Nome quente no cinema nacional, a portuguesa Isabél Zuaa viverá Lilith no cinema

Eduardo Vanini
El - A atriz portuguesa Isabél Zuaa

Isabél Zuaa tem as novelas da Globo como as suas primeiras oficinas teatrais. Ela se lembra de, ainda menina, caminhar pelas ruas da Zona Rural de Lisboa, onde morava, imitando a personagem Dara, interpretada por Tereza Seiblitz em “Explode coração”, sucesso da década de 1990. “Andava cheia de panos, dizendo: ‘Eu sou uma cigana preta’”, recorda-se a atriz portuguesa, de 32 anos, em meio a risadas. As primas acabavam envolvidas na brincadeira, nem sempre prazerosa para “amadores”. “Eu reproduzia as cenas, e elas ficavam exaustas, porque tinham que ensaiar. Diziam: ‘não quero mais brincar com a Isa, ela é muito rigorosa. Sempre fui assim. Amo o meu trabalho, me divirto muito, mas gosto de fazê-lo bem e me sentir orgulhosa.”

O título de “cigana”, por sua vez, parece perseguir a atriz, que vive sem residência fixa atualmente, enquanto circula entre Lisboa, Rio e Cabo Verde, em função de seus trabalhos no cinema e no teatro. “Acabei me desfazendo da casa no Rio há três anos, e do meu endereço em Lisboa há um.” Na época dessa entrevista, em fevereiro, Isabél estava hospedada na casa da artista plástica e amiga Rita Wainer. “Tenho problemas com hotel porque gosto de fazer meu suco verde de manhã”, justifica-se.

A passagem pela cidade estava atrelada à primeira parte das gravações do filme “Lilith”, coprodução entre Brasil e Argentina dirigida por Bruno Safadi. Ela interpreta a personagem-título do longa, que teria sido a antecessora de Eva (Nash Laila), no paraíso habitado por Adão (Renato Góes), segundo algumas teorias. “É muito emocionante falar sobre os poderes das mulheres e abordá-los em meio a todos esses mitos”, descreve Isabél.

A produção, segundo ela, é atemporal, com fases no Jardim do Éden, na Idade Média e na era contemporânea, com cenas gravadas em Teresópolis, na Região dos Lagos e num estúdio no Rio. Em junho, vai ser rodada a parte restante, em meio a um deserto na Argentina, durante o inverno. “Tivemos vários desafios, como filmar debaixo de chuva e fazer takes de 15 minutos com texto decorado”, menciona ela, que voltou a Lisboa para fazer dois espetáculos até a retomada das filmagens.

Filha de mãe angolana e pai da Guiné-Bissau, Isabél foi criada em meio a uma vizinhança formada por uma maioria de imigrantes africanos, sendo ela e boa parte dos pares de sua geração os primeiros a nascerem fora da África. “Tenho uma infância muito portuguesa e muito africana, o que é uma dádiva para mim. Essa mistura também é muito forte no Brasil, país com o qual me identifico muito.”

Já a sua formação como artista passa pela Escola de Artes do Chapitô e pelo Conservatório Nacional, ambos em Lisboa, com uma escala no Rio, a reboque de um intercâmbio na UniRio. Se bem que “escala” pode não ser o termo mais apropriado. “Era para eu passar cinco meses e acabei ficando sete anos”, pondera, antes de rasgar elogios à cidade. “Adoro a relação que as pessoas têm com o corpo por aqui. Acho todos sexies. Quando cheguei, ficava impressionada com os cariocas no calçadão. Depois, em Madureira, quando fui ao Baile Charme, fiquei encantada com aquela quantidade de corpos diferentes se amando e sendo felizes. Foi algo que me inspirou muito.”

O mergulho em águas tropicais ao longo de todos esses anos foi suficiente para que a atriz deixasse a sua marca no cinema nacional. Só para citar dois trabalhos de grande projeção, Isabél teve papeis de destaque nos longas “Joaquim” (2017), de Marcelo Gomes, e “As boas maneiras” (2017), de Marco Dutra, em que ela dividiu o protagonismo com Marjorie Estiano. Com essas produções, cruzou tapetes de importantes festivais internacionais de cinema, como os de Berlim, Cannes e Locarno. Também houve tempo para uma participação na série “Sob pressão”, da Globo. Mas, e as amadas novelas da infância? “Já recebi alguns convites. Quero muito e sei que vai acontecer. Mas vou viver isso com calma, através de uma personagem bacana.”

Entre os próximos lançamentos, Isabél também está em “Pedro”, longa de Laís Bodanzky, que traz Cauã Reymond no papel de Dom Pedro I. Ela encarna Dirce, uma mulher escravizada que não aceita as condições impostas. “Apesar de eu ser uma pessoa doce e brincalhona, tenho esse espírito rebelde. E, dentro desses personagens históricos e escravocratas, procuro sempre adicionar uma autoestima. É importante trazer outras perspectivas para a nossa história.”

Encarnar papéis como esse, ela reconhece, não é fácil. “Imaginar o sofrimento dessas pessoas é duro. Você sai, faz uma terapia holística, e aquilo se dilui. Imaginar que essa convenção tem resquícios até hoje, porém, é o mais cruel. Mas estamos aqui para para trazer esperança e outras imagens.”

Mensagens poderosas demais para se restringirem a apenas um canto do mundo, seja ele qual for.