No Reino Unido, vacina particular contra Covid só é esperada no fim da pandemia

ANA ESTELA DE SOUSA PINTO
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BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - No Reino Unido, primeiro país europeu a lançar uma campanha de vacinação em massa, autoridades de saúde afirmaram que não será possível pagar para se imunizar em clínicas particulares. A regra já é usada no calendário de vacinação infantil, no qual imunizantes estão disponíveis apenas na rede pública. "Posso dizer com clareza e confiança que não há planos para abastecer o setor privado no futuro previsível. Nenhuma chance", afirmou o gerente nacional da Pfizer no Reino Unido, Ben Osborn, em entrevista ao jornal Financial Times. A empresa diz que vai produzir apenas para o sistema público de saúde (NHS) e, segundo Osborn, é capaz de evitar desvios para o mercado negro --outra preocupação de laboratórios farmacêuticos. Segundo executivos ouvidos pela mídia britânica, uma corrida pela compra particular de vacina pode incentivar a falsificação. Como há escassez de insumos e gargalos na produção dos laboratórios, esse é um risco até mesmo se a venda particular for autorizada, e não só no mercado negro, dizem eles. Neil Haughton, presidente da Federação de Médicos Independentes, afirmou duvidar que a venda seja permitida ao menos até que o sistema público tenha completado a imunização dos nove grupos prioritários definidos pelo governo, que representam mais de 90% dos mais vulneráveis a complicações ou morte por Covid-19. Isso não deveria impedir, segundo ele, que a estrutura e a mão de obra treinada do setor privado pudessem ser utilizadas pelo serviço público em seus esforços de vacinação, para evitar gargalos e acelerar o processo. O programa do serviço público britânico prevê vacinar todos os que têm 50 anos ou mais, profissionais de saúde e assistência social e doentes com mais risco de desenvolver doença grave. O plano é dar a primeira dose do imunizante aos quatro primeiros grupos (os mais idosos, funcionários de asilos e profissionais da linha de frente de combate à doença) até meados de fevereiro. Segundo Haughton, o mais provável é que o produto chegue a clínicas particulares apenas daqui a "muitos meses", depois que cerca de 50% da população já tiver sido imunizada pelo NHS. Se a pandemia for controlada, argumenta, a vacina contra Covid-19 pode seguir o esquema usado no produto contra a gripe, em que pessoas saudáveis de até 50 anos não recebem a injeção gratuita no sistema público, mas podem optar por tomá-la na rede particular. O médico Mark Ali, dono de uma clínica privada em Londres, disse ao Financial Times que respeitará decisões do governo contra a vacinação paga, mas que discorda: "Minha opinião é que as pessoas deveriam ser capazes de exercer sua liberdade civil". O médico afirmou que recebe ligações todos os dias de clientes que querem ser vacinados. Na Dinamarca, entidades empresariais também sugeriram que o setor privado pudesse atuar na imunização contra a Covid-19, mas a autoridade de saúde afirmou à reportagem que vai manter sua campanha pública e gratuita. Outro país em que a discussão sobre a venda particular de vacinas esquentou foi a Austrália, cujo sistema de saúde já prevê que cidadãos com mais renda tenham seguro particular, para desonerar o setor público. O governo australiano assinou acordos de fornecimento com fabricantes de quatro vacinas (Pfizer, Oxford, Novavax e a desenvolvida pela Universidade de Queensland) e garantiu que todos poderão ser vacinados gratuitamente, obedecendo a uma lista de prioridades. O chefe da Administração de Produtos Terapêuticos (TGA), John Skerritt, declarou recentemente, porém, que os fabricantes seriam autorizados a vender vacinas de forma privada. "Vivemos em uma economia de mercado livre. Não há nada que impeça as empresas, desde que tenham a aprovação da TGA, de colocar as vacinas no mercado na Austrália", afirmou ele. A intenção foi criticada por especialistas em saúde pública como a professora da Universidade de Sydney Barbara Mintzes. Em artigo publicado no site de divulgação científica The Conversation (uma associação de acadêmicos australianos e britânicos), ela argumenta que a pandemia de Covid-19 não é uma situação normal, mas uma emergência global de saúde, que já deixou mais de 1,8 milhão de mortos no mundo. Mintzes segue a avaliação de entidades internacionais, como a OMS (Organização Mundial da Saúde) e a União Europeia, que defendem que, dado o caráter global da pandemia, as vacinas contra Covid-19 devem ser tratadas como um "bem público universal". "Permitir que as pessoas pulem a fila por meio do mercado privado é uma má ideia, por vários motivos", escreve ela. Segundo a professora, na lógica do mercado, os que terão mais incentivo para pagar por uma dose são justamente os que não estão nos grupos prioritários e, por isso, precisariam esperar mais para receber a vacina pelo sistema público. Além de beneficiar pessoas menos suscetíveis, o que teria pouco efeito do ponto de vista da saúde pública, o esquema também beneficiaria os muito mais ricos, já que o preço da vacina em clínicas privadas é mais alto que o custo para esquemas públicos, que se beneficiam da escala. Outro risco disso seria levar os fabricantes a priorizar vendas privadas. "Se as empresas reservarem uma parte de seu suprimento limitado para vendas privadas, as pessoas que mais precisam da vacina, como profissionais de saúde e idosos, podem ter que esperar mais", escreve a professora. De acordo com ela, outro problema é que planejamento e coordenação centralizado são fundamentais para a eficiência de uma imunização que precisa ser global, e a pulverização da distribuição e da aplicação por clínicas privadas criaria desafios extras tanto para a logística da vacinação pública quanto para o acompanhamento epidemiológico e clínico. A descentralização poderia atrasar ou impedir também a aplicação da segunda dose, considerada fundamental nos imunizantes já aprovados, pois pode provocar falta de produto nas datas necessárias. Mintzes também levanta riscos para os consumidores, já que fabricantes seriam estimulados a promover a venda de produtos não necessariamente recomendados para todos os pacientes. "As empresas farmacêuticas têm uma longa história de marketing intensivo para médicos. No caso da epidemia de opioides, por exemplo, essas práticas têm sido associadas a sérios danos aos pacientes", argumenta. Também seria difícil fiscalizar se a rede privada possui os equipamentos e a estrutura necessária para manter os imunizantes em boas condições. Vacinas como as da Pfizer e da Moderna, por exemplo, são especialmente delicadas, por exigirem ultracongelamento até dias antes da aplicação.