No Egito com Lula, Haddad cresce como cotado para a Fazenda

Presidente eleito Lula e ex-prefeito Fernando Haddad em São Paulo

Por Lisandra Paraguassu

BRASÍLIA (Reuters) - As várias horas entre São Paulo e o Egito e os quatro dias da viagem ao lado de Luiz Inácio Lula da Silva poderão ajudar na resposta a uma das perguntas mais constantes desde a eleição: quem será o seu ministro da Fazenda, com o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad sendo visto como favorito do presidente eleito no momento, de acordo com três fontes ouvidas pela Reuters, que frisam que a decisão não está tomada.

"Não foi por acaso a insistência de Lula para que Haddad fosse nessa viagem", disse uma dessas fontes, próxima de Lula e do ex-prefeito. "O caminho que está se desenhando é esse."

Não há expectativa de anúncio do nome de ministros durante a COP27 ou mesmo logo após o retorno de Lula. O ex-presidente eleito tem mandado avisar que só pretende divulgar os primeiros nomes no início de dezembro. Ainda assim, as fontes ouvidas pela Reuters apontam que a conversa no caminho para o Egito poderá definir do papel que Haddad ocupará no próximo governo de Lula --além da Fazenda, o petista tem sido mencionado, com menor força, para o Ministério das Relações Exteriores.

Haddad foi o único dos nomes cotados para a Fazenda a ser convidado por Lula para acompanhá-lo a COP, e o único político não diretamente ligado ao meio ambiente na comitiva, em uma viagem que veio da insistência direta do presidente eleito. A Aloizio Mercadante, um dos coordenadores da transição, que planejava fazer a viagem, Lula pediu que ficasse no Brasil.

O nome de Haddad tem desde sempre circulado entre cotados para a Fazenda, mesmo quando sua eleição para o governo de São Paulo ainda era viável. Recentemente, começaram a surgir apostas também para o Ministério das Relações Exteriores (MRE). Fontes próximas ao ex-prefeito afirmam que sim, existe a possibilidade para os dois cargos. Mas, hoje, é o Ministério da Fazenda que está maior no horizonte.

Advogado, mas com mestrado em economia e doutorado em filosofia, Haddad é atualmente um dos nomes do PT mais próximos a Lula, uma relação que se fortaleceu durante a campanha de 2018. Antes de ser o vice em uma chapa em que Lula estava na prisão --e depois o próprio candidato, quando a candidatura do atual presidente eleito não foi aceita pelo Tribunal Superior Eleitoral-- Haddad foi o coordenador do programa de governo de Lula e seu prometido ministro da Fazenda.

Nesses quatro anos, a proximidade do ex-prefeito com Lula se aprofundou, assim como o seu envolvimento em questões econômicas. É de Haddad, por exemplo, uma das ideias que estavam sendo analisadas pelo PT para substituir o teto de gastos. Nela, se prevê uma regra de reajuste do limite das despesas pelo IPCA e por um outro indicador, ainda não definido, mas que abriria espaço para um crescimento real das despesas.

Também é da lavra do ex-prefeito, junto com o economista Gabriel Galípolo, a ideia de uma moeda digital e um banco central sul-americano, mencionada por Lula em de seus discursos.

Até hoje, Lula não deu indicações de quem será seu ministro da Fazenda para além de uma descrição do que quer para o cargo: um político, que entende de economia e de gestão, mas seja capaz de negociar com o Congresso. E, mesmo que o presidente eleito não fale abertamente, está claro que a decisão exige alguém que seja de sua inteira confiança.

"EXCESSIVAMENTE CONVICTO"

Dos críticos à possível escolha de Haddad vem a desconfiança da habilidade de negociar politicamente. Considerado "excessivamente convicto" das suas ideias, o ex-prefeito é apontado por seus detratores como alguém difícil de ceder em negociações.

"Não é o que Lula vê. O que ele vê é um cara que conseguiu negociar uma aliança com Geraldo Alckmin e trouxe para o apoio a sua candidatura diversos nomes que estavam afastados, como Marina Silva", diz uma das fontes.

Do mercado financeiro também vem alguma resistência ao ex-prefeito, como em geral a nomes que venham do próprio PT. Mas, de acordo com outra das fontes ouvidas pela Reuters, isso vem sendo trabalhado por pessoas próximas de Haddad.

Duas das fontes ouvidas pela Reuters, no entanto, não descartam que o ex-prefeito possa ser indicado para o Itamaraty, apesar da tendência dos governos petistas, até hoje, de reservarem o cargo para diplomatas de carreira. Chanceler dos dois governos de Lula, o embaixador Celso Amorim não deve voltar a ocupar o cargo.