No Complexo do Alemão (RJ), nem a informalidade salva a renda das famílias durante a pandemia

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por Mariana Ferrari e João Conrado Kneipp

Jefe Produções. J, E, F, E Produções”. 

É assim que Jefferson dos Santos se apresenta, antes mesmo de dizer o nome ou a profissão. Dentro de sua casa no Complexo do Alemão, zona norte do Rio de Janeiro, ele transformou os problemas que diariamente escutava de colegas e amigos do morro em conteúdo para o seu canal no YouTube, o Jefe Produções. 

“Dou algumas dicas para as pessoas que não sabem o que fazer nessa pandemia da Covid-19 para ganhar dinheiro”, descreve ele.

Entre os vídeos, há um passo-a-passo de como, por exemplo, ganhar dinheiro fabricando e vendendo as próprias pipas. Antes de entrar no assunto do vídeo em si, ele se apresenta e explica que, o que conteúdo que mostrará a seguir é para ele uma tentativa de "gerar uma renda extra" e "até uma renda fixa para ganhar dinheiro nesta pandemia".

O primeiro vídeo, postado há um mês, traz como título a dúvida diária dele e de, pelo menos, outros 14 milhões de brasileiros: "Como ganhar dinheiro nessa época de pandemia em 2021". 

No entanto, as redes sociais ainda não são o seu sustento. O que tem colocado comida no prato da família é um pequeno comércio de alimentos que ele montou em frente à sua casa. Nas prateleiras: salgadinho, bala, pirulito, bebidas em geral. 

“Desde que começou a pandemia ficou mais difícil”, desabafa. Desempregado há cerca de dois anos, as vendas do mini mercado sempre foram a principal renda dele e de sua família. “Mas aí tudo ficou mais caro e as vendas não aguentaram, porque, consequentemente, as pessoas estavam sem dinheiro”.

Foco do conteúdo criado no canal do YouTube de Jefferson é, justamente, seu principal problema: Como ganhar dinheiro neste momento de pandemia da Covid-19 no Brasil. (Foto: João Araió - Gato Mídia)
Foco do conteúdo criado no canal do YouTube de Jefferson é, justamente, seu principal problema: Como ganhar dinheiro neste momento de pandemia da Covid-19 no Brasil. (Foto: João Araió - Gato Mídia)

Taxa de desemprego segue em 14%, mas trabalho informal cresce na pandemia

Dados da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), divulgados em janeiro pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), apontam que a taxa de desemprego manteve-se no patamar recorde de 14,4 milhões de pessoas — o equivalente a 14,1%.

Contudo, a população ocupada aumentou 4,7%, chegando a 85,6 milhões de pessoas, um incremento de 3,9 milhões ante o trimestre anterior. 

O crescimento foi puxado principalmente pela informalidade, que está em 39,1%. Entre os informais, o número de trabalhadores sem carteira assinada cresceu 11,2% no trimestre e chegou a 9,7 milhões de pessoas.

Somadas todas as categorias de informais, que incluem os domésticos, trabalhadores por conta própria sem CNPJ e os familiares, 33,5 milhões de pessoas estão na informalidade.

OS NÚMEROS DO DESEMPREGO E DA INFORMALIDADE NO BRASIL:

  • 14,4 milhões de desempregados

  • 85,6 milhões de pessoas na população ocupada

  • 39,1% de trabalhadores informais

  • 9,7 milhões de pessoas na informalidade

Em todo o Brasil, o número de autônomos explodiu. 

A plataforma Workana registrou um aumento de 28,8% em novos cadastros, saltando de 2,8 milhões de usuários em 2019, para 3,8 milhões em 2020. De acordo com o Sebrae, mais de 2,6 milhões de brasileiros abriram MEIs (MicroEmpreendedor Individual) no mesmo período— em todo o país já são 11,3 milhões de registros.

O que salvou muitos trabalhadores autônomos foi o auxílio emergencial que o governo federal disponibilizou para famílias que perderam boa parte — ou toda — sua renda. Em 2020, o máximo que uma pessoa poderia receber do benefício era R$ 1.800. 

Contudo, agora, com um novo orçamento aprovado, o valor máximo do auxílio ficou no teto de R$ 375 — o que não paga nem uma cesta básica no Rio de Janeiro — avaliada em R$ 612,56 neste ano.

Governo estuda prorrogar auxílio-emergencial e engordar Bolsa Família

O presidente Jair Bolsonaro disse, no dia 15 de junho, que o Ministério da Economia "estuda" o pagamento de "mais duas ou três parcelas" do auxílio emergencial. A bandeira é uma das apostas de Bolsonaro para alavancar sua popularidade, que está em queda.

A rodada atual do auxílio tem quatro parcelas, que começaram a ser pagas em abril e serão encerradas em julho. A equipe econômica havia fechado uma proposta para prorrogar o auxílio a informais por dois meses. O custo estimado era de R$ 18 bilhões.

Brazil's President Jair Bolsonaro, wearing a mask to curb the spread of COVID-19, attends the launching ceremony of the Asphalt Giants Program, at the Planalto presidential palace, in Brasilia, Brazil, Tuesday, May 18, 2021. According to the Ministry of Infrastructure, the program offers facilities such as offering special lines of credit to purchase trucks or maintenance, predictability in the price of diesel oil, and faster vaccination of truck drivers against COVID-19. (AP Photo/Eraldo Peres)
O presidente Jair Bolsonaro disse, no dia 15 de junho, que o Ministério da Economia "estuda" o pagamento de "mais duas ou três parcelas" do auxílio emergencial. (Foto: AP Photo/Eraldo Peres)

Além disso, Bolsonaro confirmou sua intenção de turbinar o Bolsa Família, programa criado na gestão do PT. O programa, segundo o presidente, sofreria um "aumento de 50%" no valor pago a partir do mês de dezembro. Passaria de, em média, R$ 190 para R$ 300.

Segundo Bolsonaro, o programa social contemplaria cerca de 18 milhões de famílias.

Recuperação econômica e social pós-Covid passa por enfrentar a informalidade

Entretanto, na avaliação dos especialistas, é preciso que os governos adotem um conjunto robusto e abrangente de medidas políticas e econômicas para enfrentar a informalidade. 

Caso contrário, a recuperação econômica da recessão causada pela pandemia ficará comprometida e será a informalidade que ameaçará travar essa retomada nos países emergentes.

A avaliação consta em um alerta feito pelo Banco Mundial, no relatório "A longa sombra da informalidade: desafios e políticas", publicado em maio, no qual a instituição examina a abrangência do fenômeno e suas possíveis consequências para o desenvolvimento.

"Uma porcentagem surpreendentemente alta de trabalhadores e empresas em mercados emergentes e economias em desenvolvimento (EMED) opera fora do campo visual dos governos, representando um desafio que provavelmente retardará a recuperação dessas economias", relatou o Banco Mundial.

Na prática, a alta informalidade significa limitar os recursos disponíveis para os Estados. Esta situação “limita a capacidade dos governos de desenvolver medidas de apoio ao orçamento que ajudem a controlar a pandemia e gerar uma recuperação robusta”.

Mulheres e jovens são as 'vítimas mais comuns' do trabalho informal

O trabalho informal também tem impacto social: atinge mulheres e jovens com pouca preparação.

“Em meio à crise de Covid-19, eles geralmente ficam para trás e têm acesso limitado a redes de segurança social quando perdem seus empregos ou sofrem graves perdas de renda”, avalia a Diretoria de Políticas de Desenvolvimento e Alianças do Banco Mundial.

Comerciante Fátima de Souza lamenta a interrupção do pagamento das parcelas do auxílio-emergencial pelo governo federal. (Foto: João Araió - Gato Mídia)
Comerciante Fátima de Souza lamenta a interrupção do pagamento das parcelas do auxílio-emergencial pelo governo federal. (Foto: João Araió - Gato Mídia)

É a situação, por exemplo, das comerciantes Valceara Rosa Tomé e Fátima Valéria de Souza, também moradoras do Complexo do Alemão.

“Antes da pandemia eu tinha um bar, agora o que eu ganho deixo em aluguel e mercado”, diz Valceara. Ela é proprietária de um pequeno restaurante, mas, a cada dia, o número de clientes vai diminuindo.

Valceara trabalha com tentativa e erro: começou a vender marmitas, mas o negócio não foi para frente; tenta agora comercializar comidas congeladas, como nhoque e lasanha. “O que me salvou esse mês foi o auxílio, porque até o dinheiro do aluguel estava faltando”, desabafa.

Já Fátima Valéria de Souza passa pela mesma dificuldade: os dias passam e as vendas continuam caindo. Há seis anos ela e o marido sustentam a casa com uma pequena vendinha no Alemão. O que antes era suficiente para uma vida sem necessidades, agora “está dando para sobreviver”, diz Fátima.

Na avaliação do Banco Mundial, reconstruir a economia global após a pandemia significará mobilizar todos os reservatórios disponíveis de energia produtiva. 

"Esse esforço deve começar agora e não pode ser bem-sucedido sem a plena consideração dos desafios de Covid-19 para o setor informal", completa o relatório.

Sem conseguir alavancar as vendas do bar, Valceara já vendeu
Sem conseguir alavancar as vendas do bar, Valceara já vendeu "quentinhas" e mesmo assim não consegue garantir renda estável o suficiente par a família. (Foto: João Araió - Gato Mídia)

Onde o governo não chega, ONGs e iniciativas fazem a vez do Estado

Há, no entanto, aqueles que nem o mínimo conseguiriam se não fosse a ajuda de projetos sociais. 

A ONG Voz das Comunidades, com forte atuação no Complexo do Alemão, tem levado comida àqueles que não puderam manter as refeições diárias com a queda da renda ao longo da pandemia. As doações são feitas pelas redes sociais e os voluntários cuidam da compra e da distribuição de alimentos.

Se não fosse isso, Gildo dos Santos estaria, de fato, passando fome. Há três anos ele sofreu um acidente de trabalho e, desde então, não consegue mais carregar peso sem sentir dores que tomam todo o seu corpo. 

“Quando carrego peso preciso deitar e tomar um comprimido para aliviar a dor”, diz Gildo. “Passei a catar latinha pela rua, mas chego em casa passando mal porque as dores parecem tomar conta de mim”. 

Gildo não tem renda fixa e muito menos o dinheiro necessário para pagar o INSS e sonhar com a desejada aposentadoria — a perícia já negou três vezes o seu auxílio.

O trabalho que já era difícil, no entanto, tornou-se risco de vida. Para conseguir as latinhas necessárias para levantar alguns trocados, Gildo precisa revirar o lixo. “Só que quando essa pandemia apareceu, fiquei com medo de mexer no lixo, com medo de que estivesse contaminado”, explica.

Sem conseguir aprovação para o auxílio, Gildo passou a catar latinhas e revirar o lixo para pagar as contas e sobreviver. (Foto: João Araió - Gato Mídia)
Sem conseguir aprovação para o auxílio, Gildo passou a catar latinhas e revirar o lixo para pagar as contas e sobreviver. (Foto: João Araió - Gato Mídia)

Pobres no Brasil estão 'mais pobres e mais infelizes' devido à pandemia

As desigualdades sociais e de renda cresceram no Brasil durante o primeiro ano da pandemia, bem como os indicadores de felicidade estão no menor ponto da série histórica. 

As informações são de uma análise da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Social, divulgada no dia 14 de junho, que apontam que os impactos mais fortes na diminuição de renda e bem-estar foram sentidos pela parcela mais pobre da população.

O índice de Gini, que mede a concentração de renda, atingiu o nível mais elevado da série histórica, iniciada em 2012, no primeiro trimestre de 2021. Cresceu de 0,642 em 2020 para 0,674 no primeiro trimestre deste ano, renovando o recorde histórico. 

Quanto mais perto de 1, maior é a concentração de renda. 

A renda média per capita recuou pela primeira vez abaixo de mil reais mensais, para R$ 995 nos três primeiros meses de 2021. O dado representa uma queda de 11,3% ante um ano antes, quando estava em R$ 1.122, o maior nível da série iniciada em 2012.

Contudo, o recuo foi maior para os 50% mais pobres: esse grupo perdeu 20,81% da renda, quase o dobro do que a média.

CONCENTRAÇÃO DE RENDA NO BRASIL, SEGUNDO O ÍNDICE GINI:

  • 2020: 0,642

  • 2021: 0,674

RENDA MÉDIA PER CAPITA NO BRASIL:

  • 2020: R$ 1.122

  • 2021: R$ 995

  • Redução de 11,3%

Para mensurar a felicidade geral, a FGV avalia a satisfação com a vida presente. Em 2020, o Brasil encerrou o ano com nota de 6,1, o menor ponto da série histórica iniciada em 2006.

A queda na percepção de felicidade está diretamente relacionada à perda de renda: o levantamento da FGV mostra que toda a queda de felicidade foi concentrada no grupo dos 40% mais pobres, cuja nota passou de 6,3 em 2019 para 5,5 no ano passado. 

SAO PAULO, BRAZIL - MARCH 08: A homeless person walks in front of street posters depicting the price increases of basic items during the administration of Jair Bolsonaro and a slogan that reads
As desigualdades sociais e de renda cresceram no Brasil durante o primeiro ano da pandemia, bem como os indicadores de felicidade estão no menor ponto da série histórica. (Foto: Alexandre Schneider/Getty Images)

Para os grupos de brasileiros com faixas de renda mais elevada, não houve mudança significativa. Os indicadores para a faixa dos 20% mais ricos variou de 6,8 para 6,9 no período.

Nesse caso, também a desigualdade da felicidade aumentou entre pobres e ricos: a diferença entre os extremos, que era de 7,9% em 2019, subiu para 25,5% durante a pandemia.

Para Gildo, mais pobre e mais infeliz, não tem outra opção senão revirar o descarte da comunidade em busca do necessário para colocar comida na mesa. E depois de um dia inteiro de trabalho, a única alternativa de Gildo é tomar um "comprimido, deitar e esperar a dor passar".

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