Noite de violência racial e incêndios em região mapuche no Chile

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Cidade de Curacautin, no estado do Arizona, durante protestos na região de Araucanía, no sul do Chile, em 2 de agosto de 2020.
Cidade de Curacautin, no estado do Arizona, durante protestos na região de Araucanía, no sul do Chile, em 2 de agosto de 2020.

A região de Araucanía, no sul do Chile, viveu um dia violento após o ataque a cinco sedes municipais e o confronto entre mapuches, polícia e grupos civis "anti-indígenas", que agravaram um conflito de longa data com um componente racial.

Os tumultos começaram no sábado durante o toque de recolher noturno, em vigor no país há mais de quatro meses devido à pandemia, e após a ordem de despejo da sede municipal de Curacautín, tomada há seis dias pelos indígenas mapuche em apoio à longa greve de fome sustentada pelo "machi" (guia espiritual) Celestino Córdova.

Córdova, condenado a 18 anos de prisão pelo assassinato de um casal de idosos em 2013 após incendiar sua fazenda, deseja retornar a sua casa na cidade de Temuco, capital de Araucanía - cerca de 600 km ao sul de Santiago -, para renovar seu "rewe" ou energia espiritual.

O despejo causou confrontos entre indígenas, policiais e grupos contrários aos mapuche.

Relatos do incidente, principalmente devido à participação de grupos civis, rapidamente chegaram a outras quatro sede municipais ocupadas ilegalmente por indígenas (Traiguén, Victoria, Ercilla e Collipulli), onde também foram registrados confrontos. Edifícios dos municípios de Traiguén e Ercilla foram incendiados.

"Ontem foi um dia doloroso para o Chile. Especialmente para a região de Araucanía, com incêndios e enfrentamentos de cidadãos ", disse o subsecretário do Interior, Juan Francisco Galli.

Em uma declaração à imprensa neste domingo da casa do governo em Santiago, Galli informou ainda que 48 pessoas foram detidas, entre elas, 10 menores.

Segundo o prefeito de Traiguén, Ricardo Sanhueza, o edifício ficou 90% destruído.

"O panorama é complexo, tudo é muito doloroso", disse à imprensa local. Ele também alertou que após a intervenção de grupos civis "poderia haver um antes e depois e isso poderia complicar ainda mais o antigo conflito indígena na região".

"A pressão dos cidadãos obrigou os Carabineros a despejar as pessoas que ocupavam nossa sede municipal", disse Javier Jaramillo, prefeito de Victoria, ao canal local 24 horas.

- Polêmica visita -

Os eventos ocorreram no dia seguinte à visita do novo Ministro do Interior e Segurança, Víctor Pérez. O militante da extrema direita e ex-prefeito indicado pela ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), pedia o despejo dos locais invadidos.

Pérez, recebido entre protestos, afirmou que, por trás dos atentados das últimas existem "grupos com financiamento, capacidade operacional e logística, determinados para que não haja paz ".

Embora grupos mapuches radicais tenham reivindicado alguns ataques para pressionar a saída de empresas florestais de territórios que consideram seus por direitos ancestrais, também existem queixas de auto-ataques destinados a cobrar seguros e de armadilhas policiais.

"O ministro veio incentivar a violência e o ódio racial", disse o "werkén", ou líder mapuche, Aucán Huilcamán.

Cerca de 700.000 habitantes de um total de 18 milhões, se reconhecem como mapuches.

A maioria está localizada em La Araucanía, uma região com níveis de pobreza duas vezes maior que o restante do Chile.

Após a chegada dos colonizadores espanhóis ao Chile em 1541 e outros processos, os mapuches foram relegados a ocupar cerca de 5% de seus antigos territórios e hoje lutam para recuperar parte deles.

Agrupados em pequenas comunidades, sem espaço para plantar ou criar animais, e divididos, a maioria teve que desistir de seus meios de subsistência tradicionais e migrar para as cidades.

"O Estado chileno não cumpriu seu dever de garantir a paz, respeitando os direitos humanos e condenando todas as expressões de racismo", afirmou o diretor do Instituto Nacional de Direitos Humanos, Sergio Micco.