No Brasil não existe racismo, é coisa que querem importar, diz Mourão sobre morte de Beto Freitas em mercado

RICARDO DELLA COLETTA E MATHEUS TEIXEIRA
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*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF, 03.02.2020 - O vice-presidente Hamilton Mourão (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)
*ARQUIVO* BRASÍLIA, DF, 03.02.2020 - O vice-presidente Hamilton Mourão (Foto: Pedro Ladeira/Folhapress)

BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) - O vice-presidente Hamilton Mourão lamentou o espancamento de um homem negro até a morte por seguranças de um supermercado Carrefour em Porto Alegre, mas disse não considerar que o episódio tenha sido provocado por racismo. O Brasil marca nesta sexta (20), um dia depois da trágédia, o Dia da Consciência Negra.

Ao comentar o episódio, filmado e divulgado no fim da noite de quinta-feira, Mourão afirmou que a equipe de segurança do estabelecimento estava "totalmente despreparada", mas disse que não existe racismo no Brasil.

As declarações do vice ocorreram no Dia da Consciência Negra, em meio a forte comoção após a morte de João Alberto Silveira Freitas, um homem negro de 40 anos que foi espancado por dois seguranças de uma loja do supermercado Carrefour localizada no bairro Passo d'Areia, na zona norte de Porto Alegre.

"Lamentável isso aí. A princípio é a segurança totalmente despreparada para a atividade que tem que fazer", disse o vice, ao chegar em seu gabinete no Palácio do Planalto, em Brasília.

Questionado sobre se considerava que o episódio mostrava um problema de racismo no Brasil, Mourão respondeu: "Não, para mim no Brasil não existe racismo. Isso é uma coisa que querem importar, isso não existe aqui. Eu digo para você com toda tranquilidade, não tem racismo".

Jornalistas perguntaram novamente ao vice se ele não enxergava um componente racial no episódio. Mourão reiterou que não considerava um caso de racismo.

"Não, eu digo para vocês pelo seguinte: porque eu morei nos Estados Unidos. Racismo tem lá. Eu morei dois anos nos Estados Unidos. Na minha escola, o pessoal de cor andava separado, [algo] que eu nunca tinha visto isso aqui no Brasil. Saí do Brasil, fui morar lá, era adolescente, e fiquei impressionado com isso aí."

Mourão afirmou que morou nos EUA no final da década de 1960, quando o debate sobre direitos civis e segregação estava no auge.

"Isso no final da década de 60. Mais ainda, o pessoal de cor sentava atrás do ônibus, isso é racismo. Aqui não existe. Aqui, o que você pode pegar e dizer é o seguinte: existe desigualdade. Isso é uma coisa que existe no nosso país. Nós temos uma brutal desigualdade aqui, fruto de uma série de problemas, e grande parte das pessoas de nível mais pobre, que tem menos acesso aos bens e as necessidade da sociedade moderna, são gente de cor".

De acordo com a assessoria do vice, ele residiu na capital do país, Washington. ​

Segundo informações do site GaúchaZH, o espancamento aconteceu após uma briga da vítima com uma funcionária do supermercado. Ela chamou os seguranças, que levaram Beto Freitas para o estacionamento e o espancaram até a morte.

O Carrefour, por meio de sua assessoria de imprensa, definiu a morte como brutal e anunciou que romperá o contrato com a empresa responsável pelos seguranças. Informou também que vai demitir o funcionário responsável pela loja na hora do ocorrido.​

Vídeos que mostram o espancamento e a tentativa de socorristas de salvarem Beto circulam nas redes sociais desde a noite de quinta-feira (19) e provocam a mobilização de ativistas contra o racismo.

Beto morreu na véspera do Dia da Consciência Negra, comemorado nesta sexta-feira (20) em referência à morte de Zumbi, o líder do Quilombo dos Palmares, localizado entre Alagoas e Pernambuco.​

Outras autoridades em Brasília prestaram homenagem a Beto.

Na tarde desta sexta, Luiz Fux, presidente do STF (Supremo Tribunal Federal), participou de uma cerimônia de assinatura de uma parceria entre o CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e a Faculdade Zumbi dos Palmares para reforçar o combate à discriminação racial do Judiciário.

“Gostaria preliminarmente de antes de iniciarmos, esse evento, pedir um minuto de silêncio em homenagem a Luiz Alberto Silveira Freitas, negro, 40 anos que foi morto na noite de ontem por seguranças de supermercado”, disse.

Fux ressaltou que, “independentemente de versões, o que deve preocupar é a violência exacerbada”.“Toda violência é desmedida e deve ser banida da nossa sociedade. Mas esse episódio é um triste episódio, exatamente no momento em que nós comemoramos o Dia Nacional da Consciência Negra."

Outros ministros do STF se manifestaram. Em redes sociais, Gilmar Mendes afirmou que o episódio “demonstra que a luta contra o racismo e contra a barbárie está longe de acabar” e usou a hashtag "VidasNegrasImportam".

“O Dia da Consciência Negra amanheceu com a escandalosa notícia do assassinato bárbaro de um homem negro espancado em um supermercado”, escreveu o magistrado.

O ministro Alexandre de Moraes também comentou o caso em postagem. “Na véspera do Dia da Consciência Negra, marcado pelo preconceito racial, o bárbaro homicídio praticado no Carrefour escancara a obrigação de sermos implacáveis no combate ao racismo estrutural, uma das piores chagas da sociedade. Minha solidariedade à família de João Alberto”.

Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, também lamentou a morte de Beto Freitas no Twitter. Ela disse que as imagens são "chocantes" e causam "indignação e revolta".

"Me solidarizo com a família e coloco o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos à disposição para prestar toda assistência necessária. Sintam-se abraçados por nós".

Ela, no entanto, não fez qualquer menção a racismo ou ao Dia da Consciência Negra em sua publicação.

O presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), foi ao Twitter e, em nome da Casa, enviou sentimentos à família e amigos de Beto Freitas. “A cultura do ódio e do racismo deve ser combatida na origem, e todo peso da lei deve ser usado para punir quem promove o ódio e o racismo”, afirmou.

Na mesma rede social, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), disse que “no Dia da Consciência Negra, o assassinato brutal de João Alberto Freitas, espancado até a morte por seguranças de um supermercado, em Porto Alegre, estarrece e escancara a necessidade de lutar contra o terrível racismo estrutural que corrói nossa sociedade”.

Na condição de presidente da Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado, Paulo Paim (PT-RS) divulgou nota de repúdio na qual apresentou condolências à família da vítima.

"Afirmo que não pouparei esforços para que este crime seja punido e reafirmo que combato firmemente a intolerância e a discriminação de toda espécie”, afirmou o senador petista.

Paim lembrou no texto casos veiculados na imprensa sobre violência, intolerância e discriminação racial acontecidas nas dependências do Carrefour.

O parlamentar anunciou o envio de convite ao grupo empresarial para uma reunião virtual sobre o assunto. Paim tenta agendar o encontro para a próxima semana.

Os dois candidatos à prefeitura de Porto Alegre falaram sobre o caso. Manuela d'Ávila (PC do B) informou que há uma manifestação marcada para as 18h desta sexta, na loja do Carrefour.

"Estava no debate da Band e na saída soube do assassinato de um homem negro pela abordagem violenta dos seguranças do estacionamento do Carrefour. Sei que já há pedido de investigação sendo feito por parlamentares e pela bancada antirracista recém eleita. Mas as imagens dizem muito", ela afirmou.

Sebastião Melo (MDB) chamou a morte de absurda e disse que as cenas dos vídeos são chocantes. "Justamente no dia nacional de luta contra o racismo. Medidas rigorosas devem ser tomadas imediatamente", disse.