'No lugar onde indígenas acham até micos, o Brasil não sabe encontrar dois homens', diz Ailton Krenak

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Aconteceu na última quinta-feira (9). Enquanto o escritor Ailton Krenak, uma das principais lideranças indígenas do país, realizava uma palestra para cerca de 200 pessoas na Feira do Livro, em São Paulo, um homem vestido com verde e amarelo dos pés à cabeça se destacou na plateia. "Quero saber como a gente faz para tirar o ouro das terras dos índios, pois o Brasil precisa desse minério para progredir", vociferou o sujeito, repetidamente. Krenak solicitou que um microfone fosse entregue ao senhor, e a frase de antes foi refeita aos berros. Ao que o palestrante retrucou, com calma: "Para essa proposta, a única resposta que tenho é a seguinte: não". O restante da plateia o apoiou e gritou, em coro: "Fora, garimpo!". Foi então que o homem saiu correndo, "parecendo o Forrest Gump", como brinca Krenak.

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— A coisa está virulenta. Não se sabe mais de onde pode sair um ataque — lamenta o líder indígena. — Mas a gente vai superar esse momento. Não dá para nos desencorajarmos. Precisamos não cultivar a mentira e não nos associarmos a versões fajutas da realidade. Estamos globalmente ficando burros.

Diante do horror e da tristeza com o recente desaparecimento de dois colegas — o indigenista Bruno Araújo Pereira, da Fundação Nacional do Índio (Funai), e o jornalista inglês Dom Phillips, colaborador do jornal The Guardian, que trabalhavam no Vale do Javari, alvo da ação ilegal de garimpeiros, pescadores e madeireiros na Amazônia —, Krenak faz questão de agir como "uma criança que desvela a realidade para os adultos". É assim, ele frisa, que se mostra como o crime, a desordem e a mentira estão tomando conta do cotidiano das pessoas.

O autor do best-seller "Ideias para adiar o fim do mundo" acredita que Bruno e Dom tenham sido vítimas, infelizmente, de uma tragédia que corrói, há décadas, os povos e a floresta na Amazônia. Para Krenak, a destruição vem sendo estruturada pelo próprio Estado brasileiro. Desde que foi construída a usina de Belo Monte, há pouco mais de dez anos — algo que ele considera a segunda grande investida contra aquela região após a criação da rodovia Transamazônica, na década de 1970 —, o líder indígena denuncia a violência de ações "modernizadoras" empreendidas por corporações internacionais.

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— Sei que lá vem de novo a mesma narrativa triste e medonha do assassinato de Marielle Franco. É uma dor e uma vergonha ver o nosso país se transformar num lugar tão miserável onde a vida não vale nada — afirma Krenak. — Num local onde o povo indígena consegue achar até um miquinho ou uma arara-canindé, o Brasil não sabe encontrar dois homens adultos que foram desaparecidos num trecho de floresta que é tão conhecido e em que pescadores e todo mundo andam por lá, e que agora está sendo controlado por traficantes. Estamos num país que não dá garantia de vida aos cidadãos.

Krenak ressalta que áreas de preservação ambiental na Amazônia, as maiores no mundo, são diariamente invadidas. Os mais de cem milhões de hectares de floresta estão sendo capturados ilegalmente pelo mercado de madeira, água e minério, incluindo o ouro.

Ativo no combate aos invasores do Vale do Javari, região com a maior concentração de povos isolados do planeta, Bruno Araújo Pereira vinha recebendo ameaças constantes por parte de pescadores que praticam de maneira ilegal a retirada diária de toneladas de peixe pirarucu e tracajás, espécie de cágado muito cobiçado nos rios da Amazônia. Semanas antes de desaparecer, Dom Phillips — que é casado com a brasileira Alessandra Sampaio, amiga de longa data de Krenak — esteve na aldeia Apiwtxa para conhecer a cultura do povo indígena Ashaninka e entender como as comunidades se organizavam contra invasores e garimpeiros.

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Nesta semana, em meio às buscas de Bruno e Dom, Jair Bolsonaro foi aos EUA para um encontro com o presidente Joe Biden. O brasileiro afirmou, na ocasião, que "muitas vezes nos sentimos ameaçados em nossa soberania nessa região (a Amazônia), mas o fato é que o Brasil preserva muito bem o seu território". Antes disso, em maio, Bolsonaro recebeu no país o bilionário Elon Musk, dono empresa americana Tesla, que apresentou um projeto com o objetivo de "mostrar a Amazônia para o mundo" por meio de imagens geradas por satélites:

— A Amazônia está sendo devorada, e o Brasil entrou no rodo com uma disposição voluntária de ser usado e abusado. Quando os sujeitos do governo falam em preocupação acerca da soberania, eles ocultam a má intenção de entregar todo esse território e virar as costas para a morte de ianomâmis, a violência contra o corpo de crianças indígenas, o ataque contra lideranças e defensores dos que estão sendo assassinados semanalmente...

Krenak reforça que o "governo escolheu atuar contra a sociedade". Segundo ele, na aldeia onde vive, em Minas Gerais, por exemplo, a população depende de água proveniente de caminhões-pipa desde que o rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana, "matou" o rio Doce. Há sete anos eles vivem assim. "A gente reclama com quem? Com o bispo, com um pasto evangélico?", ele se manifesta.

— O mundo financeiro e global não quer mais o cidadão. Ele quer o consumidor. Quem chefia países não são mais governos. São gerentes — diz. — Esse contexto vai continuar produzindo desgraças cada vez piores. A violência foi incorporada como um modo de governar o mundo. Estragar a água dos rios, destruir a floresta e esmagar as pessoas na sua diferença cultural não é bom para ninguém. A gente tem que denunciar a fúria progressista que quer englobar o ecossistema amazônico no pacote financeiro global. Vemos agora o último assalto a uma região do mundo com muita riqueza. É como se estivessem descobrindo de novo a América.

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