um adversário em condições de igualdade neste critério -cinco minutos para cada candidato. Um fator que tranquiliza a equipe tucana é a rejeição do prefeito, de 25%, considerada baixa para uma pessoa ocupando o cargo, principalmente em uma cidade que não tem tradição de reeleger mandatários. Até o momento, Gilberto Kassab (ex-DEM, hoje PSD) foi o único prefeito que tentou um novo mandato e foi reconduzido ao cargo na capital depois da lei que permitiu a reeleição, de 1998. Os outros dois titulares do Executivo municipal que buscaram repetir o feito -Marta Suplicy (então no PT), em 2004, e Fernando Haddad (PT), em 2016- saíram derrotados. O segundo turno terá apenas duas semanas, portanto será mais curto que o habitual. Também haverá vários debates em emissoras que não realizaram encontros no primeiro turno, o que pode expor mais o prefeito a críticas. Aliados de Covas afirmam que não estão preocupados com eventuais ataques. Para eles, questões como as viagens do prefeito enquanto estava no cargo e a ligação do vice com as entidades gestoras de creches estão bem explicadas. Sobre as viagens, Covas afirma que, no acumulado do mandato, tirou menos do que 30 dias por ano de folgas. A respeito de Nunes, afirma não haver nenhum processo contra o vice. O prefeito, porém, demonstrou sentir o baque dos ataques no debate da TV Cultura, realizado na última semana. Após o evento, Covas se queixou do nível do debate e afirmou que o ideal é que se discutisse propostas para a cidade. Correligionários do prefeito creem que Covas pode se aproveitar da onda de centrismo que tem tomado o país, em um momento em que parte da população se mostra cansada do clima de constante confronto imposto por Bolsonaro. Havia expectativa por setores da política e da imprensa de que a eleição seria nacionalizada, com críticas a Bolsonaro. A campanha, no entanto, preferiu não seguir por esse caminho e nem citar os debates nacionais porque, com a pandemia, disse Pedroso, o eleitor está mais preocupado com o que impacta sua vida agora, o que coloca os temas locais em maior relevo. Alçado ao segundo turno, a figura de Boulos era mais desejável como adversário do que Márcio França (PSB), por exemplo, que também sabe encarnar o mesmo perfil de centrismo que Covas -Russomanno, na reta final, já era tido como carta fora do baralho devido à tendência de queda. O crescimento de Boulos, com grandes chances de herdar os votos de Jilmar Tatto (PT) no segundo turno, fez dele um adversário mais competitivo do que se esperava inicialmente. Na véspera da eleição, no entanto, o coordenador da campanha afirmou à Folha de S.Paulo que a equipe trabalhava com Boulos no segundo turno como o cenário mais provável. A aposta no radicalismo do adversário deve enfatizar passagens como o fato de o psolista ser réu por vandalismo e sua liderança do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). Agora, a ideia é continuar mostrando na TV as vitrines do prefeito, segundo Pedroso, não só o combate à pandemia, mas a construção de CEUs (centros educacionais unificados) e hospitais --algumas destas obras ainda não foram inauguradas ou estão parcialmente prontas, mas Covas tem dito "vamos entregar" ou "estamos entregando". Aliados avaliam que Covas ajudou a passar confiança à população por ter se mostrado como é, sem criar um personagem. A campanha focou muito a vida pessoal do prefeito, fazendo referências ao seu avô, o ex-governador Mario Covas (1930-2001), e ao filho, além do combate contra o câncer. Como não tem grandes marcas, Covas se vendeu como um resolvedor de problemas, o que inclui a atuação em relação a um prédio que desabou no centro, um viaduto que desabou e a pandemia do coronavírus. Antes da campanha, o prefeito vinha de um momento de grande exposição, devido aos anúncios de ações de combate à pandemia, transmitidos ao vivo diariamente na TV. A esse período se seguiu uma agenda bastante intensa. No primeiro turno, mesmo com os bons números nas pesquisas, Covas chegou a participar frequentemente de mais de cinco compromissos por dia. O tucano foi o candidato com mais eventos na agenda, 158, sendo que 12% dos compromissos foram religiosos. A ideia da equipe tucana é manter a mobilização nas ruas durante o segundo turno.