No Dia da Consciência Negra, a atriz Heslaine Vieira fala sobre racismo e o crescimento de seu personagem em 'Nos tempos do imperador': 'Muito importante existir uma princesa negra na TV'

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A atriz Heslaine Vieira, de 26 anos, lembra com admiração da infância na cidade mineira de Ipatinga, onde cresceu entre mulheres fortes. Também ri ao recordar de quando, ainda pequena, durante a aula de teatro da escola, argumentou por que não havia uma Chapeuzinho Vermelho preta. A atriz aprendeu desde sempre que é preciso ser potente e corajosa para superar os obstáculos da vida. E seus posicionamentos firmes surtiram efeito: já naquele tempo, levou o papel principal da peça infantil e mergulhou em sua primeira protagonista. Hoje, quase 20 anos depois, faz outra personagem de destaque: a princesa e vilã Zayla na novela “Nos tempos do imperador”. “Sempre fui questionadora”, diz. Esse jeito somado a uma pitada de poder de convencimento fez com que a garota conseguisse mudar a família toda para Curicica, pertinho do Projac, para investir na carreira de atriz e ser escalada para algum trabalho na televisão. “Eu tinha 10 anos. Meus pais, que são zeladores, estavam com um dinheiro guardado e pudemos nos aventurar. Mas eles sempre avisavam que se não desse certo, todos voltaríamos”, recorda.

Heslaine nunca mais voltou. Só de férias. No ano seguinte, passou no teste para o seriado “Filhos do carnaval”, da HBO, e a vida foi andando. Seu rosto ficou mais conhecido quando foi uma das protagonistas de “Malhação: viva a diferença”. O sucesso foi tanto que se desdobrou na série “As five”, com nova temporada programada para o ano que vem no Globoplay. “Nada foi fácil. Fomos muito até a porta do Projac e, aos poucos, entendi que não existia tanto espaço para crianças pretas. Nos testes, 90% dos jovens eram brancos, faziam aula de piano e praticavam hipismo. E eu nem sabia o que era hipismo. Mesmo nova, entendi que havia um problema estrutural gigantesco e que eu precisaria ser duas vezes melhor para ter a mesma oportunidade”, conta.

O cabelo, que hoje considera uma de suas potências, já foi motivo de insegurança. Aos 15, Heslaine começou a alisar para se enquadrar em padrões. No entanto, dois anos depois já iniciou a transição para voltar aos cabelos naturais. “Comecei a fazer tranças e penteados. Hoje, quando não estou bem, a primeira coisa que faço é mudar o cabelo. Me dá uma força. Uso aplique, pinto de louro, cabelo para mim é identidade”, comenta ela. Assim que voltou aos cachos originais, a atriz foi convidada para o seriado “Pedro e Bianca” (2012), de Cao Hamburger, em que interpretava a protagonista. “Foi uma virada”, lembra.

Agora, vive mais um ponto alto da carreira, com Zayla, a princesa negra da novela, que terminou de ser gravada na semana passada. “Foi uma personagem muito difícil. E adoro isso. Estudei muito: o momento histórico em que ela vivia e me compreendi um pouco mais com isso. Me sentia no quintal da casa da minha avó no cenário da Pequena África. Acho muito importante e representativo existir uma princesa negra na TV”, comenta ela. Zayla, aliás, foi ganhando mais espaço na trama depois que ela teve de ser reescrita pela autora Thereza Falcão por fazer alusão ao “racismo reverso”. “Situações que antes passavam sem serem questionadas, hoje são motivo de reflexão e apontamentos. É importante vermos os avanços nos debates, mesmo sabendo que existe uma árdua e extensa caminhada pela frente”, comenta Heslaine sobre a repercussão.

Estimulada pela profissão da personagem, uma costureira e modelista, Heslaine está mergulhada nos estudos de moda. Busca entender as referências, os comportamentos, os símbolos por trás de uma modelagem. No futuro, quer ter uma marca. “Quero saber me vestir de um jeito com que eu realmente me identifique, que tenha a ver com minha ancestralidade. Assim me posiciono melhor para ocupar os espaços. A moda atravessa o tempo e é um universo em que precisamos entrar”, afirma. “Meu sonho é assistir a um grande desfile de alta costura. Estou estudando a Versace agora.”

Outro desejo, ela conta, é interpretar uma mocinha apaixonada, um romance black, escrito de uma forma linda. “Quero ver as referências de amor e de afeto com uma mulher preta. Mas com todos os conflitos para a história acontecer”, finaliza.

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