No país, investigações sobre vacinação clandestina, roubo de doses e fraudes

Eugenia LOGIURATTO
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Médica cuida de paciente com covid-19 em Hospital em Belém, no Pará

Vacinações clandestinas, vendas fraudulentas, roubos à mão armada: multiplicam-se no país, epicentro da pandemia no mundo, denúncias sobre tentativas de obtenção ilegal da vacina anticovid, enquanto a campanha de imunização nacional avança lentamente.

A Polícia Federal (PF) informou nesta sexta-feira que apura denúncias de que um grupo de políticos e empresários mineiros importou e tomou ilegalmente doses da vacina Pfizer.

A operação tem como objetivo apurar "suposta importação e, por conseguinte, administração irregular de vacinas que teria ocorrido em Belo Horizonte/MG, especificamente em uma garagem de empresa do segmento de transporte rodoviário de passageiros", informou a PF em nota.

Segundo a revista Piauí, que revelou o caso, o grupo seria formado por cerca de cinquenta pessoas, entre políticos, empresários do setor de transportes e seus familiares, que teriam recebido uma primeira dose na última terça-feira e planejavam receber a segunda trinta dias depois, no valor de R$ 600 por pessoa.

"A Pfizer nega qualquer venda ou distribuição de sua vacina contra a COVID-19 no Brasil fora do âmbito do Programa Nacional de Imunização", informou o laboratório em nota enviada à AFP, na qual garante que sua vacina "ainda não está disponível em território brasileiro".

O Congresso autorizou a importação de vacinas pela iniciativa privada, mas até que o governo imunize os grupos prioritários (cerca de 77 milhões de pessoas), todas as doses importadas devem ser doadas ao Ministério da Saúde.

Uma vez que os grupos de risco estejam vacinados, as empresas ainda devem ceder metade de suas compras ao poder público.

O governo Bolsonaro anunciou recentemente a compra para este ano de 100 milhões de doses da Pfizer, já aprovadas pela Anvisa, órgão regulador de saúde no país.

O Brasil começará a receber as primeiras doses da vacina a partir de abril. Enquanto isso, a campanha de vacinação avança lentamente com as doses da vacina chinesa CoronaVac e da sueco-britânica AstraZeneca.

Até o momento, cerca de 6% dos 212 milhões de brasileiros receberam a primeira dose e apenas 2% já estão totalmente imunizados.

- Roubos de doses à mão armada -

A busca ávida por vacinas também se viu presente em pelo menos dois assaltos à mão armada nesta semana.

Em Natal, homens armados com metralhadoras ameaçaram enfermeiras em um posto de saúde na segunda-feira e levaram 20 doses da CoronaVac.

Dias depois, uma cena semelhante foi registrada em São Paulo, onde os agressores conseguiram uma centena de vacinas.

A Polícia Federal também investiga um grupo "suspeito de oferecer fraudulentamente, ao Ministério da Saúde, 200 milhões de doses de vacinas contra a COVID-19, em nome de um grande consórcio farmacêutico".

O Brasil, que nesta semana ultrapassou a marca de 300 mil mortos pela pandemia, vive uma segunda onda que está causando o colapso de hospitais em várias regiões do país.

Na quinta-feira, o país registrou um recorde de mais de 100.000 novos casos e 2.700 mortes.

O Brasil enfrenta longos atrasos na importação de imunizantes e insumos.

Segundo analistas, isso se explica em grande parte pela atitude do governo e do presidente Bolsonaro, que durante meses plantou dúvidas sobre a eficácia e a segurança das vacinas, chegando a dizer que as pessoas poderiam se transformar em "jacaré" após receberem o imunizante.

O presidente se opôs especialmente à compra da CoronaVac, por ser associada ao instituto do Butantan, no estado de São Paulo, governado por seu adversário político, João Doria.

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