No Cairo, Lavrov dá garantias a países árabes de que Rússia continuará a exportar grãos

O chanceler russo, Sergei Lavrov, deu garantias aos países da Liga Árabe neste domingo de que Moscou vai cumprir seus compromissos relacionados às exportações de grãos, dois dias após Rússia e Ucrânia firmarem um acordo para permitir a passagem livre de navios mercantes, pelo Mar Negro, e um dia depois de forças russas atacarem o porto estratégico de Odessa – crucial para o cumprimento do acordo, que visa liberar produtos agrícolas da Ucrânia pela primeira vez desde o início da guerra.

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O Kremlin, que no sábado havia negado à Turquia responsabilidade no bombardeiro, admitiu neste domingo que teve o porto como alvo para atingir "alvos militares". O ataque, descrito pelo presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, como "barbárie" e um sinal de que não é possível confiar em Moscou, levantou dúvidas sobre a implementação do pacto e atraiu condenação internacional.

Em seu discurso no Cairo, Lavrov destacou que obteve, durante as negociações do acordo sobre a passagem dos navios, garantias de que as sanções aplicadas pelos países ocidentais não atingiram as exportações de alimentos — apesar de teoricamente as medidas não serem aplicadas a itens essenciais, como grãos, as sanções que recaem sobre o setor financeiro russo podem inviabilizar os pagamentos pelos produtos.

— O secretário-geral [da ONU, António Guterres], assumiu a responsabilidade de colocar fim às restrições ilícitas dos EUA e da União Europeia contra as cadeias logísticas e financeiras [da Rússia] — declarou Lavrov. — A suposta crise alimentar, que sempre foi atribuída sem vergonha à Rússia, é uma história falsa.

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Antes da guerra, Rússia e Ucrânia apareciam entre os maiores exportadores de alimentos do planeta, exportando itens como trigo, centeio e óleo de girassol para dezenas de países. Com o início do conflito, as sanções internacionais dificultaram o pagamento pelos produtos russos, e o bloqueio naval imposto aos portos ucranianos impede que cerca de 25 milhões de toneladas de alimentos sejam embarcados e transportados pelo Mar Negro.

Os preços globais das commodities aumentaram, fazendo a ONU alerta que adicionais 47 milhões de pessoas enfrentavam “fome aguda” — muitos dos países mais afetados estão na África.

Com o acordo firmado na sexta-feira, a expectativa é de que os navios possam voltar a trafegar em segurança pela região. Lavrov destacou, em declarações feitas no Cairo, que a escolta às embarcações no Mar Negro será feita pela Rússia, pela Turquia, que mediou o acordo, e por um terceiro país ainda não revelado. Ele afirmou ainda que o lado ucraniano se comprometeu a desativar as minas navais instaladas em vários portos do país — os explosivos tinham o objetivo de evitar uma invasão terrestre das forças russas.

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A presença na reunião na Liga Árabe foi mais uma demonstração de Moscou de que o país não está isolado diplomaticamente, como querem nações como os EUA e a União Europeia. Na semana passada, o presidente Vladimir Putin esteve em Teerã, onde se encontrou com lideranças locais, como o presidente Ebrahim Raisi e o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, e com o presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan.

A viagem de Lavrov, que também inclui Uganda, Etiópia e Congo, tem essencialmente o objetivo de atrair as nações africanas do lado russo. Em um artigo publicado em quatro jornais africanos, ele rejeitou as acusações de que a Rússia fosse responsável pela crise alimentar.

Ele elogiou o que descreveu como um "caminho independente" adotado pelos países africanos em rejeitar aderir às sanções ocidentais contra a Rússia e as "indisfarçadas tentativas dos EUA e de seus satélites europeus de ganhar vantagem e impor uma ordem mundial unipolar”.

No Cairo, Lavrov encontrou uma plateia afável: ali, nenhum governo condenou publicamente a guerra na Ucrânia, e eles evitam fazer críticas abertas a Moscou, apontando para os longevos laços políticos e, especialmente, econômicos: no caso dos grãos, a Rússia é o principal fornecedor para boa parte das nações árabes.

O Egito, por exemplo, importa 85% de seu trigo dos russos, e é um dos melhores clientes do setor de defesa da Rússia. Entre 2016 e 2020, Argélia e Iraque, duas nações que integram a Liga Árabe, importaram mais de US$ 5 bilhões em armas e equipamentos militares russos.

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