No dia em que se celebram os 110 anos de Maria Bonita, revisitamos a trajetória da cangaceira

Melina Dalboni
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Ela era linda, usava trajes exuberantes e fazia tudo por amor. Infeliz com o marido mulherengo e infiel, refugiou-se na casa dos pais, de onde saía, com certa frequência, para dançar forró. Ao dar de ombros para convenções sociais, conheceu um rei, um herói, e o acompanhou até morrer tragicamente ao seu lado. Elementos clássicos de grandes personagens femininas da literatura e do cinema fizeram de Maria Bonita, a Rainha do Cangaço, um mito. Sua figura é de tal maneira misteriosa que até mesmo a data de seu nascimento foi construída, como um causo, por poetas populares e memorialistas. Nesta segunda-feira, 8 de março, Dia Internacional da Mulher, comemoram-se os 110 anos da primeira mulher cangaceira do Brasil.

O que pouca gente sabe, no entanto, é que Maria Gomes de Oliveira foi registrada em 17 de janeiro de 1910, conforme descobriu o sociólogo Voldi Ribeiro em 2011. Os mistérios e o fascínio em torno de sua trajetória apenas começam aí. Autora de “Maria Bonita — Sexo, violência e mulheres no cangaço” (2018, Objetiva), a jornalista Adriana Negreiros foi desconstruindo visões românticas em torno da biografada para contar a história da Rainha do Cangaço não como uma ficção, mas como um ato político, dando voz às mulheres. “Maria Bonita não era feminista. Era transgressora”, afirma. “Estou certa de que houve muitas mulheres como ela, mas o fato de precisarmos nos esforçar para nomeá-las é sintomático: passamos a vida ouvindo narrativas protagonizadas por homens, nas quais as mulheres são um mero acessório. Temos sido sistematicamente ignoradas em nossas trajetórias”, diz Adriana.

As lendas em torno do amor de Maria Bonita e Lampião se perpetuaram em meados da década de 1930 a ponto de um trecho do relatório do interventor Agamenon Magalhães sobre a operação que culminou na morte do Rei e da Rainha do Cangaço decretar: “É pecado contra a pátria endeusar Maria Bonita”. Apesar de terem tentado silenciá-la durante toda a vida (e até mesmo após a morte), Maria foi sujeito das ações que compuseram seu “destino”, transgredindo tanto os códigos sociais e opressores do sertão da primeira metade do século passado quanto as rígidas leis do cangaço. Para se ter uma ideia, até sua chegada ao bando de Lampião, era proibida a presença feminina. “Agamenon reflete a opinião da época. Cangaceiras eram chamadas de bandoleiras, megeras e amantes, eram descritas como masculinizadas, belicosas e objetos de satisfação sexual”, observa a historiadora Mary Del Priore.

Segundo a a pesquisadora Vera Ferreira, neta de Maria Bonita, sua avó se tornou admiradora de Lampião e ele lhe pediu para bordar 15 lenços. Os acessórios saíram melhores que a encomenda, os dois começaram a namorar e o Rei do Cangaço, mudando sua palavra — algo pelo qual tinha enorme respeito — autorizou a permanência da moça no bando.

Hoje, são muitos os admiradores da cangaceira, e por diferentes motivos. Estilistas como Isabela Capeto se encantam pela figura feminina e pela estética do cangaço (com o bordado colorido, o cáqui do couro cru, os tons de branco “sujos”). “Como os trajes dos cangaceiros, minha roupa não passa despercebida, seja pela cor ou pelos materiais e bordados. Eles tinham nas roupas a proteção, como uso nas coleções, com patuás e medalhinhas”, diz Isabela. Ariano Suassuna, fã de Lampião, tinha “admiração maior ainda por Maria Bonita”. Ela era “a mulher que se apaixonou por um homem que achava ser a figura de um rei e, por causa desse amor, morreu de maneira trágica”, contava o escritor em algumas de suas aulas.

Até muito pouco tempo, as mulheres eram retratadas como um ornamento a serviço de seus companheiros. Pesquisadores comparavam a vida conjugal dos cangaceiros a uma relação de propriedade — algo semelhante ao que se reproduzia na sociedade patriarcal dos anos 1920 e 1930 no Brasil. Uma visão parcial e romantizada sempre apresentou a vida de Maria Bonita e das cangaceiras repleta de joias preciosas, trajes e acessórios ricamente bordados, punhais de prata, artesanato e muita aventura. Chegaram a afirmar que Maria Bonita andava com as mãos abertas como leques, tamanha a quantidade de anéis que lhe impediam de fechar os dedos. De fato, as cangaceiras enriqueceram a chamada estética do cangaço, com alegorias reforçadas a partir do artesanato e do bordado. Foi Dadá, a companheira de Corisco, outro homem importante do bando de Lampião, quem criou o bordado de flores e cruzes de Malta que encantaram o Rei do Cangaço e passaram a decorar seus bornais (bolsas a tiracolo onde carregavam pertences).

Considerados os mais raros registros da intimidade de Lampião e Maria Bonita, as fotografias e filmes de Benjamin Abrahão, ex-assistente de Padre Cícero que captou imagens entre 1936 e 1937 para um documentário, reafirmam este lugar restrito à estética e à vaidade. O filme, que fora censurado na Era Vargas e teve uma pequena parte restaurada pela Cinemateca Brasileira, tem apenas uma cena em que Maria Bonita é a protagonista. Ela aparece com um vestido branco com detalhes bordados colocando, um a um, seus colares de ouro, carregados por um cangaceiro. Em seguida, surge toda ornamentada com seu bornal, em que carregava itens pessoais como maquiagem e perfume, e, depois, volta como coadjuvante ajeitando cuidadosamente o cabelo de Lampião. “Os cuidados com o corpo, o cabelo, a postura e a beleza das joias e dos trajes se evidenciam em retratos posados, como se as cangaceiras estivessem em estúdios urbanos”, destaca Mary Del Priore.

Por ser a mulher do capitão, ela tinha certa autonomia e privilégio, o que causava ciúmes e inveja entre outras mulheres do bando. Para Dadá, a Rainha do Cangaço era “abusada, ranzinza, orgulhosa, metida a besta e barulhenta”. Poucas mulheres tiveram a chance de contar sua história. A parceira de Corisco foi fundamental nessa reconstrução porque deu muitos depoimentos até sua morte, em 1994. Durante os dois anos de pesquisa para o livro, Adriana se deparou com o silêncio ou a descrença reservados às mulheres da primeira metade do século XX.

“Tive dificuldades para encontrar informações confiáveis sobre Maria de Déa, como era chamada pela família. De uma forma geral, nas histórias contadas sobre o cangaço, e sobre qualquer outro tema, o foco estava nos homens. Sobre as mulheres, escrevia-se pouco. Quando muito, comentava-se a respeito da aparência ou da força que deram em algum grande feito protagonizado por um homem”, conta Adriana, que é paulistana e cresceu ouvindo as histórias contadas com fascínio e terror por sua avó materna, nortista, sobre a invasão de Lampião e seu bando a Mossoró.

Sem duvidar dos vestígios e relatos das cangaceiras, a autora revelou um universo feminino de submissão, violência sexual e sentenças de morte a mulheres infiéis. Dadá foi estuprada e sequestrada aos 12 anos por Corisco. Abdon, um soldado da polícia alagoana teria arrancado não a cabeça, como era comum, mas a vulva de uma bandoleira. E, segundo a lenda, passara a carregá-la como troféu na bolsa. Já Maria Felismina teve o rosto marcado com ferro de boi por Zé Baiano. Para serem punidas com tamanha violência, bastava que as mulheres usassem cabelo curto, vestido acima do joelho ou algo igualmente banal. A partir deste olhar para a violência, Adriana traçou seu relato e trouxe inovação importante ao tema.

Segundo sua pesquisa, a Rainha do Cangaço não sofreu violência por parte de seu companheiro — a não ser a maior delas: ter sido obrigada a dar sua única filha, Expedita, assim que a menina nasceu. Sem métodos contraceptivos, as mulheres do bando engravidavam, pariam e tinham de dar seus filhos nos primeiros dias de vida. Crianças não eram admitidas porque o choro poderia chamar atenção e colocar o grupo em perigo. Como conta no documentário “Feminino Cangaço”, dirigido por Lucas Viana e Manoel Neto, Dadá costumava aconselhar as novatas: “Isso é uma vida miserável. Dormir no molhado, andar no espinho, correndo, tomando tiro (...) Arruína a sua família”. “Enquanto algumas ingressavam nos bandos voluntariamente, outras foram coagidas e privadas de convívio familiar. Se algumas tinham o sonho de viver em liberdade, a realidade era distinta”, registra Mary Del Priore.

A construção da figura lendária de Maria Bonita, assim como a de grandes mitos do século XX, começou no dia de sua morte, em julho de 1938, por um motivo. Até sua degola, ela era chamada de Maria de Déa ou Maria do Capitão. O nome pelo qual é conhecida até hoje, quase um século depois de seu assassinato, teria sido dado pelo chefe da tropa que a matou. Num telegrama a seu superior para comunicar o feito heroico de ter dado fim à vida de Lampião e mais 10 cangaceiros, o tenente João Bezerra registrou o apelido que transformaria Maria Gomes de Oliveira em lenda: “(...) o tiroteio resultou na morte de nove bandidos e duas bandidas, inclusive Lampião e Maria Bonita”.

Uma outra versão alega que jornalistas do Rio de Janeiro já a apelidavam assim antes de sua morte, numa referência ao romance homônimo de Afrânio Peixoto, adaptado para o cinema e bastante popular na época. Assim como um mantra repetido diversas vezes, um nome tem seu peso. Não há dúvidas de que, além da imagem e da morte trágica, a alcunha tenha contribuído para a construção do mito em torno da Rainha do Cangaço. Sua beleza passa a ser narrada com tamanha frequência que o laudo do Instituto Médico Legal descreve que seus “traços fisionômicos não pareciam desmentir o apelido que lhe deram”.

“Maria Bonita nasceu com a morte de Maria de Déa. Em vida, ela nunca foi chamada daquela maneira”, diz Adriana sobre uma rainha tão imortal quanto sua beleza.