"Nos custa um pouco" evitar beijos e abraços, dizem os calorosos venezuelanos

Por Esteban ROJAS
Várias pessoas com máscaras caminham pelo bairro de Petare, em Caracas

José Antonio caminha por um mercado em Caracas distribuindo máscaras em plena quarentena pelo novo coronavírus. Evita tocar as pessoas, o que não é tão fácil para os venezuelanos, acostumados a cumprimentos calorosos a toda voz com beijos, abraços e tapas.

"Nos custa um pouco", reconhece José Antonio Frea com uma risada, entre as barracas de comida do Mercado de Guaicaipuro, no centro de Caracas.

"Ei, meu amor!", grita a uma jovem que trabalha em um quiosque de doces antes de lhe entregar uma das máscaras de pano coloridas que leva em uma bolsa. Um familiar as fabrica e ele as vende, contou, a "preço de custo" para combater a violenta alta de preços devido à crescente demanda.

A pandemia causou sete mortes na Venezuela, com mais de 150 casos confirmados, segundo dados oficiais.

O país cumpre três semanas em quarentena, mas as pessoas podem sair para comprar alimentos, medicamentos e produtos básicos. A escassez de gasolina, no entanto, provoca grandes aglomerações em postos de abastecimento. E é aí que os cumprimentos aparecem.

José Antonio tenta obedecer: "Tem que ter prevenção" e "deixarmos de nos cumprimentar com a mão", comenta com a AFP.

Entretanto, não é fácil mudar o 'chip'. José acaba tendo um deslize ao se esbarrar com um conhecido e, em um ato de reflexo, os dois apertaram as mãos, mas as soltaram rapidamente quando notaram.

"É claro que cortar elementos culturais vai nos custar e vamos sempre, em um primeiro momento, tender a agarrar o outro, porque não nos conformamos com apertar as mãos, também nos abraçamos... e nos apertamos. E, quando conversamos, estamos tocando o interlocutor", expressa Acosta, pesquisadora do Centro de Estudos de Desenvolvimento da Universidade Central da Venezuela (UCV).

- "Não se deixem beijar por ninguém!" -

O presidente Nicolás Maduro se juntou à campanha contra a "beijoquice".

"Isso de estar dando beijos (...), beijoquices e abraços, vamos deixar para depois", afirmou na televisão.

Seu governo recomenda cumprimentos alternativos: "o militar", com a mão na testa; "o apache", com a mão estendida mostrando a palma; ou "o roqueiro", com o indicador e mindinho estendidos e os dedos médio e anular fechados junto ao polegar.

A venezuelana María de Abreu espera que a pandemia termine "algum dia", com vontade de distribuir novamente beijos e abraços entre familiares e amigos: "Isso não se pode perder".