No ar em 'Cidade invisível', Jessica Córes conta seus desafios: 'aprendi a ter confiança desde pequena durante os processos de adoção'

Lívia Breves
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Quando passou no teste de “Cidade invisível” (Netflix), série de Carlos Saldanha que estreou na sexta-feira, Jessica Córes, de 32 anos, ficou animadíssima. Em um segundo momento, ao saber qual seria sua personagem na trama, que faz uma releitura das figuras folclóricas brasileiras, sentiu-se tensa: ela viveria a sereia Camila, e faria muitas cenas debaixo d’água. O problema? Jessica não sabia nadar. “Fiquei desesperada e me matriculei imediatamente em uma aula. Não bastava dar umas braçadas, tinha que fazer apneia, acrobacias e até dança do ventre”, conta. “Mas deu tudo certo. Foi meu trabalho mais divertido e meu maior papel. Tem folclore, cultura africana e um elenco incrível (Marcos Pigossi e Alessandra Negrini estão na série). Eu assinaria um contrato vitalício com esse trabalho”, brinca.

Esse foi só um dos inúmeros desafios que a atriz superou na vida. Até os cinco anos, Jessica viveu em orfanatos. O que sabe de sua história na primeira infância é bem pouco. “Pelo que descobri, nasci em Magé (município da Baixada Fluminense), minha mãe biológica me deu para sua patroa, que me levou para o Hospital da Lagoa. De lá, fui encaminhada para a Obra do Berço. Depois, fui para o Educandário Romão Duarte, no Flamengo. Uma mansão linda da qual guardo ótimas lembranças. Tive uma adoção tardia, mas confesso que foi zero traumática”, conta.

Adotada por uma família branca, aos 6 anos, ela foi morar em Copacabana. “Tive uma conexão imediata com a minha mãe, algo de outras vidas. Temos muito amor. Meu irmão, que é mais de dez anos mais velho, também me recebeu muito bem e ficamos superpróximos. Ele me convidou para ser madrinha das filhas dele. Mas sou a única negra no núcleo, então já fui tratada como a secretária, a empregada. Ainda não entendem que uma família composta por brancos e pretos pode existir”, afirma

Formada em Design, Jéssica não chegou a exercer a profissão. Aos 17 anos, começou a trabalhar como modelo e fez o curso apenas para garantir um diploma. “Sei o quanto é complicado ser uma mulher preta no Brasil. Sem formação, seria ainda pior. Frequentemente, vivo situações de racismo. Na rotina mesmo. Outro dia, estava fazendo compras no mercado e o segurança ficou me seguindo. Em Portugal, quando fui gravar a série ‘País irmão’, da portuguesa RTP, um taxista se negou a me levar dizendo que não viajava com negros”, relembra. Ela escolheu o Design quando morava em Nova York, onde passou uma temporada modelando. O insight veio em um passeio pelo MoMA, quando observava uma obra do arquiteto e escultor francês Le Corbusier (1887-1965). “Decidi ali que trabalharia com estética”, recorda. Até se formar, em 2018, trancou o curso diversas vezes para gravar. Seu primeiro papel foi em 2015, na novela “Verdades secretas”, de Walcyr Carrasco, em que vivia uma modelo. Depois, filmou “Dear child”, longa de Trinidad e Tobago que é exibido em festivais. Recentemente, gravou o sitcom “Casa de vó”, no Wolo TV, serviço de streaming com produções focadas na população negra.

Apesar da beleza estonteante, ela conta que é uma novidade se achar bonita. Por outro lado, sempre foi segura de si. “Na adolescência, eu era aquela que formava os casais, a amiga que fazia a ponte mas era preterida. Apesar disso, sempre fui muito despachada e segura. Aprendi a ter essa confiança desde pequena durante os processos de adoção. Foram muitos nãos desde sempre. Hoje, não tenho medo de levar uma negativa. É só mais uma entre tantas. Ao invés de me derrubar, me fez ser tão bem-resolvida. Levo todas essas experiências para as minhas personagens, talvez por isso dê tão certo”, afirma uma Jéssica linda e segura de si.