No dia de Santo Antônio, fiéis estão mais interessados em pedir fartura do que casamento

Solteira aos 35 anos, a advogada Fabíola Santos, moradora em Copacabana, na Zona Sul, não descarta um “empurrãozinho” de Santo Antônio para conseguir um pretendente. Mas ela não tem pressa. Sua prioridade agora é outra: quer fartura e prosperidade, pois na sua opinião, não há amor que resista à barriga vazia. No dia do santo que tem fama de casamenteiro, o pedido de um companheiro ou companheira para subir ao saltar foi deixado em segundo plano por boa parte dos fiéis, que compareceram nesta segunda-feira ao convento no Largo da Carioca, no Centro, a ponto de os coraçõezinhos de chocolate distribuídos gratuitamente por Fátima Rodrigues, aos que desejavam se casar, fazer menos sucesso do que a barraquinha de distribuição, também de graça, dos pãezinhos que são símbolo de mesa farta.

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— Depois de dois anos de pandemia, o casamento pode esperar. No momento o que eu quero mesmo é fartura, até porque não há amor que resista à barriga vazia. O pedido de casamento não está fora de cogitação. Se o santo puder dar uma mãozinha até agradeço, mas minha prioridade no momento é saúde e fartura — pediu Fabíola.

Reza a tradição que nada vai faltar na mesa de quem guardar o pãozinho bento numa lata de mantimentos. Mas muitos preferem comê-lo. Os freis do convento dizem que isso também não está errado e acrescentam que se a pessoa dividir com outra vai estar partilhando não só um alimento, mas também a benção. Numa outra barraquinha eram vendidas a R$ 5 fatias de bolo, também bentos, que representavam igualmente fartura, além do desejo de saúde e prosperidade. Segundo a tradição, encontrar uma das 800 medalhinhas numa das 2.400 fatias significa a certeza de que o pedido foi acolhido.

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— O noivo eu já tenho. Vamos nos casar em agosto. Agora o que eu preciso é de fartura e prosperidade — disse a assistente de Recursos Humanos, Mônica Almeida, de 30 anos, que preferiu guardar sua fatia para comer em casa.

Fátima que se autointitulava “noiva de Santo Antônio” chamava a atenção por estar com um vestido e véu brancos. A moça levava em uma cesta cerca de mil corações feitos de chocolate embrulhados em um papel vermelho, metade do que costumava distribuir em anos anteriores. Mas, embora não estivesse atraindo muitos interessados, argumentava que a redução era efeito da pandemia e não do desinteresse por casamentos, por parte dos fiéis. Já na fila de distribuição dos pães da fartura, a fila não parava de crescer.

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— Pela situação que o país enfrenta, com tudo difícil e caro creio que as pessoas estejam em buscam de atendimento para suas necessidades mais urgentes. Sem contar que falta muita compreensão do verdadeiro significado do casamento — analisa o Frei Jefferson Danilo, um dos responsáveis pela distribuição dos cerca de 20 mil pães, frutos de doação dos fiéis.

A festa de Santo Antônio voltou a atrair uma multidão ao convento do Largo da Carioca, depois de dois anos de suspensão por conta da pandemia, com programação de seis missas ao longo do dia, entre as 6h e 18h. A expectativa dos organizadores era de que entre 20 mil e 30 mil pessoas passassem pelo local.

— Depois de dois anos de igreja fechada, por conta da pandemia, as pessoas estão voltando com a fé renovada e esperança de que a vida retorne ao normal —disse o frei Róger Brunorio.

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O frei explicou que a tradição da distribuição dos pãezinhos de Santo Antônio tem origem na passagem bíblica da multiplicação dos pães por Jesus. Além de casamenteiro, Santo Antônio também é considerado o “padroeiro dos humildes”, por distribuir alimentos aos menos favorecidos. É ainda protetor das coisas perdidas.

— A face de casamenteiro é apenas uma delas; As pessoas vêm aqui pedir saúde, dinheiro e fartura. Tudo depende muito do momento econômico que estamos vivendo — afirmou o frei.

Amarecilda Rangel Alves, de 62 anos, moradora em São Cristóvão contou que vai guardar o pãozinho numa lata de mantimentos. Ela quer que Santo Antônio a ajude a resolver uma pendência com o INSS. Ela contou que depois de ter sido atropelada perto da Central do Brasil, há cerca de quatro anos, não pôde mais trabalhar como catadora de reciclados e hoje vive com ajuda de um benefício do governo, no valor de R$ 400.

— A Previdência já recusou o meu pedido de benefício três vezes — alegou.

Há 30 anos, Maria Sônia Rodegheri, de 71 anos, sai de Olaria para acompanhar os festejos de Santo Antônio no Centro. Só quebrou essa tradição, retomada nesta segunda-feira, no auge da pandemia.

— Todo ano eu coloco o pãozinho no pote de açúcar, para adoçar a minha vida e pedir proteção, saúde e para nada me faltar. Casamento já tive um e não quero outro. Também acho que Santo Antônio não está dando ouvido a esse tipo de pedido porque as pessoas não estão levando os relacionamentos a sério — acredita.

O camelô Thiago Sodré,de 26 anos, que estava acompanhado da filha Thalita, de 4, disse que comeria os dois pães que pegou para ele e a menina. A mãe já tinha garantido os que vão para a lata de mantimentos .

—Vim pedir saúde e que não falte trabalho.

A história

O 13 de junho, dia de Santo Antônio é uma data importante para o catolicismo brasileiro. Muito popular no Brasil e em Portugal, o santo é cercado de simpatias e tradições, sendo conhecido como o “santo casamenteiro”.

Além de ser mundialmente conhecido por interceder por quem quer encontrar o amor da vida ou para resolver conflitos com a pessoa amada, é também o padroeiro dos pobres e ajuda as pessoas a encontrarem objetos perdidos.

Seu nome de bastimo era Fernando Antônio de Bulhões, nascido na cidade de Lisboa, em Portugal, no dia 15 de agosto de 1195. Aos 19 anos, foi contra a vontade de seu pai ao entrar para o Mosteiro de São Vicente dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho

Em 13 de junho de 1230, com 36 anos, morre em Pádua, na Itália, motivo pelo qual ele passou a ser conhecido como Santo Antônio de Pádua, além de Santo Antônio de Lisboa, graças a sua cidade de origem.

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