No 'celeiro' do Brasil, sobra gado e falta comida no prato de quem vive em Mato Grosso

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por André Bogart e João Conrado Kneipp

Na casa de Dayane Fardin Ramos, arroz e feijão são luxo. 

Desde que seu marido morreu em um acidente de carro, em 22 de novembro de 2020, o processo de luto se confunde com o desconforto de uma alimentação empobrecida na segunda onda de Covid-19.

Sem conseguir emprego, a auxiliar de cozinha que mora no bairro Centro América, na periferia de Cuiabá, capital do Mato Grosso, apresenta o mesmo cardápio diariamente para os filhos de 13 e 4 anos. Com rara sorte, como quando surge um bico, inclui um ovo frito no prato.

Ela exibe a geladeira que tem não mais do que uma panela de pressão, duas batatas-doces e algumas tigelas embrulhadas em sacolas plásticas e tenta encontrar uma resposta para a miséria.

“Vai deitar chorando, quando acorda está tudo a mesma coisa. Põe um sorriso no rosto pra não demonstrar o sofrimento para os outros e seguir em frente. É o que resta para a gente, né?”, filosofa Dayane.

Na geladeira de Dayane, não há mais do que uma panela de pressão, duas batatas-doces e algumas tigelas embrulhadas em sacolas plásticas. 
(Imagem: Rogério Pereira/Yahoo Notícias)
Na geladeira de Dayane, não há mais do que uma panela de pressão, duas batatas-doces e algumas tigelas embrulhadas em sacolas plásticas. (Imagem: Rogério Pereira/Yahoo Notícias)

Atualmente, sua única renda são os R$ 250 de auxílio emergencial, valor que mal cobre as despesas de água e luz. Dayane afirma que terá de arriscar e procurar emprego assim que receber a última parcela do benefício.

O pagamento do auxílio emergencial começou em abril de 2020, sendo R$ 600 ou R$ 1.200 para mães chefes de família. Depois de cinco parcelas, o valor caiu pela metade. O último dos repasses, de R$ 300 ou R$ 600, ocorreu em dezembro. O programa foi retomado em 2021 com quatro parcelas de R$ 250 e menos beneficiários.

Estima-se que o custo dos pagamentos para 68 milhões de pessoas tenha chegado a R$ 300 bilhões em 2020, quase dez vezes o valor do Bolsa Família, que beneficia cerca de 14 milhões de famílias com repasse médio de quase R$ 200.

O que restou do carro capotado de seu marido foi utilizado para comprar comida, diz a viúva. “Se ele estivesse aqui, eu não estaria passando dificuldades como agora. Eu tenho que dar o meu jeito.”

MT: 'Celeiro' do Brasil e 10x mais cabeças de gado do que habitantes

Mato Grosso pode ser considerado o estado brasileiro líder no agronegócio. É o maior produtor de soja (corresponde a 10,4% da soja produzida no mundo), milho, etanol de milho, algodão e carne bovina – o lugar do planeta que mais produz alimentos.

Em 2020, foi o maior exportador de carne bovina no Brasil, segundo levantamento da Scot Consultoria. Entre janeiro e dezembro, o estado faturou R$ 1,63 bilhão com as vendas para fora - acima do segundo lugar, São Paulo, com R$ 1,45 bilhão.

No mesmo ano, o estado chegou ao patamar de mais de 30,98 milhões de cabeças de gado. 

O rebanho mato-grossense de bovinos, o maior do País com mais de 30,98 milhões de cabeças, cresceu em relação ao plantel contabilizado no ano passado. (Imagem: Rogério Pereira/Yahoo Notícias)
O rebanho mato-grossense de bovinos, o maior do País com mais de 30,98 milhões de cabeças, cresceu em relação ao plantel contabilizado no ano passado. (Imagem: Rogério Pereira/Yahoo Notícias)

Dados do Instituto de Defesa Agropecuária de Mato Grosso (Indea/MT) e do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), mostram que em um ano foram adicionadas 645,38 mil cabeças, o que permitiu uma expansão anual de 2,13%.

Se por um lado tem boi de sobra, por outro faltam consumidores com dinheiro para comprar carne no próprio país. A autônoma Ana Cristina Barbosa tem seis bocas para alimentar, mas a soma de desemprego e pandemia tem dificultado o seu acesso a um direito previsto na Constituição.

Ironicamente, ela trabalhava em uma marmitaria quando chegou o coronavírus e a impossibilitou de preparar quentinhas para venda. Ana Cristina divide um barraco de madeira com pouca iluminação com três filhos e dois netos, no bairro Jardim União. A dor só não é maior porque ganha uma cesta básica mensalmente.

Com R$ 900 de renda mensal, ela tem que escolher bem o que compra no mercado - os itens mais baratos são preferência. 

“Hoje em dia a gente compra carne, mas não é igual a antes, que dava para comer dois, três pedaços. Agora come um e deixa outro para mais tarde”, diz, completando que a prioridade é alimentar as crianças.

A auxiliar de serviços gerais Nildiceia Firmina Chagas veio de Rondônia a Mato Grosso após perder a mãe, vítima da Covid-19. Há quatro meses, ela tinha a expectativa de dar uma vida melhor aos seus filhos. No entanto, o seu caçula, de 1 ano, quase perdeu a vida.

Com o risco iminente de perder o lar, Nildiceia procura se virar como pode para conseguir um dinheiro extra como faxineira ou capinadora de terreno. (Imagem: Rogério Pereira/Yahoo Notícias)
Com o risco iminente de perder o lar, Nildiceia procura se virar como pode para conseguir um dinheiro extra como faxineira ou capinadora de terreno. (Imagem: Rogério Pereira/Yahoo Notícias)

Sem esconder as lágrimas, Nildiceia se emociona ao recordar do período em que o pequeno ficou internado por quase 30 dias em uma UTI (Unidade de Terapia Intensiva). A pediatra recomendou o consumo de uma fórmula especial para reforçar a alimentação da criança.

Ela não tem dinheiro suficiente para comprar a lata que tem um preço médio de R$ 45 por unidade. “Ele está tomando leite de caixinha mesmo, mas a médica receitou essa fórmula porque o problema dele é muito grave”, lamenta.

Nildiceia comprou um terreno no Jardim União e construiu com suas próprias mãos uma casa feita de bloco de concreto. Mas ela tem sofrido para pagar as parcelas de R$ 500, porque o que entra de dinheiro todo mês é usado para comprar comida. O ovo substituiu a carne vermelha há tempos.

Com o risco iminente de perder o lar, Nildiceia procura se virar como pode para conseguir um dinheiro extra como faxineira ou capinadora de terreno. Na mini horta ainda incompleta que preparou no quintal, ela planta tudo que a terra pode dar: couve, coentro e cebolinha. Quando a colheita é muito boa, os vizinhos recebem doações.

A fome na pandemia da Covid-19 no Brasil

A fome, que crescia no Brasil na última década, acabou se agravando na pandemia. Em 2020, 19 milhões de pessoas viviam em situação de fome no país, segundo o Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da covid-19 no Brasil. 

Em 2018, eram 10,3 milhões. Ou seja, em dois anos houve um aumento de 27,6% (ou quase 9 milhões de pessoas a mais).

A Unicef (braço da ONU voltado para crianças e adolescentes) afirmou que, no mundo, "6,7 milhões de crianças menores de cinco anos podem sofrer definhamento (baixo peso para a altura) — e, portanto, tornar-se perigosamente subnutridas — em 2020 como resultado do impacto socioeconômico da pandemia de covid-19".

Mato Grosso pode ser considerado o estado brasileiro líder no agronegócio. (Imagem: Rogério Pereira/Yahoo Notícias)
Mato Grosso pode ser considerado o estado brasileiro líder no agronegócio. (Imagem: Rogério Pereira/Yahoo Notícias)

Segundo a legislação brasileira, a segurança alimentar e nutricional "consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais."

Por outro lado, a insegurança alimentar ocorre em três níveis, segundo a escala Ebia. 

  • Leve: Quando há incerteza ou receio a respeito da capacidade de passar fome em um futuro próximo ou em conseguir alimentos;

  • Moderada: Situação em que há restrição na quantidade e na qualidade do alimento para a família; e 

  • Grave: Quando as pessoas que relatam passar fome, quando não se consome comida por um dia inteiro ou mais.

Em estudo sobre a fome durante a pandemia de covid-19, publicada na revista SER Social, a socióloga Sirlândia Schappo, professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), diz: "a ausência do direito humano à alimentação envolve não apenas a falta de renda ou da disponibilidade de alimentos, mas de vários outros fatores, como o não acesso ao alimento, a falta de condições adequadas para produzir o alimento, o não acesso à terra, a falta de condições de saúde ou de habitação, entre outras".

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