No salto triplo, atleta de Burkina Faso se torna o primeiro medalhista olímpico da História do país

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Hugues Fabrice Zango é o primeiro medalhista da história de Burkina Faso (Foto: REUTERS/Clodagh Kilcoyne)
Hugues Fabrice Zango é o primeiro medalhista da história de Burkina Faso (Foto: REUTERS/Clodagh Kilcoyne)

O saltador Hugues Fabrice Zango se tornou o primeiro atleta da História de Burkina Faso a ganhar uma medalha nas Olimpíadas na madrugada desta quinta-feira. No salto triplo outdoor, Zango conquistou o bronze com uma marca de 17.47m, após quase ficar de fora das finais, ao se classificar em 12ª nas classificatórias, a última colocação que dava uma vaga para a prova decisiva.

Com o terceiro lugar, Zango segue uma sequência de recordes batidos na carreira. Em setembro de 2019, ele terminou em terceiro lugar no salto triplo no Mundial de Atletismo, o que o levou a se tornar o primeiro atleta de Burkina Faso a ganhar uma medalha no campeonato.

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Em janeiro de 2021, Zango não apenas carimbou novamente seu nome na História do país da África Ocidental, mas também na do mundo, ao bater o recorde mundial do salto triplo indoor com a marca de 18,07m.

Após ficar em 34ª na Rio-2016, Zango superou o medalhista de prata no Rio de Janeiro, o americano Will Claye, quie ficou em quarto lugar. O vencedor da final em Tóquio foi o português Pedro Pichardo, que nasceu em Cuba. O chinês Yaming Zhu ficou com a prata.

A trajetória de Zango no atletismo começou de certa forma por acaso. Sua vida no esporte iniciou no taekwondo, apesar de futebol e ciclismo serem as modalidades que tradicionalmente mais interessam os burkinabés. Ele chegou a tentar o futebol, mas logo foi para o atletismo na adolescência, quando numa competição escolar um treinador o viu e acreditou que ele poderia ser um bom saltador.

Zango começou a treinar na modalidade em 2012. Quatro anos depois, mudou-se para a França. Na Rio-2016, teve uma atuação aquém do atleta que se tornaria cinco anos mais tarde, deixando a competição na 34ª colocação.

Mas a história de Zargo se transformaria completamente, ainda mais vindo de um dos países menos desenvolvidos do mundo. Burkina Faso ocupa a 8ª pior colocação no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU.Publicação do governo de Burkina Faso encorajando atletas olímpicos

O país vive uma espiral de violência nos últimos anos causada principalmente por jihadista, o que levou Burkina Faso a ultrapassar a marca de um milhão de pessoas internamente deslocadas no seu território. No massacre mais mortal desde 2015, pelo menos 138 pessoas foram assassinadas em uma vila no Nordeste do país em junho deste ano, em um ataque executado principalmente por crianças entre 12 e 14 anos.

Como se estivesse em um túnel de desesperança que parece não ter fim, Burkina Faso tem hoje um atleta que já é uma referência para as novas gerações.

— Quando você começa no atletismo em Burkina Faso, você tem a impressão de estar na parte mais baixa da escada. Mas ao quebrar o recorde mundial ele provou que nós também podemos fazer isso — disse Khaled Sawadogo, que treina no mesmo campo de terra onde Zango começou, ao Voice of America antes da participação de Zango nos Jogos. — Eu estou mirando em 2024 [próxima edição dos Jogos, em Paris]. Estou fazendo disso meu objetivo pessoal.

E Zango não é obcecado em zerar tudo apenas no esporte. Formado em engenharia elétrica, ele tem dois mestrados: um em eletrônica e energia elétrica e outro em engenharia de sistemas elétricos na Universidade de Artois, na França, onde atualmente faz doutorado em engenharia elétrica. Vindo de um país com baixos índices de educação, ele também sonha em fazer história na sala de aula.

— Nas nossas universidades [em Burkina Faso], especialmente em disciplinas técnicas, nós temos apenas professores estrangeiros dando aula — disse ele ao site das Olimpíadas. — Meu objetivo é estar entre os primeiros professores locais e compartilhar meu conhecimento com os estudantes do meu país.

Após bater o recorde mundial do salto triplo indoor, Zango anunciou uma meta bem ambiciosa, ainda mais para um atleta vindo de um país que até então nunca tinha subido num pódio olímpico.

— Ontem, o objetivo era ir à Olimpíada e ganhar uma medalha — afirmou Zango à BBC após bater o recorde mundial. — Mas agora a meta é ir à Olimpíada e ganhar a medalha de ouro.

Agora, após assinar o seu nome em mais um capítulo da História, ele com certeza não vai parar por aí.

— Usain Bolt levou o esporte a outro nível. Ele ultrapassou os limites humanos, e é isso que eu quero agora. Melhorar o recorde mundial — afirmou antes da Olimpíada. — 18,29m [recorde do salto triplo outdoor] é bom, mas não acho que esse seja o limite humano. Quando eu me tornar o recordista mundial, terei feito de tudo.

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