No Porto, Instituto Pretos Novos reabre ao público, que poderá acompanhar escavações arqueológicas

Fechado na pandemia, o museu do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos (IPN), na Gamboa, reabre nesta quinta-feira ao público com uma exposição que traça um percurso desde a história das civilizações africanas escravizadas no Brasil até as tentativas de apagamento dessa memória. Além da mostra, os visitantes terão a chance de acompanhar de perto as escavações arqueológicas que voltaram a acontecer no local: o endereço está localizado sobre o sítio arqueológico do Cemitério dos Pretos Novos Novos, descoberto por acaso em 1996 durante obras de manutenção do casarão. Nessa área, entre 1772 a 1830, foram enterrados cerca de 60 mil negros mortos após a entrada dos navios negreiros na Baía de Guanabara ou após o desembarque no Rio.

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Para quem quer conhecer ou saber mais da Pequena África, o instituto também promove visitas guiadas pela região os sábados. A participação precisa ser agendada antes. Curador da exposição permanente do Museu Memorial Pretos Novos, Marco Antonio Teobaldo diz que as escavações são como "janelas para feridas abertas na sociedade". No local, foram sepultados, principalmente, jovens e crianças, que não resistiram a violências e maus tratos na captura e na travessia do Atlântico. Essa realidade é tratada na mostra, sem deixar de fazer uma conexão com o presente.

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- Nessa exposição, contamos a história desse lugar não a partir da escravidão, mas das diversas civilizações africanas que aqui chegaram e suas contribuições. Além disso, tratamos da escravidão com foco no Rio de Janeiro e depois abordamos o Cemitério dos Pretos Novos, com dados históricos e informações de pesquisas. Mostramos o que foi a atrocidade da escravidão sem passar pano - diz Teobaldo, completando. - Por fim, a gente entra na questão arqueológica, da descoberta desse sítio, que representa uma mudança na nossa visão da escravidão no Brasil.

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O curador ressalta que o cemitério, oficial, e que está localizado numa pequena área que abrange quatro terrenos, funcionou no auge da escravidão no país. Os corpos eram empilhados e depois incinerados:

- Há uma conexão muito direta desses jovens enterrados aqui com o genocídio da população negra nas comunidades hoje. Não tem como desconectar uma realidade da outra - afirma ele.

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As escavações ocorrem numa área onde funcionará depois o laboratório que irá estudar o que for encontrado por uma equipe de arqueologia do Museu Nacional, sob a liderança da professora Andrea Lessa. O último trabalho de campo ali foi há cinco anos.

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-Nessa nova etapa da pesquisa, será escavada uma área diferente do cemitério, mais central. Assim, será possível verificar se as informações inicialmente obtidas sobre a dinâmica de ocupação são válidas para todo o espaço. E, ao mesmo tempo esperamos encontrar um número maior de estruturas funerárias intactas, fundamental para ampliarmos o entendimento sobre as práticas funerárias e indivíduos ali enterrados - explica a professora.

O IPN é uma ONG fundada em 13 de maio de 2005 pela família Guimarães Anjos, proprietária da residência e responsável pela descoberta e preservação da memória do cemitério. Funciona de segunda a sexta das 12h às 18h, e aos sábados das 10h às 13h, na Rua Pedro Ernesto 32, Gamboa, próximo ao VLT da Praça da Harmonia. A entrada é gratuita, e visitas ao museu e passeios pelo Circuito Histórico de Herança Africana podem ser agendados através do site pretosnovos.com.br.

O espaço conta com café e uma biblioteca que reúne 1.200 títulos. Além da exposição permanente, há uma exibição do artista Geleia da Rocinha na galeria de arte contemporânea. E, no dia 12 de julho, o escritor e jornalista Laurentino Gomes lança lá o terceiro volume de "Escravidão".

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