No mundo todo, janelas viram símbolo de esperança e união para enfrentar coronavírus

Bolívar Torres

RIO — Enquanto portas se fecham e ruas se esvaziam para conter o avanço do coronavírus, janelas de todo o mundo abrem-se para fazer contato. Começou na Itália, com pessoas cantando nas sacadas, e crianças pendurando no parapeito desenhos para lembrar: “Tutto andrà bene!” (Tudo ficará bem!). Logo, vieram os aplausos aos profissionais de saúde saindo das ventanas espanholas. E iniciativas das mais variadas correram o planeta, casa por casa: de serenatas a aplausos, de acenos solidários a protestos políticos, como se viu no Brasil nos últimos dias. Em tempos de quarentena, a janela virou a nova rua.

Tradicionalmente representada como espaço de contemplação, ela ganha novos significados. No famoso poema “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, era o lugar em que o poeta pensava sobre seu fracasso enquanto tinha em si “todos os sonhos do mundo”. Agora, mais do que um ponto de reflexão individual, a janela pode ser uma metáfora da esperança coletiva.

Em quarentena desde o início da semana, o filósofo Adauto Novaes, organizador do tradicional ciclo de conferências “Mutações”, lembra a prosa poética de Charles Baudelaire no livro “O spleen de Paris”, quando o autor francês escreve: “Aquele que olha de fora através de uma janela aberta jamais vê tantas coisas do que aquele que olha uma janela fechada. Não existe objeto mais profundo, mais misterioso, mais fecundo (...) que uma janela iluminada por uma chama...”

— Da mesma forma, há hoje (nessa interação social pelas janelas) uma flama contra o individualismo da sociedade — diz Novaes. — Vivemos, sim, uma mutação dos valores dominados pelos bens monetários. Esperamos que outros valores possam surgir a partir dessa crise. Mas não sei se é delírio de quem está confinado.