Norte e Sul apresentam recuperação econômica mais rápida do que outras regiões, aponta BC

Gabriel Shinohara
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Jorge William / Agência O Globo
Jorge William / Agência O Globo

BRASÍLIA — A volta da mobilidade da população ainda em maio no Norte e evolução mais positiva da crise sanitária no Sul foram essenciais para a recuperação econômica mais rápida das duas regiões. A análise consta no Boletim Regional divulgado nesta sexta-feira pelo Banco Central (BC).

No Norte, a atividade económica teve o maior ritmo de recuperação e subiu 6,7% no trimestre de junho, julho e agosto, já superando o nível pré-pandemia. Na avaliação do BC, além do aumento da mobilidade, a indústria voltada para o mercado doméstico de bens duráveis e para exportação de commodities, ajudaram na retomada da economia.

A autoridade monetária ainda ressalta que benefícios sociais, como o auxílio emergencial, atingem uma porcentagem maior da população na região e auxiliam na recuperação, com aumento no consumo, por exemplo.

“Os crescimentos do comércio, da prestação de serviços e da produção industrial foram superiores aos das demais regiões, e refletiram também em indicadores relativamente melhores no mercado de trabalho”.

Com crescimento de 5,1%, o Sul ainda não recuperou do tombo causado pela crise, mas registra uma retomada mais rápida do que as outras regiões. A recuperação é desigual entre os setores, com o comércio e a indústria em um ritmo maior do que os serviços.

No entanto, o mercado de trabalho ainda demora a voltar aos níveis anteriores. Há baixa recomposição dos empregos, com exceção da construção civil, que tem mostrado uma retomada mais rápida.

“A prestação de serviços, cujas atividades ainda refletem as restrições ao funcionamento e o isolamento social, foram as mais impactadas. A despeito da debilidade da reação, houve contratação de trabalhadores na quase totalidade dos segmentos com carteira assinada no trimestre”.

Centro-Oeste, Nordeste e Sudeste

O Centro-Oeste registrou a menor recuperação, de 0,5% frente ao trimestre anterior, porque também foi a região que menos sofreu o impacto da crise na economia. Além da continuidade das exportações de commodities, o setor indústria do Centro-Oeste foi o único a se recuperar para o nível pré-pandemia.

“A vocação agrícola e a produção recorde de grãos impulsionaram as indústrias de processamento de alimentos e os serviços de logística, mitigando os efeitos adversos durante o período mais crítico de restrição de circulação e funcionamento das empresas”.

A expectativa para o próximo ano é de crescimento na produção de grãos, o que deve impulsionar a atividade econômica da região.

“A economia do Centro-Oeste manteve relativamente estável o nível de atividade ao longo do ano, sustentado pelo peso do agronegócio na estrutura produtiva. As colheitas recordes de soja e milho contribuíram para os resultados até a metade do ano. Adicionalmente a desvalorização cambial e o nível de preços das commodities agrícolas devem estimular o setor agropecuário na próxima safra”.

No Sudeste também há recuperação, mas ainda em níveis mais baixos do que no Norte e Sul. O crescimento foi de 4,3% na comparação com o trimestre encerrado em maio, que tinha registrado queda de 6,8%. De acordo com BC, dados mais recentes apontam para uma continuidade dessas retomada em setembro e outubro.

“O aumento gradual da mobilidade social permitiu retomada da indústria e do comércio e, em menor medida, do setor de serviços, com reflexos positivos sobre o mercado de trabalho”.

O auxílio emergencial e a expansão das concessões de crédito auxiliaram na recuperação parcial da atividade econômica no Nordeste, de 2,8%. Apesar disso, a região continua apresentando a maior queda em comparação com o período pré-pandemia. No trimestre encerrado em maio, a redução da atividade tinha sido de 7,1%.

“ Esse resultado repercute os desempenhos regionais mais fracos nos serviços e na indústria, além de piores indicadores no mercado de trabalho. O comércio ampliado, favorecido pelo auxílio emergencial, registra crescimento acima da média nacional”.

Projeção nacional

Na avaliação do Banco Central, o ritmo de recuperação da economia nacional está mais intenso do que o antecipado, mas ainda registra evoluções diferentes dependendo de cada setor e região. O comércio, por exemplo, está em forte recuperação enquanto os serviços permanecem deprimidos, pois são mais diretamente afetados pelo distanciamento social.

“Regionalmente, também se observa recuperação não homogênea das economias, refletindo, em alguns casos, a estrutura produtiva distinta, e, em outros, as diferenças do aumento da mobilidade e dos impulsos dos programas emergenciais”.

O boletim destaca o peso do auxílio emergencial nessa recuperação, que permitiu a retomada mais rápida em setores específicos, como o comércio de bens duráveis. Esse fator contribui para a incerteza com relação a retomada da economia, juntamente com a imprevisibilidade da evolução da pandemia e o “necessário ajuste” dos gastos públicos em 2021.

“Nesse sentido, em termos regionais, essa incerteza sobre o ritmo de recuperação econômica é ainda maior para as economias mais impactadas pelos benefícios emergenciais”.