No metrô de Kharkiv, dois meses de terror para evitar as bombas

·3 min de leitura
A luta amarga transformou a cidade de Kharkiv em um emaranhado de lojas explodidas e blocos de apartamentos em chamas, e forçou famílias a se esconderem no metrô (AFP/SERGEY BOBOK) (SERGEY BOBOK)

Desde 24 de fevereiro, Elena Ivanovna foge da guerra. Há quase dois meses, com a mãe e três filhos, se protege das bombas no metrô de Kharkiv, no leste da Ucrânia.

Uma vida "assustadora, difícil, mas continuamos com esperança", diz, rezando pelo fim da guerra e para que os soldados russos deixem o país.

Na noite da invasão, sua família dormia tranquilamente no vilarejo ucraniano de Lyptsi, a apenas 10 km da fronteira com a Rússia.

"Acordamos às 4h30 da manhã (...), até as crianças acordaram. Perceberam que era uma guerra", relata à AFP.

O violento rolo compressor russo seguia em direção a Kharkiv, a segunda maior cidade da Ucrânia, 20 km mais ao sul.

"Não foi como um trovão. A casa inteira tremia", conta.

Elena, seu marido e seus filhos, de 8, 10 e 17 anos, rapidamente se vestiram, juntaram algumas roupas, documentos e correm para o porão da casa para se proteger.

"Quando tudo ficou em silêncio, corremos para o carro e a 170 km/h seguimos para Kharkiv", diz.

"Durante a viagem, meu marido disse 'olhe ao redor, os mísseis' porque eles estavam caindo de todos os lugares, com um barulho estridente de bombardeio" lembra essa professora de 40 anos.

Em Kharkiv, eles se encontram com a mãe de Elena. Mas a cidade, que tem 1,5 milhão de habitantes, também estava sob as bombas.

Os russos tentavam tomá-la, mas a resistência do exército ucraniano os repelia.

Mais uma vez, a família se refugiou em um porão, onde permaneceu por seis dias.

"Pensamos que aqui (em Kharkiv) estaríamos a salvos, mas aqui se tornou a linha de frente, com bombardeios de helicópteros e aviões. Então decidimos vir para o metrô", como centenas de habitantes.

- 700 pessoas -

Dois meses depois, cerca de 700 pessoas ainda vivem em várias estações de metrô de Kharkiv.

Embora a cidade não seja bombardeada massivamente, é atacada por granadas e foguetes, aleatoriamente, espaçados, a qualquer hora do dia e da noite.

No metrô, "na primeira semana dormíamos uns sobre os outros, não havia ajuda humanitária, ninguém entendia o que estava acontecendo", explica Yulia, uma das inúmeras voluntárias mobilizadas para ajudar os deslocados.

Na manhã de sexta-feira, véspera da Páscoa ortodoxa, os voluntários organizaram uma distribuição de "paska", um pequeno brioche tradicional.

Na plataforma da estação, cada família, cada refugiado, recriou um símile de intimidade apesar da ausência de separação física.

Sobre um colchão, uma filha de Elena ganhou um grande castelo de princesa e montou cada uma das peças, muito concentrada.

"Temos ajuda humanitária. Os voluntários nos trazem comida três vezes ao dia, incluindo pratos quentes, doces para as crianças, brinquedos, lápis", explica a mãe da menina.

Durante um mês, as crianças puderam até estudar, já que os voluntários ministram cursos presenciais ou online, com vídeos.

Também são organizadas atividades para todas as idades: teatro, música, marionetes,exercícios físicos.

Para os mais novos "há pintura, jogos, para que as crianças se sintam melhor mental e fisicamente", diz Elena.

Mas ninguém sai psicologicamente ileso. "Agora, quando ouvem (as bombas) acordam, tremem e pedem remédio", acrescenta.

Para ela, "a vitória virá quando todos os soldados russos partirem (da Ucrânia), quando não ouvirmos mais os mísseis, quando não houver mais foguetes".

epe/rbj/clr/me/mb/mr

Nosso objetivo é criar um lugar seguro e atraente onde usuários possam se conectar uns com os outros baseados em interesses e paixões. Para melhorar a experiência de participantes da comunidade, estamos suspendendo temporariamente os comentários de artigos