No caso da saída da Ford, Bolsonaro não imitou Trump

Henrique Gomes Batista
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Não há dúvidas que Jair Bolsonaro emula Donald Trump e não é de hoje: para quem tinha dúvidas, o presidente brasileiro fez questão de deixar isso explícito ao afirmar que uma crise semelhante à invasão do Capitólio pode ocorrer em Brasília em 2022. Ambos minimizaram a pandemia, são contra a globalização e o brasileiro até repete o discurso do americano contra a China. Mas na economia não é bem assim.

O anúncio do fechamento das fábricas da Ford no Brasil explicita essa diferença gritante. Nos EUA, Trump conseguiu seus melhores resultados como presidente em uma atitude comercial agressiva. Aproveitou o acesso que tinha a grandes empresários e conseguiu uma série de anúncios de retomada da indústria americana. Mudou o acordo comercial com México e Canadá. Usou o “Made in America” como slogan político. No caso brasileiro, Bolsonaro apenas repetiu seu tradicional “lamento” e criticou a empresa.

Trump tem hoje entre os operários da indústria americana uma base tão fiel quanto os trabalhadores da agricultura ou os apoiadores de armas. Bolsonaro, ao não fazer gestos para tentar encontrar uma solução para segurar a montadora americana, parece abrir mão de um eleitorado importante, que já votou em candidatos do PT e, desiludido, havia caminhado para a direita.

Da mesma forma, Trump defendeu um auxílio emergencial maior para os americanos afetados pela pandemia, enquanto Bolsonaro não buscou soluções orçamentárias para ampliar a ação que lhe rendeu grande popularidade.

Trump se orgulha pelo que fez e muitas vezes exagera suas conquistas, como quando puxa para si todos os méritos do boom do mercado acionário americano. Bolsonaro preferiu um outro caminho: dizer que não pode fazer nada pois o país está “quebrado”. Um utiliza seu passado como empresário como um selo de qualidade (embora especialistas tenham sérias dúvidas sobre seus negócios), enquanto o outro se orgulha de afirmar “que não sabe nada de economia”. Em um país que completou mais uma década perdida, com desemprego recorde e sofre para ter uma retomada, pode ser uma aposta arriscada.