No Rio, projeto garante renda a quem vende quentinhas e alimentação a moradores de rua

ANA LUIZA ALBUQUERQUE

RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS) - Horácio Dias Neto, 49, já foi dono de buffet, zelador, porteiro, taxista e motorista de aplicativo. Desde a chegada do novo coronavírus ao Brasil, as corridas despencaram e a saída foi assumir uma nova função: a venda de quentinhas de comida caseira a preços populares.

O negócio caminhava devagar até que Horácio conheceu a advogada Anna Beatriz Dodeles, 28, que teve a ideia de angariar doações para comprar as quentinhas do ex-motorista e distribuí-las a moradores de rua.

"Em tempos de Covid-19, temos inúmeras famílias sem uma renda mínima e ainda mais pessoas sem acesso a qualquer tipo de alimento. Com a doação de R$ 8,50, você ajuda dois ciclos da cadeia", divulgou a advogada nas redes sociais, no início do mês.

Desde então, já foram arrecadados mais de R$ 8.000 e distribuídas mais de 800 quentinhas em Ipanema e Copacabana, na zona sul do Rio. "Ninguém pensava que iria ficar muito tempo em isolamento social. As pessoas foram ficando sem dinheiro. Se não fosse a iniciativa da Anna Beatriz, eu não teria como pagar minhas contas", diz Horácio.

Anna tem entregado de 40 a 50 quentinhas por dia, de segunda a sábado. Tudo começou quando, numa ida ao mercado, cruzou com Horácio, que vende as quentinhas em Copacabana. Ele contou que o negócio ia mal e disse que poderia fazer quantas refeições ela precisasse para distribuir aos moradores de rua.

"Lancei na internet numa quinta-feira, para ver se iria dar certo. Para minha surpresa, até o domingo eu já tinha arrecadado R$ 4.000", afirma Anna.

Desde o dia 3 de abril, a advogada tem circulado de carro para entregar as quentinhas. "As pessoas estão com muita, muita fome, às vezes sem comer há dois dias. Como no domingo não distribuo, na segunda muitas vezes dizem 'nossa, a gente está morrendo de fome'", conta.

O problema maior, no entanto, é a escassez de água. "A água é o que mais faz falta. Não só para tomar, mas para a higiene. Comecei a pegar no meu prédio água filtrada para eles. Às vezes brigam mais pela água do que pela comida", diz.

Anna tem saído do carro para oferecer as refeições e costuma acordar os moradores de rua que estão dormindo. "Percebi que normalmente quem dorme é porque está com mais fome."

Ela conta que, nas últimas semanas, aumentou a aglomeração ao redor do veículo, que passou a ser reconhecido pelos moradores da região. "Às vezes distribuo de uma só leva 15 quentinhas. Mas eles se autorregulam quando forma um grupo grande. Outro dia um disse: 'Não encosta na moça por causa do vírus'."

Por precaução, Anna usa máscara e álcool em gel e coloca as roupas em um saco quando chega em casa. Ela afirma que seu maior medo não é ser infectada, mas transmitir o vírus para a população de rua.