No Recife, esquerda se divide: Túlio Gadêlha aprofunda crise no PDT e PCdoB racha

Bruno Góes
·5 minuto de leitura
Vinícius Loures/Câmara dos Deputados

BRASÍLIA — A disputa pela prefeitura do Recife continua a provocar desentendimentos entre partidos de esquerda, com acusações de práticas espúrias por ambos os lados. Nos últimos dias, dissidências de PDT e PCdoB, legendas que apoiam João Campos (PSB), reforçaram a campanha de Marília Arraes (PT). Já o candidato do PSB investe no antipetismo para conquistar eleitores de direita e centro-direita.

Vetado em setembro pela direção nacional do PDT para concorrer à eleição, o deputado federal Túlio Gadêlha apoiou Marília Arraes no domingo e foi desmentido pelo próprio chefe de gabinete sobre a existência de uma tentativa de "negociar" o seu "silêncio" no segundo turno. Ao GLOBO, no entanto, Gadêlha afirmou que a proposta seria de Fabio Fiorenzano, marido da vice na chapa de João Campos, Isabella de Roldão (PDT). Ela e Fiorenzano são do mesmo partido de Gadêlha. O correligionário nega "veementemente" a acusação.

Além disso, o PCdoB ficou dividido com a declaração de apoio do deputado estadual e ex-prefeito da capital pernambucana João Paulo à candidatura do PT. Os comunistas integram oficialmente a coligação de João Campos. A presidente do PCdoB, por sua vez, é vice-governadora de Pernambuco, eleita em chapa com Paulo Câmara (PSB).

Nas redes sociais, Túlio Gadêlha disse que o seu chefe de gabinete foi procurado pela "coordenação da campanha do PSB". Segundo ele, a candidatura de João Campos queria "negociar" para que ele não se manifestasse. "Dá pra acreditar?! Me senti testemunha de um crime. Crime mesmo foi o que eles fizeram nesses últimos anos no Recife", escreveu o deputado no Twitter.

Chefe de gabinete do parlamentar, Rafael Bezerra negou o ocorrido na mesma rede social. "Ainda que os elementos da comunicação estejam suscetíveis a ruídos, afirmar algo que nunca aconteceu fere o que poderia se considerar contornável mesmo dentro do que conhecemos como 'jogo político'".

O funcionário também anunciou a demissão do gabinete. Confrontado com a versão do ex-assessor, o parlamentar rebateu:

— Estávamos em uma reunião com seis assessores, e o próprio falou que foi procurado pelo Fabio Fiorenzano, marido da candidata a vice. Achei curioso o fato de ele falar que não foi, já que isso foi um dos tópicos da reunião. Depois que publiquei (no Twitter), o Rafael me ligou preocupado com a exposição, mas eu não tinha dado o nome, não tinha exposto. Disse que não havia problema ter escrito. Ainda não tinha me manifestado publicamente, mas agora estou dando o nome aos bois — disse Túlio Gadêlha ao GLOBO.

Ao GLOBO, o marido de Isabella de Roldão afirma que conversou sobre as possibilidades de apoio de Túlio no segundo turno com todos os colegas de PDT, já que tratava-se de um fato político. Ele negou, porém, ter feito qualquer sugestão indecorosa.

- De jeito nenhum. Primeiro ponto, eu não sou do PSB. Sou do PDT, não participo de coordenação de campanha do PSB em nada. Sou marido de Isabella. Por isso, talvez, ele queira me atingir. Isabella é a vice do PDT em Recife e eu sou correligionário dele. Ele foi presidente municipal do PDT e eu sou vice. Segundo ponto: o próprio chefe de gabinete negou isso. Então, não tenho o que dizer mais. Vindo de mim esse tipo de proposta? - questionou.

De olho numa dobradinha entre PDT e PSB em 2022, Ciro Gomes esteve no Recife no domingo para pedir votos a João Campos e gravar mensagens para a propaganda eleitoral na TV. Em lado oposto da disputa, Gadêlha afirma que recebeu ligações da presidente do PT, Gleisi Hoffmann, e do PSOL, Juliano Medeiros, com manifestações de solidariedade pelas críticas internas que está enfrentando, mas avisou que não gostaria de sair do PDT.

— Avaliamos que temos que conseguir congregar forças de esquerda, como em São Paulo, com o (Guilherme) Boulos, que teve apoio de Ciro e Lula, ou como no Ceará. Aqui no Recife vemos que já há vícios de longas administrações, práticas de quando se está há muito tempo com a máquina. Esperamos que haja uma alternância de poder. Isso é importante neste momento — diz Gadêlha.

Em palanque de João Campos no domingo, o presidente do PDT, Carlos Lupi, não citou Gadêlha, mas mandou um recado direto

— Quem do PDT não estiver na chapa não tem o que fazer no PDT. No nosso PDT não tem espaço para traíra. O nosso compromisso é de honra, não é de vaidade.

No domingo, o ex-prefeito João Paulo, do PCdoB, criticou a campanha de João Campos e decidiu manifestar apoio ao PT - seu antigo partido. "Considero deploráveis os ataques ao PT — partido do qual participei desde sua fundação e que ajudei a construir por muitos anos. Sinto-me na obrigação de repudiar esse tipo de atitude política, que não constrói, não fortalece a disputa democrática em nosso estado e enfraquece as forças do campo progressista".

Ainda no domingo, o candidato do PSB teve uma derrota na Justiça Eleitoral. A campanha teve que retirar peça de campanha que dizia que a petista era contra o programa ProUni municipal e contra a Bíblia. Nas redes sociais, João Campos nega aderir ao "baixo nível".

"Eu não autorizo, nem jamais autorizaria, qualquer tipo de ataque de baixo nível, com qualquer tipo de ofensa pessoal, contra quem quer que seja. Eu entrei na política para defender princípios e combater práticas condenáveis", disse o candidato.

Desde que a campanha do segundo turno começou, o PSB tenta associar o PT à corrupção, inclusive insinuando que "figurões" partido em São Paulo mandaria na cidade. Já Marília qualificou o primo como "frouxo", "duas caras", e sugeriu que, caso ele fosse eleito, seria tutelado pela sua mãe, Renata Campos.