No Rio, moradores da Rocinha encenam hoje Via Sacra

Cristina Indio do Brasil - Repórter da Agência Brasill

Moradores da Rocinha, no Rio de Janeiro, participam hoje (14) de mais uma edição da Via Sacra, que há 25 anos é produzida pela Cia de Teatro Roça Caçacultura, composta por integrantes da própria comunidade. 

À frente do grupo, que se apresentará a partir das 20h, no Largo do Boiadeiro, na Rocinha, está Robson Melo. O artista começou na Via Sacra como ator, em 2000, já trabalhou na produção dos espetáculos e hoje estreia como diretor artístico. Mas a sua participação ultrapassa o cargo que ocupa agora.

“É para manter aquela chama que foi acesa em 1992. A Via Sacra representa um amor incondicional pela arte, pela Rocinha, pela favela, pelas nossas lutas sociais”, contou em entrevista à Agência Brasil.

Todos os anos as montagens destacam um tema social e nesta sexta-feira o texto inspirado no livro O homem de Nazaré – a Via Sacra de hoje, de José Maria Rodrigues, vai abordar o preconceito.

Mas o momento político do país não será esquecido na contextualização da paixão e morte de Jesus Cristo com temas importantes para a sociedade. Robson destacou que, na questão do preconceito, às vezes quem reclama acaba fazendo julgamento de outra pessoa e praticando a discriminação. Já na questão política ele apontou, que, atualmente, o julgamento está relacionado ao uso de cargos para proteção pessoal.

Em 2015, a Via Sacra da Rocinha foi reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio de Janeiro. Para os organizadores, o fato mostra a importância da encenação como um dos maiores espetáculos de teatro de rua do Brasil.

“Não é um espetáculo religioso. É um espetáculo de rua, em que a gente conta a história de Jesus Cristo como homem. Ele se torna santo depois, mas a gente pega a passagem dele como homem e a importância que teve como ser humano para a própria humanidade” disse o diretor.

Atraso na produção

Para o Robson Melo, participar da encenação é também uma oportunidade que os moradores têm de manter contato direto com o público e debater os temas com a própria comunidade. O diretor revelou que, ao longo dos anos, houve renovação no elenco formado por cerca de 60 pessoas. Umas saem e voltam, outras entram para o grupo, mas hoje a companhia enfrentou um problema sério que quase impediu a montagem comemorativa dos 25 anos.

Por causa da falta de patrocínio, a preparação artística atrasou e há poucos dias, com o apoio da Fundação Cesgranrio, uma instituição educacional, o grupo garantiu os equipamentos de som e de iluminação para o espetáculo.

Orgulho

Na visão do ator André Martins, que se interessou pelo teatro depois de ingressar na companhia, é um orgulho como morador poder participar da montagem em que representa Jesus.

“É importante a gente botar a Rocinha em uma outra vertente. Hoje você está fazendo uma matéria comigo sobre a comunidade, com uma outra pegada, que não é as pegadas que a gente está acostumado a ver sobre a comunidade nos jornais”, afirmou.

Até poder representar Jesus, o ator, que tem 30 anos, mas entrou para o grupo aos 13, pôde mostrar o seu trabalho em outros papeis. “Eu passei por vários outros personagens. Foi um processo até conseguir um dia ter a confiança do grupo para fazer Jesus. Me sinto realizado e feliz por ter esta possibilidade e responsabilidade de fazer este personagem”, revelou.

“O meu Jesus é favelado. É um morador da Rocinha, nasceu em uma favela. Ele traz todos os aspectos das pessoas que moram e nasceram na comunidade”, explicou.
Stella de Paula, casada com André, também é atriz e na montagem vai representar Maria mostrando o papel da mulher na sociedade atual que ainda é muito machista. Os dois sempre moraram na Rocinha.

“A gente mora em um lugar sem saneamento básico, onde há pessoas desempregadas, outras que passam por situações no seu cotidiano, do tipo vão de casa para o trabalho e do trabalho para casa e, quando chega na Rocinha, um trabalho como o nosso, de diversão e de entretenimento, é muito importante para a comunidade, porque é uma coisa que ela não tem”, finalizou.