No agro, inovações diminuem custos, mas ainda não baixam os preços dos alimentos

Desde que o boom das agrotechs começou, há cerca de seis anos, a produção nacional de grãos saltou de 186,7 milhões de toneladas, para 255,5 milhões, uma alta de mais de 36% entre as safras de 2015 e 2021, segundo dados da Conab.

Contrariando expectativas de oferta e demanda, no entanto, a abundância não se refletiu nos preços. No mesmo período, o preço dos alimentos aos brasileiros subiu 62%, acima dos 50% de altas somadas do IPCA.

Na esteira da alta dos preços e crise econômica em decorrência da pandemia, o total de 33 milhões de brasileiros vivendo com fome revela que, apesar do crescimento da produção de grãos, o Brasil não consegue fazê-los chegar à mesa dos seus cidadãos, o que levanta a questão se as startups do agro serão a solução para o problema.

Pioneiro na agricultura de precisão no país e agora à frente de uma startup que promete levar assistência técnica agrária a uma parcela da população carente deste benefício, Leonardo Menegatti acredita na diminuição dos preços com o uso da tecnologia.

“Você tem uma maior eficiência de fertilizantes, ou seja produz mais com menos; você reduz assim o custo da produção, e assim tornar o ambiente mais acessível para uma maior parte da população”, afirma.

Para o engenheiro agrônomo formado na Esalq (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz), o foco na produção de soja não contraria esta dinâmica. “Soja é fonte de proteína e de 80% das rações animais; nesta época do ano, quando a pastagem é mais rara, grande parte da carne vem de confinamento que usa ração a base de soja, e o mesmo vale para galinhas, ovos, suínos”, defende.

Piracicaba, 25.mai.2022 - Nesta fazenda de confinamento, o gado é pesado cada vez que que se alimenta e bebe água, aplicando a pecuária a precisão do agro. Para defensores da aplicação da tecnologia, a produção mais eficiente reduz o gasto com comida na criação do gado, reduzindo assim o preço da carne. Para críticos, no entanto, o preço não cairá a menos que politicas de exportação de commodities sejam revistas
Piracicaba, 25.mai.2022 - Nesta fazenda de confinamento, o gado é pesado cada vez que que se alimenta e bebe água, aplicando a pecuária a precisão do agro. Para defensores da aplicação da tecnologia, a produção mais eficiente reduz o gasto com comida na criação do gado, reduzindo assim o preço da carne. Para críticos, no entanto, o preço não cairá a menos que politicas de exportação de commodities sejam revistas

Desde 1990, usado como referência para pesquisadores da área por conta do plano Collor, a área plantada de soja no país subiu de 9,7 milhões de hectares para quase 41 milhões de hectares. Isso equivale a um Paraguai inteiro destinado somente à produção do grão de origem asiática.

Neste mesmo intervalo, a produção subiu de 15 milhões de toneladas para 138 milhões. Enquanto a área plantada foi multiplicada por 4 com a expansão pelo cerrado, a produção aumentou mais de 9 vezes, fruto do aumento da produtividade no campo.

“Se nós tivéssemos hoje a mesma produtividade que tínhamos no plano Collor, de 1990, precisaríamos de mais 103 milhões de hectares para colher a safra desse ano, ou seja, nós preservamos 103 milhões de qualquer bioma que não foi desmatado porque a tecnologia permitiu o aumento da produtividade por hectare”, defende Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e coordenador do Centro de Agronegócio da FGV (Fundação Getúlio Vargas).

Segundo ele, este aumento da produtividade é fruto da tecnologia tropical desenvolvida no país e que pode ser exportada para todo o mundo. “Segundo a Embrapa, o Brasil alimenta 800 milhões de pessoas no mundo, e em 10 anos deve passar de 1 bilhão, mas para isso depende que nossas condições competitivas sejam preservadas, e que os mercados estejam abertos às nossas produção”, afirma.

Rodrigues se baseia no artigo dos pesquisadores Elisio Contini e Adalberto Aragão publicado em 2021 e que utiliza o cálculo simples de quantidade produzida e quantidade consumida por pessoa. Para Bruno Bassi, coordenador de projetos do observatório do agronegócio De Olho nos Ruralistas, trata-se de uma simplificação que não revela a complexidade das dinâmicas de preços.

“Alguns anos atrás vimos casos de produtores que deixaram a produção estragar para aumentar o preço alegando que um produto muito barato não compensa ser produzido; eu acho que é viver no mundo de Alice acreditar que a redução nos custos vai chegar no bolso do consumidor”, crítica o mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento Rural pela UnB (Universidade de Brasília).

“Estamos tratando não da produção de alimentos diretamente, mas de commodities, e a partir do momento que essa produção está orientada ao lucro, passa a ser mais interessante manter o preço enquanto reduz o custo e especular com as ondas de flutuação de preços no exterior; estamos está vendo isso de forma muito intensa, primeiro com o arroz, depois tomate, agora com feijão que também teve um aumento forte de preço voltada ao mercado internacional aquecido e pagando preços melhores, enquanto o Brasil vai ficando desabastecido”.

Os dados da Conab (Companhia Brasileira de Abastecimento) mostram a diferença da evolução dos grãos nos últimos anos. Feijão e arroz, que compõem a mesa de grande parte dos brasileiros, perderam juntos 5 milhões de hectares de plantações para outras culturas. Hoje mais de 70% da produção de feijão está nas mãos da agricultura familiar, longe da atenção das agritechs.

Sergio Barbosa, gerente executivo da EsalqTec, centro da USP destinado a transformar pesquisas financiadas pela universidade pública em startups para o agronegócio, não esconde esse afastamento. “O objetivo da empresa é lucro, e não tenha dúvidas que o empreendedor de uma startup vai buscar o que realmente tem escala pra ele, ele vai primeiro querer o peixe grande, o grande produtor”, afirma, apontando no entanto a necessidade de voltar a atenção aos pequenos.

“O Brasil tem como principais produtores de feijão e leite o pequeno produtor, e são alimentos que compõem uma estratégia de segurança alimentar, e por isso que é tão importante que eles sejam atendidos pela tecnologia também”, defende.

As culturas que mais tiveram ganhos em produtividade – fruto da tecnologia aplicada desde sementes transgênicas até irrigação computadorizada – foram o milho e o café, ambos commodities rentáveis com a alta do dólar, observada sobretudo nos últimos três anos. Se em 2011 um produtor de milho recebia em média R$ 465 por tonelada produzida, em 2020 ele passou a receber R$ 830, apesar da queda do grão no mercado internacional de U$ 291 para U$ 156 no mesmo período.

Grande parte dos clientes do empreendedor Guilherme Sanches são produtores de milho e cana-de-açúcar. Trabalhando no ramo há uma década, ele observa que as inovações tecnológicas sozinhas não serão capazes de reduzir os preços. “As inovações óbvio que vão diminuir os custos de produção, agora o problema desse alimento chegar mais caro na nossa mesa, sendo que nós estamos produzindo mais, envolve muita política cambial, fiscal… O cara que está produzindo prefere vender pra fora, que está pagando muito melhor, do que deixar aqui pra dentro, ou seja, o que fica pra nós aqui acaba encarecendo”, ressalta.

Nos últimos 20 anos, o que garantiu estabilidade à produção dos dois grãos mais presentes à mesa dos brasileiros foi a produtividade. O país produz hoje, grosso modo, a mesma quantidade de feijão e arroz que no ano 2000, em quase metade da área, enquanto que a população tentando se alimentar no país aumentou em quase 38 milhões de bocas.

Os dados mostram que enquanto as bocas estrangeiras forem mais interessantes de se alimentar que as brasileiras, o preço do alimento no país ficará refém das bolsas de commodities, e há pouco que as novas tecnologias do Agro 4.0 poderão fazer sozinhas para mudar este panorama.

Piracicaba, 25.mai2022 - Fim de outono e tempo de colheita dos milhares de canaviais que cercam Piracicaba, hoje capital nacional das startups que trazem novas tecnologias digitais e biológicas para o agronegócio brasileiro
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