No calor desértico da Saara, vendas e negociações pararam pelo Flamengo

Luciano Ferreira
Torcedores comemoram a vitória do Flamengo contra o Al Hilal, válida pela semifinal do Mundial de Clubes da FIFA, na Saara, centro do Rio

O Flamengo foi até o deserto, literalmente, buscar o título do Mundial de Clubes, e a vitória de virada nesta terça-feira na semifinal contra o Al-Hilal, por 3 a 1, deixou a metade do caminho para trás. Enquanto a bola rolava, a Saara parou para acompanhar a partida. Mas este não é a região com mais de quase 5 mil km de extensão, e, sim, a Sociedade de Amigos das Adjacências da Rua da Alfândega, que teve uma tarde quase desértica, com os termômetros marcando 36°C. Mais popular centro comercial popular do Rio, o local que cobre as tradicionais ruas Buenos Aires, Alfândega e Rosário viveu um dia atípico. Mesmo às vésperas das festividades de fim de ano, lojistas e consumidores deixaram por um momento as compras de lado e se concentraram em frente às televisões para acompanhar o jogo.

Atípico também foi o primeiro tempo rubro-negro: muito abaixo do esperado, sendo pressionado pelo adversário, e levando um gol de Al-Dawsari, aos 17. Mas isso não desanimou aqueles que assistiam ao jogo. Rubro-negro fanático, o corretor de imóveis Manoel José Batista adiou em algumas horas uma reunião que tinha marcado para concretizar uma venda, segundo ele, milionária.

— O Flamengo é a prioridade agora. A reunião pode esperar, que daqui a pouco eu chego lá. Mas tenho confiança de que o Flamengo vai virar. Vai ser igual contra o River, de virada de novo, mesmo com esses secadores aqui — profetizou o contador, que arriscou um 2 a 1 como placar final, com gols de Arrascaeta e Bruno Henrique.

A despretensiosa aposta do torcedor começou a se desenhar logo no início do segundo tempo. Com gol de Arrascaeta, aos 3 minutos do segundo tempo, a explosão dos bares e restaurantes chamava a atenção de todos que passavam. Aos 32, o gol da virada, marcado por Bruno Henrique, deu o alívio que a Saara carioca tanto esperava, e fez explodir a torcida. O gol contra de Al-Bulayhi já no fim do jogo, o terceiro do Flamengo, fechou a placar. A vitória estava garantida, e a negociação dos imóveis poderia ser concluída.

— Nem pude beber. Tive que ficar só na água para chegar inteiro lá na reunião. E estou indo agora. Mas vai dar tudo certo, todo mundo lá é flamenguista também, então vai ser só alegria — brincou.

Transmissão na Rádio Saara

Para a ocasião, a tradicional Rádio Saara também transmitiu o jogo nos alto-falantes espalhados pelas estreitas vias da região. Com mais de 35 anos, e há dois transmitindo partidas dos times cariocas que ocorrem em horário comercial, a equipe de esporte preparou uma cobertura especial. Contou até com comentários de um lojista da região, de origem libanesa, mas que torce para o Flamengo.

— O libanês gosta muito de futebol, os árabes, como um todo gostam muito do futebol brasileiro também. E eles também são muito apaixonados, e, como não tem times fortes lá, a torcida vai para times europeus e brasileiros. Eu tenho primos lá que vão torcer para o Flamengo nesse Mundial — disse Alan Kalaoun.

No entanto, o jogo ainda tinha um ingrediente especial para os comerciantes da região. Caso o Flamengo passasse pelo Al-Hilal, a final seria disputada no próximo sábado, data mais esperada pelos lojistas da região, por se tratar do último fim de semana antes do Natal.

— Seria o melhor dia do ano para o comércio daqui. A gente aqui até brincou que, se fosse para perder o título, melhor que fosse logo nessa fase, para que o sábado fique livre. Tem que pensar também que o comércio é a nossa prioridade — explicou o comerciante.

Porém, a ida do Flamengo à final não desanimou os comerciantes, que planejam instalar um telão em um dos pontos de concentração dos torcedores para que acompanhem a decisão, no sábado.