No primeiro dia útil de restrição no transporte, medo e desinformação provocam aglomerações

Diego Amorim, Letícia Lopes e Marcos Nunes
Bloqueio da PM na estação do metrô da Pavuna gera filas enormes

RIO - A falta de informações e o medo de ser descontado e até mesmo demitido do trabalho marcaram o primeiro dia útil de restrições no transporte no Estado do Rio, medida tomada para conter o avanço do coronavírus. Na manhã desta segunda-feira, a entrada das estações de trem, metrô e barca foi cercada por muita gente sem saber ao certo quem podia ou não embarcar nos modais, e gerou aglomerações. A capital está isolada e ônibus intermunicipais não podem acessar a região. Os acessos aos transportes acabaram.

Em estações de trem na Baixada Fluminense, havia filas quilométricas. A entrada só era permitida para quem trabalha na Saúde e outros setores considerados essenciais, com a apresentação de documentos comprovando a atividade. A espera até os pontos de triagem foi longa, com pessoas muito próximas umas das outras. E depois de tanto tempo, muitos saíam desolados por não terem conseguido embarcar em direção ao trabalho.

Foi o caso do pedreiro Marcos Vinícius Caramuru da Silva, de 35 anos. Barrado na estação de Nova Iguaçu depois de uma espera de uma hora, ele se desesperou pelo medo de perder o emprego:

— Saí de casa às 4h e cheguei aqui às 4h30 para tentar pegar o trem e ir ao meu trabalho, no Centro do Rio. Vim enfrentar tudo porque tenho quatro filhos e contas para pagar. Não posso ficar desempregado. Quando chegou a minha vez de passar, disseram que eu não poderia entrar porque não fazia parte do grupo de profissionais essenciais — contou o morador do bairro Figueira.

O medo das dívidas e de perder o emprego foi o motivo de Antônio Miranda, de 40 anos, também tentar embarcar em Nova Iguaçu. Como Marcos, ficou barrado. André pegaria o trem até o Centro do Rio e de lá seguiria para Niterói, na Região Metropolitana, onde trabalha.

— Tenho uma filha (de 5 anos) para criar e contas para pagar. Queria poder ter ficado em casa, mas tenho que ir trabalhar. Todo mundo tem medo de ficar desempregado e comigo não é diferente. Até gravei a triagem com o celular para mostrar para meu chefe — disse ele.

Queixas de falta de informação na Pavuna

Na estação do metrô da Pavuna, na Zona Norte do Rio, muitos passageiros que estavam na fila para tentar embarcar se queixaram de falta de informação. Um homem, que não quis se identificar, alegou que não sabia do bloqueio no local - ponto terminal da linha 2:

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— Sou prestador de serviços numa operadora de telefonia, no Centro do Rio. Meu patrão não liberou a gente. Como vou chegar no horário? De ônibus, levo o dobro do tempo, às vezes mais.

Além dele, outras pessoas na fila reclamaram da mesma coisa. Uma delas era o técnico administrativo Flávio Silva, de 35 anos, que trabalha numa clínica médica.

— Cheguei com a minha mulher e não sabia se iríamos conseguir embarcar, se minha profissão seria considerada como essencial ou não. Não sou um profissional direto da saúde, mas atuo na área. Falta clareza nas profissões que estão incluídas na lista — queixou-se.

Mulher com tosse é barrada na barca

Na estação Arariboia, no Centro de Niterói, uma mulher com tosse foi barrada. Com a boca e o nariz protegidos por uma toalha de mão, ela alegava ter uma declaração por escrito de seu patrão — um médico da Polícia Militar para quem trabalha como babá — para que pegasse uma barca. Foi impedida.

— Não sabemos o que a senhora tem. Como vamos liberar seu acesso? — disse um dos PM que estavam na triagem.

Outros usavam o celular para filmar o momento em que eram impedidos de seguir viagem para enviar como prova para os patrões. Um funcionário da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) fez isso.

— Minha função não é essencial, mas meu chefe pediu que eu tentasse — disse ele, que não quis se identificar.