No Reino Unido, crítica ao isolamento social não funcionou

Pedestre usando máscara anda em Londres com a London Eye ao fundo (Tolga Akmen/AFP via Getty Images)

RIO e LONDRES — Até a semana passada, o governo do Reino Unido, comandado pelo primeiro-ministro conservador Boris Johnson, conduzia uma aposta arriscada e que divergia da estratégia adotada pela maioria dos países da Europa contra o novo coronavírus. Baseada na premissa de que a população entraria em contato com o Sars-CoV-2 de qualquer maneira, a administração de Johnson, inicialmente crítica ao isolamento social, optou pela chamada imunização de rebanho: permitir a exposição da população para imunizá-la rapidamente.

Na última terça-feira, o presidente Jair Bolsonaro, em um pronunciamento em rede nacional, criticou duramente a proposta de isolamento social e defendeu medidas parciais, voltadas para idosos, que compõem o chamado grupo de risco. Bolsonaro também se mostrou contrário ao fechamento de escolas decretado em diferentes estados. Suspender o distanciamento social implicaria, na prática, na adesão ao modelo de imunização do rebanho.

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A forte pressão da opinião pública e evidências lançadas à luz pela comunidade científica mudaram o curso da estratégia britânica, que admitiu primeiramente o fechamento de escolas e comércios para, então, avançar na direção da quarentena nacional, determinada na última terça-feira.

Uma carta aberta assinada por 229 cientistas foi encaminhada a Downing Street, o endereço do premier britânico, pedindo que o governo tome medidas mais drásticas. Eles defendem que, quanto mais depressa se limitar o contato entre as pessoas, menor a velocidade da contaminação. Aimunidade do rebanho, ao contrário, prevê que 36 milhões de pessoas precisem ser infectadas e se recuperar da doença.

Outro episódio teve importância fundamental para a mudança de postura de Boris Johnson: um estudo do Imperial College de Londres, que previu meio mihão de mortos no país, ajudou a convencer o governo britânico da necessidade de impor medidas mais rigorosas para conter o avanço do novo coronavírus. Além das centenas de milhares de casos, o relatório projetou um serviço de saúde sobrecarregado por pacientes muito graves.

De acordo com o estudo do Imperial College de Londres, publicado após a entrevista coletiva do primeiro-ministro conservador Boris Johnson, na noite de segunda-feira, o número de vítimas fatais poderia passar de 500 mil — na ausência total de medidas. Johnson havia sido duramente criticado por sua estratégia diante da pandemia, que era de adiar a imposição de medidas estritas tomadas em outros países europeus.

Até o momento, o Reino Unido já registrou 422 mortes e 8.077 contágios. Uma modelagem do grupo de Ecologia Evolucionária de Doenças Infecciosas da Universidade de Oxford (Reino Unido), divulgado pelo jornal Finance Times, estima que o novo coronavírus já pode ter contagiado metade da população do Reino Unido - o equivalente a 33 milhões de pessoas. A coordenadora do estudo, Sunetra Gupta, defende a testagem urgente da população com modelos sorológicos, cujos resultados são mais rápidos do que os do tipo molecular.

O abismo entre os números oficiais e os teorizados pela modelagem se explicaria pela dinâmica do Sars-CoV-2 no território britânico. O vírus, segundo Sunetra, teria circulado por mais de um mês sem ser percebido até ser identificado nos primeiros casos da doença notificados. O modelo foi construído a partir de relatos epidemiológicos da Itália e do próprio Reino Unido. Caso os índices se confirmem, a imunização de rebanho já teria sido provocada, o que poderia abreviar a quarentena britânica.

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