No alvo do STF, financiamento de atos que defendem golpe militar continua na internet

Mesmo após a ordem do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), para bloquear as contas de 43 empresários e empresas suspeitos de financiar atos golpistas no país, grupos continuam reunindo recursos pela internet para bancar infraestrutura de protestos que pedem golpe de Estado. Relatórios enviados por forças de segurança estaduais ao STF apontam atuação de deputado eleito, policiais e até "milícia privada" nas manifestações.

Bela Megale: A reboque de Bolsonaro, governo tem ‘paralisia generalizada’

PRF: Pernambuco, Mato Grosso e Rondônia têm rodovias federais bloqueadas

A iniciativa da Justiça não intimidou apoiadores do presidente Jair Bolsonaro que não foram alvo da ação. Os acampamentos que mantêm os protestos continuam recebendo dinheiro de doações, organizadas por militantes anônimos — e outros nem tanto.

Candidato não eleito a deputado estadual pelo PMB de São Paulo na última eleição, o publicitário Rafael Moreno Souza Santos havia arrecadado R$ 66,7 mil até a tarde desta sexta-feira, por meio de um site de financiamento coletivo. Ele tem bancado alimentação e higiene de bolsonaristas acampados em Brasília — e segue recebendo dinheiro: eram R$ 63 mil na quarta-feira. Já são 1.284 doadores.

"Eu, Rafael Moreno, pretendo utilizar a força das minhas páginas nas redes sociais para arrecadar recursos para auxiliar os manifestantes que estão acampados em frente aos quartéis do Brasil! O dinheiro será usado na compra de alimentos, barracas, produtos de higiene, cartazes e etc. A maioria do recurso será destinado a Brasília onde será o foco das manifestações!", diz a mensagem em sua página de arrecadação no site vakinha.com.br. Ele promete "manter o povo na rua até o Lula cair".

Freezer, fogão industrial, comida e bebida

Notas fiscais divulgadas por Santos como forma de prestação de contas indicam que ele já contribuiu para o acampamento com a compra de freezer, fogão industrial, cobertores e mantimentos como salsicha, molho de tomate, água e refrigerante.

Também apontam que ele repassou R$ 3.750 ao militante Srêwē da Mata de Brito para custear despesas com alimentação e transporte de indígenas da aldeia xerente (TO) até a capital Palmas. Os beneficiados devem participar de uma "reunião preparatória a ser realizada nos dias 17 e 18 de novembro, em ambiente virtual", com organizadores do ato golpista em Brasília.

O indígena concorreu a deputado estadual pelo Tocantins como Cacique Srêwē Xerente pelo Patriota, mas não foi eleito. Ele é apoiador de Bolsonaro, defende paralisar o país para impedir a posse de Lula e tem ajudado a mobilizar pessoas para os atos antidemocráticos.

Santos é seguido por 119 mil pessoas no Instagram e usa o apelido Robô Conservador no Twitter. Ele administra grupos de WhatsApp de apoio a Bolsonaro, onde conteúdo endossando golpe de Estado é disseminado diariamente.

Em um vídeo compartilhado por Santos no WhatsApp, ele recebe agradecimentos de Renan Sena por envio de recursos. Sena é o ex-funcionário do Ministério da Família e dos Direitos Humanos e chegou a agredir enfermeiros que faziam uma manifestação pacífica na Esplanada, em 2020. O ex-servidor já foi detido por calúnia e lançou fogos de artifício contra o prédio do STF naquele mesmo ano.

Além de Santos, Sena agradece também a Jorge Anthonny Chediak Rezende Filho, cuja chave Pix circula entre grupos bolsonaristas. Ele foi denunciado em 2016 pelo Ministério Público de Goiás na Operação Livramento, que investigou organização criminosa que atuava em presídios goianos.

Procurado, Santos não quis falar com O GLOBO. Srêwē ainda não se manifestou.