Noivado entre Bolsonaro e Regina Duarte tem tudo para dar certo. E essa pode não ser uma boa notícia

A atriz Regina Duarte conversa com jornalistas após desembarcar em Brasília para se encontrar com Jair Bolsonaro. Adriano Machado/Reuters

Na terra arrasada que se tornou a Secretaria da Cultura no governo Bolsonaro, qualquer mato que brote já é floresta.

Regina Duarte assumiu o noivado com Jair Bolsonaro entre risos, abraços e gracejos. 

Não tem, no meio artístico, quem não observe a aproximação com certa aflição -- diferentemente de Roberto Alvim, seu antecessor, ela tem uma história a zelar. Há quem deseje sorte. Outros, cuidado. 

E há quem, sem tanto freio, já anteveja o casamento do ano entre Sinhozinho Malta e a Viúva Porcina, como fez Lima Duarte.

Mas a verdade é que o vídeo em que um ex-secretário se convertia em cosplay de Joseph Goebbles facilitou o trabalho de qualquer pessoa que o suceder: qualquer trabalho que não ecoe ideias ou símbolos nazistas já terá sido avanço.

Sim, é esse o nível que a coisa chegou. Não ser neonazista virou credencial.

O que não reduz a possibilidade de Regina Duarte pisar em outros terrenos minados, sobretudo os que ainda confundem Estado com preceitos religiosos.

Leia mais no blog do Matheus Pichonelli

Bolsonaro vê só vantagens em caso de casamento. Com a atriz, ganha outra aliada indemissível, a exemplo de Sergio Moro e Paulo Guedes, é verdade; mas numa estratégia dupla ele minimizaria a pecha de perseguidor da classe artística (até noivou de uma artista, vejam só) e diminui, um pouco, as críticas por ter montado uma equipe majoritariamente masculina.

Até onde se sabe, o “noivado” entre o presidente e a atriz provoca ciúmes na ala olavista que se instalou e/ou controla os títeres do território cultural.

Pergunta para quem já foi atropelado pelo gabinete do ódio para saber como é. Regina poderia conversar com Joice Hasselmann antes de subir ao altar, mas talvez seja pedir demais.

Mesmo demitindo Alvim, Bolsonaro já deu mostras de que estava alinhado com a ideia de que a arte brasileira está “degenerada” e precisa de um banho conservador com os sabonetes da família e o xampu do patriotismo.

Regina pode ser conservadora em política e até na economia (direito dela, vale lembrar), mas vem de um meio liberal nos costumes. O flerte com o governo acontece enquanto tem contrato com a TV Globo, declarada inimiga pelo seu possível futuro patrão.

Se tem algo que une hoje o bolsonarismo até mais do que espingarda e ódio ao PT é a ideia de que o Brasil só terá jeito quando deixar de assistir sem-vergonhice de novela.

Se ceder à ala que quer patrulhar, vasculhar e definir o que deve ou não ser consumido pelo público, Regina não vai ficar impossibilitada apenas de circular entre seus pares. Terá de contradizer a si mesma.

No vídeo em que publicizou seu apoio ao futuro presidente, a atriz dizia que Bolsonaro era um “cara do bem”, “patriota”, “que respeita as instituições”.

Ela dizia esperar que o governo preservasse a liberdade de expressão, a continuidade da Lava Jato, combatesse a impunidade, enfrentasse a violência e entendesse que o brasileiro não aceitaria mais censura e que a arte deveria ser livre. “Quem tem de aprovar, elogiar, prestigiar, recusar, falar mal, criticar, detonar é o público. Não se pode deixar tudo na mão do governo. Reprimir criação artística é coisa de ditadura”, declarou.

Os princípios são claros, e em um ano de governo já deu para perceber o que era expectativa e o que é realidade. 

Será que Regina já se deu conta de que vai trabalhar para quem acha que índio está quase virando ser humano, que turista só é bem-vindo ao Brasil se for para fazer sexo com mulher e que política cultural só beneficiou pornografia até hoje?

Ou a carta de princípios era também conversa furada de campanha?

Se recuar das expectativas, e aceitar que a classe artística siga recriminada sob sua secretaria, o Brasil inteiro saberá que aquela Regina Duarte esperançosa na TV era apenas uma das muitas personagens que a atriz interpretou ao longo da vida.

Uma personagem ingênua que via ditadura e corrupção à esquerda e fazia vista grossa para a direita que diz amém.

Na secretaria, ela saberá, caso aceite a proposta, que uma coisa é interpretar a esperança no papel. Outra, bem outra, é botar a carta de princípios em cena.