No pior momento da pandemia, cemitérios de SP se preparam para fazer enterros noturnos

DHIEGO MAIA
·4 minuto de leitura

GONÇALVES, MG (FOLHAPRESS) - Última peça na montagem do quebra-cabeça da crise causada pela pandemia, os cemitérios paulistanos estão sob altíssima pressão. As 22 necrópoles debaixo do guarda-chuva da gestão Bruno Covas (PSDB) já estão sendo preparadas para realizar sepultamentos noite adentro. Os cemitérios também têm acelerado as exumações. Caso do Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte, que vai exumar 1.056 restos mortais para liberar uma quadra inteira para novos enterros. A necessidade de criar um terceiro turno nos cemitérios vem batendo à porta de Covas desde a última terça-feira (16), quando a cidade atingiu a marca de 336 sepultamentos num único dia. O número, que já era recorde, foi superado nesta quinta (18), com 337 enterros, em grande medida puxados pelo pior momento da pandemia de Covid-19. Esse valor é 40% maior do que a média histórica de sepultamentos realizados por dia no verão e 12% superior no inverno, segundo o serviço funerário da prefeitura. A capital paulista responde por 30% de todas as mortes causadas pelo coronavírus no estado de São Paulo desde o início da pandemia, com 20.236 dos 66.798 óbitos. E essa fatia da tragédia não deve parar de crescer, já que os óbitos estão em aceleração, com morte até causada por falta de leito de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), um sinal claro do colapso do sistema de saúde. A reportagem esteve no começo deste mês na unidade 1 do Vila Formosa, cemitério que continua absorvendo a maior fatia dos enterros da metrópole. Uma cena, que marcou a primeira onda da pandemia, voltou com força por lá: congestionamentos de carros funerários. Numa quadra de terra, uma equipe de sepultadores faziam um enterro atrás do outro -grande parte de vítimas da Covid-19. E, na quadra seguinte, outros funcionários faziam exumações de restos mortais para ampliar a capacidade de enterramento. Localizado na zona leste e considerado o maior espaço de enterros da América Latina, o Vila Formosa e os cemitérios de São Luiz, Vila Nova Cachoeirinha, Dom Bosco e São Pedro compõem a lista dos mais demandados na pandemia. As cinco unidades fizeram, em média, 91 sepultamentos diários nos dois primeiros meses deste ano. No mesmo período do ano passado, a média era de 69 sepultamentos por dia. Por isso, a medida de criar um turno noturno se avizinha. E para colocá-la em prática, a própria gestão Covas estabeleceu uma marca: a partir de 400 enterros ao dia. Hoje, os corpos têm sido enterrados até as 18h. Após esse horário, são levados pelas funerárias para câmaras refrigeradas e só são sepultados no dia seguinte. Mas o número recorde de terça acendeu o alerta para o serviço funerário agir e não deixar o colapso tornar o final do processo de quem perdeu a vida para o coronavírus ainda mais triste. A maior dificuldade para realizar sepultamentos à noite é a falta de iluminação durante o processo, que precisa ser feito com atenção para não afetar covas já ocupadas, por exemplo. Luz em abundância é o principal insumo na execução do serviço e é por ela que a prefeitura contratou a empresa Era Técnica, que fornecerá oito torres de iluminação pelo prazo de 60 dias, ratificados a cada 30. Os equipamentos são móveis e vão iluminar os terrenos por onde as equipes de sepultadores farão a abertura de covas e os enterros durante a noite. A contratação se deu de forma imediata e dispensou licitação. Segundo o serviço funerário, a aquisição dos equipamentos não significa que os sepultamentos passarão a ser realizados a partir de agora também no período noturno. "Trata-se de uma medida de prevenção para auxiliar o serviço em casos de sepultamentos agendados para o dia que, porventura, ultrapassem o horário de funcionamento normal das unidades", diz a autarquia. Inicialmente, duas das oito torres serão disponibilizadas para o cemitério de Vila Formosa. Para João Batista Gomes, o representante dos sepultadores no sindicato dos servidores municipais, a principal preocupação é com o reforço de equipe. "Mais gente e também garantia de dignidade para esse tipo de serviço realizado em horário atípico", diz. O serviço funerário diz que além dos 173 sepultadores efetivos ativos e dos 150 terceirizados contratados na pandemia, mais 35 trabalhadores reforçarão as equipes na próxima semana. "Esse número é nada diante da demanda", rebate Gomes. Quem vai gerir, daqui para frente, os desdobramentos da crise no setor funerário paulistano será Pedro Henrique Dias Barbieri. "A nomeação será formalizada por meio de publicação em DO [Diário Oficial] nos próximos dias", disse, por nota, a prefeitura. Barbieri deixou a chefia de gabinete da autarquia e virou superintendente do serviço no lugar de Dário José Barreto, nomeado por Covas para assumir a subprefeitura de Santana/Tucuruvi. Reportagem do jornal Folha de S.Paulo, de 2018, mostrou que Barbieri entrou no serviço público paulistano por ter sido colega da turma de faculdade do braço direito de Covas, Gustavo Garcia Pires. Barbieri integra os quadros da prefeitura desde 2017 e, de lá para cá, já recebeu promoções e aumentos salariais. É um militante do PSDB, partido de Covas.