No Catar, para driblar as regras mais rígidas, o jeito é abusar da criatividade

Imagine a cena: a jovem chega a um café. Está sozinha e vê alguém que a interessa. Dependendo da pessoa ou do lugar do planeta, poderia haver troca de olhares, cantada. Mas não no Catar — a aproximação entre homens e mulheres que não se conhecem é proibida, e relacionamentos homossexuais podem ser punidos até com apedrejamento. A alternativa, então, é ser criativo para mostrar o interesse. E torcer para que funcione.

No dia a dia, cataris mais jovens e especialmente ocidentais que migram para o país precisam lidar com freios que os costumes de um país muçulmano impõem. Mas embora tenham que driblar regras mais rígidas de convivência, o bicho tem menos cabeças do que parece.

Para o estrangeiro que vive no Catar, a vida será mais ou menos parecida com a do país de origem — dependendo do chefe que tiver. Principalmente quando o assunto é o consumo de bebida alcoólica. Ou então carne de porco, também proibida.

Os cataris são literalmente os donos do país, já que são os proprietários das empresas que contratam os estrangeiros. E qualquer um que venha para Doha trabalhar precisa de uma autorização de seu patrão, ou como chamam aqui, “sponsor”, para conseguir licença para o consumo de bebida alcoólica.

Quem é contratado por cataris menos rígidos quanto às regras muçulmanas, geralmente consegue o aval. Quem não é fica a ver navios.

— Eu era contratada de uma academia aqui que só atendia mulheres, e meu patrão, mais conservador, não me autorizava — conta Rafaela Ruiz, personal trainer de Novo Horizonte (SP), em Doha há quatro anos. — Mesmo eu dizendo que não era para beber, apenas para comprar carne de porco, ele dizia que era um desrespeito. Agora, no meu novo trabalho, não tive problemas.

Mas há alternativas para o estrangeiro que não consegue a permissão. Uma é consumir na casa de quem tem acesso ao produto, o que pode ser incômodo, já que dependerá sempre do convite de terceiros para beber ou comer uma bisteca. Outra é ter alguém com licença que compre os itens e repasse. Isso, no entanto, é proibido. Assim como revender. Para manter a licença, a pessoa precisa pagar 275 riais por ano, cerca de R$ 412.

— Quem leva para a casa precisa ser discreto. Se tiver o carro parado e for visto com bebida sem ter a licença, pode até ir preso — alerta Rafaela.

Medo da perda de controle

A ideia de embriaguez desagrada ao catari. Por isso, a permissão para algumas pessoas comprar e consumir em casa. Na rua, nem pensar. Na Copa, há áreas onde pessoas sob efeito de álcool nas fan fests ou nas áreas vips dos estádios são levadas para descansar antes de voltar aos hotéis.

Em tempos normais, quem tem dinheiro para pagar altos preços e resistência para não perder os reflexos depois de poucos goles pode levar uma vida etílica agitada —e bem cara. Restaurantes de hotéis cinco estrelas vendem as bebidas. Boates de luxo, também. E isso vale mesmo para quem não tem a permissão do patrão mais conservador.

No fim das contas, o que incomoda mesmo os cataris é a perda do controle, que vai de encontro com o que a religião aponta para justificar a proibição da bebida alcoólica: o Alcorão não recomenda o consumo de qualquer substância que entorpeça o corpo de alguma forma.

Um exemplo claro é o ocorrido em The Pearl, bairro artificial de luxo construído em Doha ao longo do processo de modernização que o país atravessa. Ali, o governo do Catar adotou uma leitura religiosa diferente, fez vista grossa para o álcool e permitiu seu consumo em uma tentativa de ser mais flexível para o Ocidente.

Porém, os exageros, na visão dos cataris, foram tantos que no fim de 2011 as autoridades voltaram atrás na decisão. Esse vai e vem é recorrente, com o país sempre testando até onde pode ir sem extrapolar seus limites. Atualmente, existe apenas uma única distribuidora de bebidas, distante do centro da capital. Recentemente, uma segunda unidade foi aberta em West Bay, bairro badalado de Doha. Depois do aumento do consumo de álcool, ela foi fechada.