No contra-ataque ao furto de metais, CET-Rio troca sinais de trânsito por rotatórias

Sinais luminosos de dois cruzamentos estão no topo do ranking dos que sofreram mais “apagões” provocados por furtos de metais. Cabos e controladores precisaram ser repostos 12 vezes este ano nas esquinas das ruas São Januário e Teixeira Júnior, no bairro Vasco da Gama, e da Avenida Pastor Martin Luther King com Rua Álvaro de Miranda, em Pilares, na Zona Norte do Rio. Em algumas áreas, o sumiço dos equipamentos da CET-Rio acontece com tanta frequência que a companhia optou por uma solução radical: eliminar os semáforos e instalar uma rotatória. A primeira experiência é na Estrada Adhemar Bebiano, nas imediações do número 4.800, em Inhaúma.

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— Se um sinal é apagado por causa de roubo, mais do que prejuízo há o risco para pedestres e motoristas. Quando levam um cabo ou um trilho da SuperVia, o trem para de rodar. No nosso caso, as pessoas correm risco de vida — ressalta Joaquim Dinis, presidente da CET-Rio, que anuncia o próximo cruzamento a ter os sinais substituídos por rotatória: o da Avenida Itaoca com Rua Amaro Hamati, também em Inhaúma.

‘É preciso ir ao atacado’

De acordo com levantamento da companhia, de janeiro ao fim de outubro deste ano, das 2.600 interseções e travessias de pedestres do Rio, 444 ficaram às escuras após a ação de assaltantes, 164 delas mais de uma vez. Dinis explica que o crime começou a crescer no auge da pandemia, com a cidade mais vazia, e de lá para cá não parou:

— Acreditamos que os ferros-velhos sejam os receptadores desse material. O que se tenta é pedir às polícias Civil e Militar que busquem identificar a rota do material furtado e cheguem ao receptador. Não temos como fazer uma fiscalização da cidade a noite inteira, que é o pior período. É preciso chegar ao receptador, ir ao atacado. No varejo, está muito difícil de conseguir acompanhar.

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Desde ontem, O GLOBO vem mostrando o caminho do metal furtado e as consequências da ação dos ladrões. Morador do bairro Vasco da Gama há 63 anos, o contador aposentado Ozair Cardoso, de 83, tem sido testemunha do problema na esquina de São Januário com Teixeira Júnior:

— Os motoristas já não respeitam com sinal, imagina quando ficamos sem ele? Já vi muito acidente aqui. Sem falar que a gente não consegue atravessar.

Gerente de um bar na esquina da Álvaro de Miranda com Pastor Martin Luther King, Antônio Ribeiro também cita os constantes acidentes no local:

— Essa rua é de mão dupla e perigosa. Sem sinal, batidas de carros e atropelamentos são inevitáveis.

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Enquanto a companhia busca alternativas para se contrapôr aos vândalos, nem sempre a ideia dá os resultados esperados. Pelo menos na Estrada Adhemar Bebiano, diz Ricardo Campos, que administra um quiosque em frente ao local

— Antes, era muito acidente. Agora, todo o dia tem briga. Ninguém respeita ninguém. Vale a lei do mais rápido.

A esquina da Avenida Professor Manoel de Abreu com Rua Eurico Rabelo, no Maracanã, precisou ter os equipamentos da CET-Rio substituídos 11 vezes este ano. Já o encontro das ruas Teodoro da Silva e Pereira Nunes e a travessia de pedestre da Rua São Francisco Xavier em frente aos números 935 e 866 ficaram apagados dez vezes.

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A Grande Tijuca (inclui bairros como Maracanã, Grajaú e Vila Isabel) e a Grande Méier (inclui Abolição, Pilares e São Francisco Xavier, entre outros) são as áreas onde ocorrem mais furtos de material da CET-Rio, que teve que gastar este ano até agora R$ 3,7 milhões com reposição e soluções para tentar coibir os roubos.

— Outras medidas que estamos adotando para dificultar os furtos têm sido lacrar, concretar as tampas de caixas de visitas, onde ficam nossos fios, e subir os nossos controladores o máximo possível. Estamos colocando controladores até em braços de sinais. Isso é muito ruim. As caixas de visitas são feitas para se ter rápido acesso em caso de algum problema. No caso dos controladores, se colocamos num braço de sinal ou no alto de um poste precisamos de um caminhão-torre para acessá-lo — diz Dinis.

Para quem controla as câmeras da cidade, o chefe-executivo do Centro de Operações Rio (COR), Alexandre Cardeman, ter iluminação pública é fundamental:

— Ainda não estão roubando câmeras, mas sem luz não conseguimos monitorar o trânsito. Quase sempre que tem jogo no Maracanã, levam luminárias em volta do estádio.

Viagens interrompidas

Do trânsito para o transporte sob trilhos, o saque de metais deixou a pé milhares de passageiros que utilizam os trens no Rio e em outros 11 municípios da Região Metropolitana. Dados da Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos de Transporte (Agetransp) revelam que, no primeiro semestre deste ano, 3.908 viagens foram interrompidas ou suprimidas nos oito ramais da SuperVia por problemas relacionados à segurança pública. Outras 1.711 partidas sofreram atrasos.

Ao todo, as supressões, interrupções e falta de pontualidade foram causadas, segundo a Agetransp, por 750 ocorrências, que envolvem essas 5.619 viagens (por vezes uma ocorrência afeta duas ou mais viagens). O levantamento aponta que 87% dos registros (653) foram motivados pelo furto de cabos. Os outros 97 foram decorrentes de vandalismo, tiroteios e manifestações.

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Os números da agência revelam ainda que os registros de furtos de metais que afetaram o funcionamento da rede aumentaram 1.232% se comparados os primeiros seis meses deste ano (653 ocorrências) com os de 2021 (49).

Os passageiros que mais tiveram partidas canceladas ou viagens interrompidas (1.283), no primeiro semestre deste ano, foram o que utilizam o ramal de Santa Cruz. Em segundo lugar, aparece o ramal de Gramacho (986) e em terceiro, o de Japeri (786).

O professor Rodrigo Abreu usa os ramais de Japeri e de Gramacho para se deslocar até os locais onde leciona. Ele sofre constantemente com os atrasos e interrupções de circulação dos trens, quase sempre qualificados pela concessionária como tendo sido causados pelo furto de cabos:

— O problema é frequente. Já tive que chegar com 40 minutos de atraso para dar aula em uma das escolas que leciono. Qualquer problema que ocorre dizem que foi por conta do furto de cabos. O serviço é péssimo.

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Procurada, a Polícia Militar, responsável pelo patrulhamento de estações e da malha ferroviária da SuperVia, disse que a corporação montou um grupo de trabalho com operadoras de telecomunicações, órgãos públicos e concessionárias para unir esforços contra furtos e roubos de fios e equipamentos. Segundo a PM, em 2022, o Grupamento de Policiamento Ferroviário recuperou 602 metros de cabos de sinalização e 307 metros de cabos de aterramento da concessionária que opera o sistema ferroviário.

A Light é mais uma concessionária a colocar na ponta do lápis os danos causados pelos furtos. Só em 2022, o crime afetou quase 30 mil pessoas, que ficaram, em média, 14h horas sem energia

São Cristóvão e Tijuca lideram em quantidade os furtos de cabos da Light desde 2018. Recreio e, de novo, São Cristóvão foram os bairros que mais ficaram sem energia nesse período. A parte da manhã (6h às 12h) é a que registra mais ocorrências, seguido da noite (19 às 5h).

A Light contabiliza mais de 60 quilômetros furtados de sua rede subterrânea em três anos, prejudicando 65 mil clientes. Para combater os furtos, a empresa informa que, foram investidos R$ 1,8 milhões em tampas antifurtos.

Edifícios como alvo

Não é só o patrimônio público que vem sendo alvo de bandidos a caça de metal. Os furtos também têm provocado estragos e prejuízos a condomínios e comerciantes com lojas na beira da rua. Em Copacabana, três edifícios colados estão entre as vítimas este ano: os de número 637 e 643, da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, e o 147 da Rua Figueiredo Magalhães. No edifício Jatobá, com 80 anos, no 643, foram duas investidas: na primeira, levaram números e letras do prédio, em bronze; na segunda, a maçaneta, também antiga, do lado de fora da porta.

— Depois dos furtos, colocamos grade. Pintamos as letras e números e a maçaneta vamos colocar de um material barato conta a zeladora do Jatobá. Perdemos peças que eram da fundação. É triste — lamenta Marluce dos Santos, zeladora do prédio. — Chegamos a entregar vídeos para a polícia. No primeiro furto, nossa câmera filmou, e aparece o ladrão. Ele chegou a ser preso, mas já tinha vendido as peças. Soubemos que foi solto e que era viciado em crack.

Em nota, a Polícia Civil informa que “o inquérito foi relatado pela 12ª DP (Copacabana), com o indiciamento do autor do fato, e encaminhado à Justiça”. O órgão reitera que “as leis são brandas para esses criminosos por considerar que não há violência e os mesmos respondem em liberdade, o que causa reincidência nesse tipo de delito”.

Do vizinho Edifício Tavares, no 637 da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, furtaram todas as letras e números.

— Era por volta de 2h da madrugada. Não tinha vigia. Desci, mas eles já estavam correndo. Só não estão roubando o céu porque não alcançam — comenta o porteiro João Batista Resende.

O Condomínio São Martinho, da Figueiredo Magalhães, também perdeu números e letras. Já no Edifício Marluza, de 1956, na Barata Ribeiro 673, levaram os dois corrimãos da escada de acesso à portaria.

— Eles eram bonitos, de metal dourado. O roubo foi de madrugada, há uns cinco meses. O prédio substituiu por um material mais barato. Assim não roubam — conta o porteiro Douglas Monteiro.

Mais adiante na Barata Ribeiro, no 458 C, a lojista Maristela Dutra, do Point das Essências, registrou três furtos na polícia, entre março e agosto.

— Primeiro levaram a porta de alumínio, que dá para a rua, com quase três metros de altura, onde ficam as instalações de água e de gás. Furtaram também o bico da entrada da água. Voltaram depois e levaram o beiral da porta. Na terceira vez, tiraram os números. Ainda tentaram arrombar a porta de ferro automática da entrada da loja, forçando com um pé de cabra para tentar abrir as canaletas, mas o alarme disparou e eles saíram. Vivemos meses de terror. Eram três homens e uma mulher, e dois dos homens cometiam delitos sozinhos também. Encontrava o grupo pela rua de dia, andando com um saco preto, como se fossem catadores. À noite, roubavam. A gente reconhecia pelas imagens da câmera. Recentemente, não temos visto. Não sei se foram presos ou se migraram para outro lugar.

Maristela contabiliza os prejuízos: R$ 5.300.

— Coloquei uma parede de alvenaria com um pequeno portão de ferro chumbado nela para substituir a peça de alumínio. Tive que contratar pedreiro e comprar o material, além da bica de água — revela ela, acrescentando que o condomínio onde mora, na Pompeo Loureiro, também foi vítima do furto de bicas de água.

Nem cano de gás escapa

Na Tijuca, uma queixa citada nas redes sociais é de furto de canos de gás de condomínios. Na página Alerta Tijucano, uma mulher chama a atenção para o problema: "Depois do ladrão que escalas prédios na Tijuca, agora temos o que rouba canos de gás. Uma amiga que mora em um prédio de dois andares está sem gás porque por duas noites entraram no prédio e roubaram os canos por onde passam o gás". Desde julho, a Naturgy (operadora de gás) registrou 187 ocorrências desse tipo na cidade.

Outra integrante do grupo Alerta Tijuca conta que, no seu prédio, há um mês meliantes pularam e roubaram a tubulação de gás. "Fizemos boletim de ocorrência, e a Naturgy disse que o custo é do cliente", acrescenta.

No bairro vizinho, na Rua dos Artistas, em Vila Isabel, o professor de geografia Daniel Coelho chegou em casa, há pouco mais de dez dias, e levou um susto:

— Estávamos fora há quatro meses, porque o edifício estava em obras. Quando chegamos, minha esposa e eu, fomos ligar o gás, e veio um cheiro horrível. Chamamos a Naturgy para lacrar o gás. E descobrimos que tinham roubado nosso cano, de cobre, que passava pela lateral do prédio. Fiquei assustado. Poderia ter acontecido algo grave. Moro no sexto andar. Roubaram metros de cabo de cobre do meu apartamento.

O professor optou por substituir o cano metal por material antifurto, o PEX (polietileno reticulado).